fev
02
2010
0

Vivendo mais

Por Jorge Carrano

Os avanços da medicina e do saneamento básico estão entre os principais responsáveis pelo aumento da longevidade dos seres humanos. Ironicamente, as empresas estão vivendo menos. Será que isso é parte do mesmo fenômeno?

De acordo com o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro subiu de 67 anos em 1991, para 72,5 anos em 2007. Pode parecer pouco, se comparado a alguns países como o Japão, mas vale lembrar que em 1950 a expectativa de quem nascia por aqui era de apenas 46 anos…

Segundo o consultor holandês Arie De Geus,  que já foi presidente da Shell, em entrevista publicada pelo Valor Econômico em 7/11/2008, as empresas estão vivendo menos. Parte disso se deve ao imediatismo das decisões que visam apenas retorno para os acionistas. As ações que realmente garantem longevidade das empresas, como  compromisso com seus clientes, atuação sustentável, equilíbrio (e bom senso) financeiro, qualidade dos produtos, entre outros, estão cedendo espaço para a necessidade do “resultado trimestral”.

Voltemos aos homens. Há alguns anos, quando um jovem começava sua trajetória profissional em uma empresa, em boa parte dos casos sua expectativa era construir uma carreira e aposentar-se ali mesmo. Hoje, essa perspectiva não existe. E pior, não faz sequer sentido para os jovens. Para a geração que agora chega ao mercado, as coisas são mais “descartáveis”. Não apenas os objetos.

Se você pode viver com boa saúde até 70 ou 80 anos, é natural que acabe por desenvolver muitas atividades diferentes ao longo da vida. São comuns casos de pessoas que já tiveram algumas carreiras distintas, às vezes bem diferentes, como medicina e direito.

Se somos capazes de nos renovar, por que isso não acontece com as empresas? Por que a maioria delas morre com poucos anos ou décadas de vida?

Porque, para viver mais, é preciso alguns sacrifícios. Fazer dieta e exercícios físicos, por exemplo, são comprovadamente hábitos que garantem qualidade de vida melhor. E a chave da questão está na palavra “hábito”.  Muitas empresas se habituaram a obter receitas financeiras em detrimento dos ganhos com a produção e venda de bons produtos.

Mas qual seria uma possivel receita de longevidade das empresas? Em primeiro lugar,  pensar na saúde de seus colaboradores  e do planeta.  E cuidar também da sua própria saúde financeira, claro.  Os “exercícios físicos”, por sua vez, poderiam começar pelos próprios executivos, normalmente sedentários, que precisam sair de seus escritórios refrigerados e ir até os consumidores, em busca de compreender suas necessidades e, a partir daí, estabelecer uma relação mais duradoura.

As causas da longevidade dos homens e das empresas são as mesmas: saúde, equilíbrio e trabalho.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Sustentabilidade |
jan
26
2010
4

Reflexões no aeroporto

Por Jorge Carrano

Na sala de embarque do aeroporto de Congonhas (SP) observo que quase todos estão com um fone de ouvido (principalmente os mais jovens). Boa parte deles, navega no laptop simultaneamente. Estamos todos ficando “plugados”. Os Blackberries estão tão comuns quanto terno azul marinho.

Me pergunto se com isso estamos ouvindo mais ou menos música, se estamos lendo mais ou menos textos interessantes. Possivelmente, mais, é claro. Mas não seriam apenas “mais do mesmo”?

Hoje, meu iPod é, na verdade, minha própria rádio. Entro no carro, ligo o aparelho no sistema de som do veículo e lá vou eu, com músicas suficientes para aguentar uns dois dias de viagem.

Mas acabo ouvindo apenas as músicas que gosto. Como nosso tempo é cada vez mais curto, muitas vezes desistimos da “aventura” de procurar e baixar algo novo. Pelo mesmo motivo, também não somos mais  “surpreendidos” por uma nova música no rádio do carro.

