Por Jorge Carrano
O que leva as pessoas a estarem com outras?
Nossa sobrevivência como espécie está diretamente ligada à capacidade de articular linguagens e viver em grupos, com regras sociais mais ou menos civilizadas.
O próprio conceito de civilização não existe fora do contexto social. Somos todos seres sociais. Outras espécies também o são – as formigas, como primeiro modelo óbvio e bem sucedido – mas somente nós produzimos cultura.
Na evolução tecnológica que marcou nossa história desde a invenção da roda, há cerca de 6 mil anos, as redes sociais surgem não como uma “revolução” de qualquer tipo, mas como uma evolução ou amplificação dos recursos criados pela internet – essa sim, “revolucionária”- e suas conexões com dispositivos móveis, estes também bastante inovadores. Basta lembrar que celulares foram, durante décadas, objetos possíveis somente na ficção científica.
Voltamos então à pergunta original: o que leva as pessoas a estarem nas redes sociais? A resposta beira o ridículo, de tão óbvia: estão lá porque os outros estão. Se sua família e todos os seus amigos se mudarem de cidade, você não ficaria tentado a ir também? Se todos resolverem se vestir apenas de branco ou preto, será que você nem ao menos cogitaria o mesmo? A força do grupo é inegável no ser humano. Observe as multidões nas manifestações ou na saída dos jogos de futebol. As mesmas pessoas cordiais do dia a dia se comportam como selvagens. Nosso modelo social baseado no imediatismo, no egoísmo dos interesses e na falta de respeito pelo outro, que aqui inclui o planeta, nos reduziram a babuínos com cartões de crédito.
O Facebook tem hoje cerca de um bilhão de usuários. Quantos são, efetivamente, ativos, é difícil saber, mas creio que boa parte esteja lá apenas porque os outros estão. Fazem seus perfis e colocam lá umas bobagens quaisquer apenas para não terem que se justificar, diante dos amigos, de que não estão. Seriam vistos como “obsoletos” e mesmo muito jovens, seriam “dinossauros” para seus antenados amigos.
O problema do Facebook, assim como de todos os ambientes que envolvem pessoas é que ele sofre com o ritmo de crescimento e, inegavelmente, de envelhecimento dessas pessoas. Todos já achamos graça, aos 15 anos, de coisas que hoje nos parecem ridículas. Ou mesmo infames. Quem de nós nunca experimentou a estranha sensação de ficar anos sem ver um amigo de infância e, ao reencontrá-lo 20 anos depois, achar que ele continua um adolescente? “Fulano não mudou nada!” O que pode haver de pior do que isso?
O fim do Facebook é certo. A questão é só quando. O Facebook não acabará, no entanto, por conta de uma briga comercial com a Apple ou Google, como parte da Imprensa, de modo maniqueísta, afirma. Ele acabará naturalmente, com o passar do tempo. Seus usuários se cansarão daquelas fotos todas iguais, daquelas toneladas de “lindaaaaaaaaaa”, “eu queroooooo”, “kkkkkkkkk” e outras que até lembram algum idioma, mas são outra coisa.
O fim do Facebook virá quando seus usuários crescerem, e perceberem quão fútil ele se tornou. Ou simplesmente quando não tiverem mais tempo para ele. Quando nos tornamos mais velhos, valorizamos outras coisas. Numa fórmula simples, trocamos “quantidade” por “qualidade”.
Alguém então dirá que você pode restringir o número de amigos, em busca dessa “qualidade”. Mas ao fazer isso, a rede perde o sentido. A graça está em ter um monte de supostos amigos, boa parte desconhecidos ou quase, porque do contrário não haverá um volume significativo de imagens e posts para “curtir”, “comentar” ou “compartilhar”.
Temos muitas outras opções de diversão. A internet traz inúmeras possibilidades, as TVs por assinatura oferecem cada vez mais canais, o modelo de streaming é uma realidade da banda larga, os games estão cada vez mais incríveis e uma alternativa cada vez mais acessível e o celular já se tornou uma arena de puro entretenimento.
As redes sociais, conceitualmente, são decorrentes da internet e não deixarão de existir. O Facebook, em especial, é um fenômeno sem precedentes. Em poucos meses atingiu 50 milhões de usuários. O rádio levou 34 anos para atingir essa marca. A televisão levou 13 anos. Embora o ritmo de crescimento da rede já esteja desacelerando em países como os EUA e Inglaterra, ainda continuará forte nos países em desenvolvimento. Por terem uma grande parcela de população formada por jovens e, no caso do Brasil, uma população que recentemente começou a ter acesso a computadores e smartphones, esses países ainda levarão algum tempo a atingir um nível de saturação.
A abertura do capital da empresa, em maio de 2012, trouxe um sinal preocupante. As ações, alguns dias após o IPO, valiam cerca de U$ 19, metade dos U$ 38 do dia de seu lançamento. Não vamos nos iludir. O “mercado”, essa entidade abstrata e pragmática, avalia sem qualquer viés sentimental as empresas.
Esta abertura do capital produziu novos milionários, que abandonaram ou abandonarão a sociedade com Zuckerberg em busca de sua própria empresa, ou simplesmente de gastar seus milhões numa praia do Caribe. Esses engenheiros, programadores e outros profissionais que fizeram o sucesso da rede farão falta. E há ainda os investidores, que exigirão da empresa atitudes mais transparentes, algum nível de governança corporativa. Isso tudo tem impacto na forma e na velocidade de fazer negócios.
Apesar de todos esses aspectos, é a banalização dos conteúdos postados pelos próprios usuários, que fará com que as pessoas abandonem o Facebook. A síndrome da felicidade permanente, a ditadura do sorriso e aquela sensação de estar eternamente num comercial de margarina deixam de ter graça depois de certo tempo.
O Facebook, entretanto, não se extinguirá integralmente. Outros recursos serão oferecidos, e outros usuários chegarão, por certo. Mas uma vez que, conceitualmente, a rede comece a ser percebida de forma menos inovadora, o próprio processo de entrada de novos usuários sofrerá desaceleração. E, finalmente, irá parar. E é assim que o Facebook, a exemplo do que aconteceu com o Orkut, começará a morrer.
É como um carro, que anda velozmente numa estrada reta que parece não ter fim. Em certo ponto da estrada, a gasolina acaba, ou o motorista para de acelerar. O veículo ainda seguirá algum tempo, embalado na inércia animada de seus passageiros. Mas vai ficar pela estrada, como tantas outras invenções, tecnologias e novidades ficaram. Em determinado ponto, passará outro veículo por ele, mais leve, mais veloz, com gente mais animada, seguindo o curso natural das coisas.