Penso que, por estarmos cada vez mais atolados na avalanche de informações, com um dia de 24h que parece ter  6h, não conseguimos aproveitar a variedade oferecida pelos diversos serviços do ambiente web. É mais ou menos como morar em São Paulo, onde existem centenas de  ótimos restaurantes e shows disponíveis todos os dias. Mas quantos você consegue aproveitar, tendo um dia de trabalho e muitas horas de trânsito?

Mesmo que sejamos participantes de redes sociais, possivelmente iremos procurar grupos cujos interesses e perspectivas sejam similares aos nossos. De novo, a grande variedade de ofertas, ideias e espaços é substituída por nossa tendência a procurar o igual, o conhecido, o que dá “conforto”. Apenas buscamos eco para nossos próprios pensamentos e ideias.

Chamaram agora o meu voo, e em poucos segundos vários laptops voltam para suas mochilas.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
jan
19
2010
1

Por que assistimos menos televisão?

Por Jorge Carrano

Nos meios de comunicação de massa (broadcast), como TV, Rádio e jornais impressos, a variedade de assuntos abordados não pode ser muito grande. Por conta dos limites no espaço físico das páginas, ou pelo tempo da programação (que, no máximo, pode ter 24h), e ainda considerando a necessidade de intervalos comerciais, aos editores cabe a árdua tarefa de escolher o que é notícia. O que vai ter a oportunidade de chegar ao público.

Como diz Chris Anderson em seu livro The Long Tail (A Cauda Longa, Editora Campus, 2006), esse fato baseia-se no conceito de “economia da escassez”. Como o tempo e o espaço são escassos, é preciso deixar muitos conteúdos de fora. O mesmo fenômeno pode ser observado nas gôndolas dos supermercados e nas prateleiras das lojas em geral. Assim, o comprador de uma grande rede nada mais é que um “editor” de produtos, que é o “conteúdo” do mercado.

Com o advento das novas tecnologias baseadas em web, isso mudou. A Amazon pode oferecer milhares de livros, coisa que nenhuma loja física no mundo pode comportar, nem o poderoso Wal Mart, por onde passam mais de 200 milhões de pessoas. Por semana.

Com os meios de comunicação, o impacto foi igualmente arrasador. Mas talvez não pelos motivos que geralmente são apresentados, como se os consumidores de informação estivessem simplesmente abandonando os meios  tradicionais. A questão gira em torno de dois eixos: o tipo de conteúdo, e a forma como é difundido.

O conteúdo de qualquer meio de comunicação limitado pela escassez de espaço (físico e/ou tempo) buscará atingir o máximo de pessoas. Sem audiência, não há receita publicitária. As pessoas têm interesses comuns, como previsão do tempo, notícias de economia (macro e micro), eleições e grandes eventos esportivos (Copa do Mundo e Olimpíadas), para citar alguns. Mas têm também interesses muito específicos, como a criação de poodles, charutos cubanos, vinhos da Borgonha, bijuterias, alimentos orgânicos, futsal, seriados dos anos 60, autorama, e por aí vai.

O que a midia tradicional faz é tentar difundir os interesses comuns, deixando de lado os particulares.

Mas as plataformas baseadas em web trouxeram justamente a tecnologia e a oportunidade de divulgar esses conteúdos de natureza específica, o que Chris Anderson chama de “conteúdo de nicho”.

Não creio ser correto afirmar que a midia tradicional será substituída pelas novas mídias. A Copa do Mundo de Futebol continuará a ser transmitida pela televisão, e atingirá, em 2010, provavelmente  uns 3 bilhões de habitantes, quase meio planeta.

Quanto à forma de difusão, a tecnologia viabilizou blogs, redes sociais e diversas outras possibilidades de interação e produção de conteúdo colaborativo, como a Wikipedia. Todas elas acessíveis pelo computador e, mais recentemente,  também pelo celular, o grande responsável pela “inclusão” de várias pessoas no universo digital. Afinal, segundo a Anatel,  eram quase 170 milhões de celulares habilitados em dezembro de 2009, número muito superior ao de computadores ligados à internet.

Ou seja, o sucesso desses novos meios está justamente em oferecer conteúdos específicos,  e de forma instantânea, pois o público para eles sempre existiu, só estava abandonado pela tirania das grades de programação.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
jan
12
2010
2

Twitter

Por Jorge Carrano

No agitado mundo da tecnologia, um dos destaques de 2009 foi o Twitter. Alguns o consideram apenas um modismo, como tantos já surgidos no mundo digital. Outros acreditam que pode se tornar uma poderosa ferramenta de comunicação. O fato é que os programadores da Twitter Inc. agora buscam desenvolver novos recursos que permitam às empresas obterem melhores resultados econômicos com o uso da ferramenta.

Afinal, monitorar o que o público diz sobre marcas e produtos é uma necessidade real, não virtual.

O Twitter foi fundado em São Francisco (EUA), em março de 2006, e ao final do ano passado já contabilizava mais de 50 milhões de usuários. O português é, hoje, a segunda língua mais utilizada pela rede.

O miniblog tem algumas diferenças importantes em relação a outras redes sociais. Mas antes de chegar a elas, é preciso fazer uma distinção, ainda que pareça um pouco acadêmica, entre rede social e midia social.

Mídias Sociais (social media) são ferramentas (programas) desenvolvidas para permitir a interação social on-line a partir do compartilhamento e da criação colaborativa de informação nos mais diversos formatos (textos, imagens, vídeos etc). De maneira simplificada, é um “recurso tecnológico”.

Por sua vez, as redes sociais são as relações que os indivíduos estabelecem em torno dessa plataforma tecnológica.  É a comunicação mediada por um computador, celular (que também é um computador) ou outros dispositivos.

As redes sociais, no entanto, têm diferentes configurações. Pense no Orkut, Facebook, YouTube ou Wikipedia. Todas são comunidades, no sentido de agruparem e aproximarem pessoas, ainda que seus recursos tecnológicos e perfis sejam diferentes.

Mas o Twitter traz algumas diferenças importantes. A primeira delas é a limitação de 140 caracteres de texto que cada post pode ter. Essa restrição, na verdade, tornou-se um diferencial do Twitter, obrigando as pessoas a serem mais suscintas. Novas formas de abreviar expressões estão surgindo. Se não houvesse essa limitação, seu formato seria ainda mais próximo dos blogs. Essa simplicidade é parte do sucesso, num mundo onde estamos cada vez mais atolados pelo volume crescente de informações que circulam ao nosso redor.

Outra diferença importante é o conceito de “seguidor” e não de “amigo”. Você não “convida” ninguém para seguir você no Twitter. A pessoa é que toma a decisão, unilateralmente.  Por fim, existem duas listas distintas de contatos: uma com a relação das pessoas que te seguem e outra com aqueles que você segue.

Mas, apesar do expressivo aumento no uso de redes sociais em todo o mundo, seu uso pelas empresas ainda é controverso.

A Rede Globo proibiu o uso da ferramenta por parte de seus funcionários, alegando que a proibição teria como objetivo proteger seus “conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores”.

Segundo o UOL,  a Folha de S.Paulo veda a publicação de “furos” e  recomenda que os autores não assumam posições em favor de um partido, candidato ou empresa. No máximo, os jornalistas podem fazer referência o material exclusivo e publicar um link para a reportagem.

A questão é que os blogs,  Orkut, Twitter e tantos outros surgiram como espaços para a expressão pessoal de ideias. A facilidade de editar e publicar conteúdos é parte fundamental do sucesso das midias sociais.

Mas quando um empregado usa uma rede social da empresa para expressar uma opinião pessoal, pode-se criar, de fato,  um problema para a empresa. Como sempre, bom senso e regras claras são fundamentais para preservar direitos e evitar conflitos.

Apesar desse risco, a adoção das redes sociais pelas empresas é uma tendência irreversível, e já consolidada em alguns mercados.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Digital, Marketing |
jan
05
2010
0

Resoluções de Ano Novo

Por Jorge Carrano

A cada virada do calendário, temos o hábito de fazer as chamadas “resoluções de Ano Novo”. Prometemos perder 15kg, parar de fumar, fazer atividades esportivas, nos estressar menos e passear mais, ficar mais tempo com os filhos e por aí vai. Mas, com frequência, o ano acaba e os quilos continuam lá, e não nos lembramos sequer de um fim de semana em paz.

O problema é que estabelecemos metas “ideais” e não metas “realistas”. Afinal, perder 7kg é bem mais viável que perder 15kg. Se sua meta é 15kg, e você emagrecer 10kg, vai ficar frustrado. Mas se sua meta for 7kg e você consegue os mesmos 10kg, terá superado o resultado.

Não significa reduzir o horizonte, mas apenas dividí-lo em etapas, e ir conquistando os degraus aos poucos.

Este ano minha lista está curta, e a divido com vocês:

1. Valorize seu tempo, mas respeite o dos outros.
2. Não aceite qualquer trabalho apenas pelo dinheiro.
3. Procure estar cercado de pessoas com valores fundamentais: alegria, honestidade, ética.
4. Produza menos lixo.
5. Demita os idiotas.

Feliz 2010.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Sustentabilidade |
dez
15
2009
1

Feliz modernidade

Por Jorge Carrano

Vivemos tão acelerados, que nem nos damos conta do ridículo que certas situações da vida moderna e ultraconectada nos impõe. Recebi a mensagem abaixo por e-mail e,  para encerrar o ano com bom humor, divido-a com nossos amigos e leitores.

Você percebe que está ficando louco quando:

1. Você envia e-mail ou MSN para conversar com a pessoa que trabalha na mesa ao lado da sua;

2. Você usa o celular na garagem de casa para pedir a alguém que o ajude a desembarcar as compras;

3. Esquecendo seu celular em casa (coisa que você não tinha há 10 anos), fica apavorado e volta para buscá-lo;

4. Você levanta  pela manhã e às vezes liga o computador antes de tomar café;

5. Você não sabe o preço de um envelope comum. Ou selo. Há anos.

6. A maioria das piadas que você conhece, recebeu por e-mail (e ainda por cima ri sozinho…);

7. Você fala o nome da empresa onde trabalha quando atende ao telefone em sua própria casa;

8. Você digita o ‘0′ para telefonar de sua casa;

10. Você vai ao trabalho quando o dia ainda está clareando e volta quando já escureceu de novo;

11. Quando seu computador para de funcionar, parece que foi seu coração que parou;

11. Você está lendo esta lista e está concordando com a cabeça e sorrindo;

12. Você está tão interessado na leitura, que nem reparou que a lista não tem o número 9;

13. Você  retornou à lista para verificar se é verdade que falta o 9, e nem viu que tem dois números 11;

14. Você já está pensando para quem você vai enviar o link desta página, ou copiar o texto e enviar por e-mail;

Feliz  modernidade.

Que em 2010 a gente perceba que “moderno” mesmo é se conectar também com a família, os amigos e a natureza.

Até.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
dez
08
2009
2

Não mexa nesse layout!

Por Jorge Carrano

Outro dia, um cliente me perguntou: quanto tempo você acha que um site pode ficar com o mesmo layout? Resposta: depende do site.

Em primeiro lugar, vamos assumir que, em geral, somos avessos às mudanças, sobretudo aquelas que nos
causam algum desconforto, ou nos obrigam a reaprender coisas, ou mudar a forma como fazemos alguma coisa.

Quando o assunto é web, a coisa se complica um pouco. Primeiro porque a internet é ainda um fenômeno recente. Os jovens de 20 e poucos anos aprenderam a usar a web ainda crianças. As crianças de hoje (digamos, até uns 12 anos) já nasceram no mundo conectado dos e-mails, celulares e redes sociais. Para eles, essas ferramentas de interatividade e relacionamento são “utensílios”, como geladeiras ou aparelhos de DVD.

Os mais velhos - que ainda brigam com a programação do videocassete - têm dificuldades em se relacionar com o computador ou com os modernos celulares.

Então, o primeiro aspecto a considerar na resposta é: depende do seu cliente. Se seu público é jovem, será mais fácil reformular seu site com mais frequência e introduzir novos recursos. Se seu público é mais velho, então é preciso repensar se as novidades vão, de fato, atrair mais visitantes, ou espantá-los.

Outro ponto importante diz respeito ao “cansaço” dos projetos. O cliente, que visita seu próprio site diariamente, ou a agência que o desenvolve, sofrem um desgaste natural de quem trabalha num mesmo projeto muito tempo. Simplesmente “não aguentamos mais ver aquele layout”.

Mas os internautas não têm esse desgaste. Novamente, outro componente da resposta é “depende”. Nesse caso, depende do objetivo do site.

Para os sites de perfil “utilitário” - bancos, por exemplo - pode ser mau negócio revolucionar com frequência o layout. Isso trará uma perda de tempo dos usuários para “aprenderem” a usar a nova interface. Pare e pense no seu próprio caso. Certamente, você é capaz de descrever, com razoável precisão, os cliques que segue até chegar ao extrato de sua conta corrente. Agora imagine se, a cada mês, o banco mudasse os botões de lugar, mudasse a sequência das telas ou as cores que ajudam você a se guiar. Seria extremamente cansativo ficar “procurando” as coisas. Voltamos à questão inicial, de sermos avessos às mudanças que nos tomam tempo.

Esses aspectos do uso - da usabilidade - do site precisam ser cuidadosamente avaliados, pois o tempo dos internautas é precioso. E ninguém entra no site de um banco por diversão. Se você entra para fazer alguma coisa, quanto mais rápido conseguir resolver, melhor.

Já se você administra um site cujo objetivo é entreter, seu espaço para ousar e criar é muito maior, pois o visitante está predisposto a descobrir novas coisas.

É fato que todo site fica velho. Seja na linguagem, no layout ou na tecnologia na qual foi desenvolvido. Mas todo bom site também está constantemente em mudança, em processo de atualização.

Assim, pode ser mais interessante implementar pequenos avanços, melhorias constantes, ao invés de promover “revoluções”.

A internet deve ser encarada como uma longa jornada, e a presença das empresas nela - seja em websites, blogs, redes sociais ou o que mais vier por aí - é um caminho, não um destino.

É um meio, não um fim.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
nov
25
2009
0

A hipocrisia verde

Por Jorge Carrano

Sabe aquela empresa que planta árvores na frente do prédio, faz uma linda campanha publicitária de suas ações responsáveis, mas joga o resíduo industrial no rio localizado nos fundos da fábrica? Pois é, ela faz greenwashing.

O termo é usado quando empresas, instituições ou mesmo governos alardeiam práticas ambientais positivas quando, na verdade, atuam de maneira prejudicial ao meio ambiente.

Trata-se de uma apropriação indevida de uma virtude - a atuação ambiental responsável - mascarada pelo “marketing verde” dos comerciais de TV repletos de crianças sorridentes,  bichos e plantas.

O termo surgiu em meados da década de 80, cunhado pelo ambientalista Jay Westerveld. Ele se referia a uma promoção feita por alguns hotéis que pediam aos hóspedes para reutilizarem as toalhas, pois essa ação reduziria as lavagens, beneficiando assim o meio ambiente. Descobriu-se depois que essa era a única “ação ambiental” que os hotéis faziam, e buscava muito mais reduzir despesas do que proteger a natureza.

Muitas empresas têm sido acusadas de fazer esse marketing verde. Mas o McDonald’s foi além. A rede é inevitavelmente a referência (o benchmark…) quando o assunto é fast food. E quando o assunto é fast food, o assunto é obesidade (principalmente infantil), problemas cardíacos, diabetes e outros “efeitos colaterais” de uma alimentação ruim, rica em gorduras e açúcar, e pobre de nutrientes.

Os malefícios desse tipo de alimentação ficaram mais conhecidos em 2004, com o lançamento do filme Super Size Me,  produzido, dirigido e “estrelado” pelo cineasta americano Morgan Spurlock. Durante um mês, Morgan alimentou-se exclusivamente no McDonald’s, chegando a consumir mais de 5 mil calorias por dia. O filme mostra os efeitos disso em seu organismo, que levou 14 meses para recuperar o peso que tinha antes da aventura. Mas também aborda o aspecto psicológico do estímulo ao exagero, do consumo muito além do necessário. Se você acha que isso é privilégio dos americanos, consumistas como “estilo de vida”, lembre dos baldes de pipoca do Cinemark, não por acaso também de origem americana.

Pois bem, amigos, vejam essa: o McDonald’s agora é verde. Literalmente.

A rede resolveu pintar a fachada das lojas de verde, a mudou até seu tradicional logotipo, cujo fundo era vermelho. A mudança começou na Alemanha, e está prevista para outros países da Europa.

Fachada de loja do McDonald's na Europa (foto divulgação)

Fachada de loja na Europa (foto divulgação)

Mais greenwashing que isso, não pode haver.

Será que vão botar mais alface nos sanduíches?

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Marketing, Sustentabilidade |
nov
18
2009
0

Pop-up: o campeão de rejeição

Por Jorge Carrano

O formato pop-up, recurso muito explorado no início da internet, atualmente é o campeão de rejeição por parte dos usuários, segundo opinião de especialistas e pesquisas feitas com internautas.

Jakob Nielsen, considerado um dos maiores especialistas do mundo em usabilidade na internet, é um dos que argumentam contra o formato, baseado em dados de pesquisas divulgados em seu livro “Usabilidade na Web – projetando sites com qualidade” (Elsevier Editora, 2007).  Segundo ele, os pop-ups trazem dificuldades para usuários com problemas de visão ou coordenação motora, bem como ficaram associados, com o passar do tempo, a sites de pornografia e propagandas indesejadas.

De acordo com relatório da Forrester Research, 64% dos internautas consideram o formato irritante. Outra pesquisa, feita pela Bunnyfoot Universality, empresa de consultoria em usabilidade, apresentou resultados de testes com dezenas de indivíduos, que apontaram grande insatisfação com pop-ups, geralmente resultando em atitude negativa em relação ao website e à marca. Alguns dados dessa pesquisa:

•    Nome e logomarca da empresa foram fisicamente vistos em apenas 2% dos casos.
•    50% dos pop-ups foram fechados antes de serem carregados.
•    35% dos pop-ups foram ignorados completamente.
•    Não houve comentários positivos sobre os pop-ups de nenhum dos usuários testados.
•    60% dos usuários disseram não confiar em empresas que utilizam pop-ups.

Rob Stevens, diretor da empresa, afirmou que as marcas podem ser irreparavelmente prejudicadas por não abandonarem o uso desse recurso: “As marcas cometem suicídio ao investir em pop-ups, cujos efeitos vão além de incomodar o usuário; eles são impostos e causam frustração, além de provocar desconfiança. Pop-ups são, portanto, não apenas um grande desperdício de investimento como são também extremamente negativos para uma marca.”

Estudos nacionais apresentam resultados semelhantes, como a pesquisa do Studio Ideias realizada de junho a outubro de 2008 com jovens de 13 a 24 anos, que avaliou a receptividade a diversas mídias. O maior índice de rejeição ficou justamente com o pop-up, com grande margem de diferença em relação aos demais.

Essas e outras indicações de que o formato é capaz de trazer prejuízos de imagem às marcas e empresas justificam, por exemplo, a decisão do portal UOL de abandonar essa modalidade de anúncio a partir de janeiro de 2009.

Os primeiros comerciais de televisão lembravam a movimentação do teatro (até por conta da câmera parada) e o estilo da locução era de rádio, as referências da época em que a TV surgiu. Eram totalmente inadequados, e parecem inacreditáveis hoje em dia. Foram necessários alguns anos até que a TV encontrasse o modelo publicitário - forma, conteúdo e duração - adequado às características (e limitações) dos equipamentos, e descobrisse a linguagem correta para atingir seus espectadores.

A internet passa pelo mesmo processo. Conforme os equipamentos de acesso à rede evoluem - computadores, celulares etc - e as velocidades de conexão se multiplicam, os formatos usados também evoluem. Outras formas de interatividade surgem, como as redes sociais, e isso tem impacto direto na forma de anunciar.

Um pop-up animado já foi uma grande “surpresa” para visitantes de alguns sites no passado. Hoje, é um formato invasivo, sendo necessário buscar novas formas de conquistar o mais valioso patrimônio da era da comunicação instantânea: a atenção de nossos usuários.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Digital, Marketing |
nov
10
2009
0

Em busca da publicidade eficaz

Por Jorge Carrano

Apesar da internet comercial já ter quase duas décadas, as empresas de comunicação ainda não descobriram formas de anunciar produtos e serviços compatíveis com a evolução da web.

É fácil perceber que a era da passividade acabou. Nada de ficar à frente da TV e receber apenas as mensagens comerciais no velho formato “um” emissor para “n” receptores. No novo cenário da comunicação instantânea, o “espectador” é também “autor”.

Munidos de blogs, celulares, Twitter e outras tecnologias de comunicação rápida, as pessoas estão mudando sua relação com as informações e, por conseguinte, também suas relações com as marcas. Para o bem ou para o mal.

Formato pioneiro de publicidade on-line, o velho banner ainda está presente em muitos sites, mas sua eficácia hoje é bem questionada. A falta de um formato comprovadamente eficaz deixa os sites de conteúdo com dois problemas: por um lado tentam conter a onda de reprodução não autorizada de seu material, facilitada pela tecnologia do “copy/paste”, criando questões relativas ao direito autoral. O outro desafio é como obter receitas publicitárias para garantir a produção de conteúdo. É esse segundo aspecto que nos interessa aqui.

Acontece que o modelo de uso da publicidade para sustentar a independência editorial e a viabilidade financeira de um veículo não se adaptou ao meio digital.

Alguns aspectos podem nos ajudar a entender esse fenômeno. O primeiro é simples. Nós, consumidores, principalmente os que têm mais de 30 anos, nos acostumamos a uma TV e rádio gratuitos,  e por isso aceitamos a “intromissão” da publicidade na forma de intervalos comerciais. Os próprios meios de comunicação  sempre enfatizaram a importância da receita publicitária para viabilizar sua operação de forma independente. Isso porque, sem a propaganda, não haveria como custear a produção de conteúdos, ou garantir a independência editorial fundamental ao exercício do jornalismo. Considerando que um capítulo de novela da Rede Globo ou uma edição do Jornal Nacional custam milhares de reais, é um argumento inquestionável.

Parte do motivo pelo qual esse modelo publicitário não se adaptou aos novos formatos digitais reside justamente nesse aspecto econômico. Se o custo de produção e distribuição de conteúdo é elevadíssimo nos meios de comunicação tradicionais (aqui me refiro em especial a TV, jornais e revistas), foram muito reduzidos pela tecnologia.

Nos novos meios,  o custo de distribuição de conteúdo é infinitamente menor. É a era da veiculação instantânea. Mas o custo de produzir conteúdo de qualidade e inédito ainda é relativamente alto.

Outro aspecto a considerar é que os novos meios de comunicação em tempo real quebraram a relação emissor > receptor. Ou seja, não somos mais apenas espectadores passivos, somos agora (se quisermos) também ativos emissores de conteúdo, ainda que a maioria dessa massa chamada genericamente de “conteúdo” seja de péssima qualidade.

Diante disso, nossa tolerância para a publicidade invasiva declinou acentuadamente. Não aceitamos interrupções na leitura de nosso site favorito, muito menos receber mensagens comerciais não solicitadas, seja nas redes sociais, no celular ou no velho e-mail.

A ineficácia de muitos formatos usados -  pop-ups, banners e suas variações -  explica-se justamente porque seguem o modelo usado por décadas nos meios tradicionais, e essa intolerância a eles pode ser comprovada em comunidades de consumidores de todos os tipos de produtos e serviços,  e também em várias pesquisas já realizadas.

Entre os campeões de rejeição, o pop-up aparece com destaque. Falaremos disso num próximo artigo.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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