jul
29
2010
0

E-ducação

Por Jorge Carrano

Apesar de já existir há mais de 40 anos, o correio eletrônico (e-mail) ainda é mal utilizado. E isso acontece tanto na esfera corporativa quando na pessoal.

Do lado empresarial, os sites deixam muito a desejar. Experimente um “fale conosco”. Primeiro, você precisará achar os canais (se disponíveis) para fazer sua solicitação ou questionamento, e existe uma grande chance de sua mensagem nunca ser respondida. Vários estudos têm mostrando como esse recurso elementar da interatividade ainda é bastante negligenciado.

Do lado dos usuários em geral, reina ainda um desconhecimento da etiqueta no uso do e-mail. Nunca é demais lembrar alguns princípios básicos de uma boa “e-ducação”:

1.  Não envie mensagens para pessoas que nada têm a ver com o assunto. Isso apenas gera tráfego desnecessário na rede, e entope a caixa postal das pessoas. Muita gente tem essa mania por querer “mostrar serviço”.

2. Evite anexar arquivos muito pesados. Se possível, é melhor colocar o arquivo numa página web e enviar apenas o link por e-mail para que o destinatário faça o download do arquivo. Vale ainda observar que alguns formatos de arquivo (.exe e .zip, por exemplo) são normalmente bloqueados nos firewalls das empresas, pois são extensões que podem trazer vírus ou outras ameaças.

3. Cuidado com o português. O fato de ser um meio rápido não dá direito de assassinar  o idioma. Revise o que escreveu antes de enviar, e evite o excesso de abreviações. Gírias também não cabem numa mensagem profissional.

4. Não escreva somente com letras maiúsculas. São como se você estivesse “gritando”. Tampouco escreva tudo em minúsculas, pois denota pouco caso com o assunto ou o destinatário.

5. Seja educado. Não custa começar a mensagem com um  “prezado fulano” e terminar com um “atenciosamente” ou suas variações. O excesso de objetividade pode ser interpretado como falta de educação. E, geralmente, é.

6. Cuidado com os pedidos “para ontem”. A regra aqui é simples: se tudo é prioridade, nada é prioridade. Ou seja, só peça uma coisa com urgência se essa realmente existir… do contrário você fica igual àquele menino que vivia contando mentiras, eu um dia, quando era verdade, ninguém mais acreditava nele.

7. Por fim, não se esqueça que, ao usar o e-mail da empresa, você dever redobrar a atenção, pois estará (querendo ou não) falando em nome da empresa. Algumas companhias têm regras claras sobre uso de e-mails. Vale a pena conhecê-las logo.

Se você acha que essas dicas são óbvias demais, basta abrir sua caixa de entrada, e dar uma olhada se algumas mensagens que você recebeu (será que enviou?) não cometem alguns desses equívocos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
jul
20
2010
0

A abdução do JB

Por Paulo Baiano *

Eu vivia o encantamento dos meus 20 anos quando, naquela distante tarde de 1972, entrei pela primeira vez  na nova sede do Jornal do Brasil. O mítico prédio cinzento da Avenida Brasil 500 era frio e feio, mas transpirava modernidade, ainda mais se comparado com a antiga e apertada sede na Avenida Rio Branco, um dos primeiros edifícios art-déco do Rio de Janeiro, testemunha ainda da abertura da Avenida Central, começo do século XX.

Lógico que, no instante seguinte, eu e alguns amigos – todos hoje respeitáveis senhores jornalistas – iniciamos uma animada corrida de cadeiras, pelos enormes corredores, ainda desertos. Até 1974 trabalhei ali, como repórter da Rádio Jornal do Brasil. Ainda me lembro dos estúdios enormes, com paredes de pedra. Lembro da redação, que ocupava um andar inteiro, e fervilhava dia e noite com o tic tac incessante das máquinas de escrever. Por lá passavam todos os “que importavam” - políticos, empresários, artistas, celebridades - anônimos, assessores de imprensa. Lembro do restaurante, um andar acima, com o pior café expresso que já tomei na vida - como o prédio era no meio do nada, não tinha jeito: uma hora qualquer, teríamos que fazer o sacrifício de subir pro café, para dar uma turbinada.

Lembro de 11 de setembro de 1973, quando os gorilas tomaram o poder no Chile: eu estava de plantão na Rádio, os telex eram cuspidos pelas máquinas em frenesi trazendo notícias horripilantes, em tempo (quase) real, que minutos depois estavam sendo lidas pelo locutor em edição extraordinária, após passarem por minha máquina de escrever.

Em 1985, voltei à Av. Brasil 500, para escrever sobre Filmes na TV no Caderno B. Tudo parecia igual: a redação barulhenta, as pessoas, as máquinas de escrever, as imensas mesas onde as páginas eram diagramadas a mão, com elegantes traços de lápis sobre o papel branco. As máquinas ainda rugiam na Sala do Telex, e até mesmo o café mantinha aquele gosto horroroso.

Dois anos depois, chegava à redação o primeiro computador, um PC XT, com monitor de fósforo verde. Não poderíamos saber que aquela máquina trazia a mensagem de um futuro distante, onde tudo aquilo em volta iria desaparecer, seria engolido por uma nova realidade, virtual, que o aparelho antecipava. Logo o tic tac das máquinas daria lugar a um silêncio de mosteiro, com as velhas Remingtons substituídas por computadores em rede, cada dia mais poderosos e velozes. Em alguns anos, com a modernidade reduzindo o tamanho de tudo, o próprio prédio da Av. Brasil 500 tornou-se um elefante branco (no caso, cinza), e o JB se mudaria para algumas salas comerciais, novamente na Rio Branco.

Hoje acordei com o anúncio de página central, no JB, do qual ainda sou assinante: a partir de 1 de setembro, acaba o Jornal do Brasil impresso: ele passará a existir somente na Internet, impalpável, virtual. No anúncio, eles tentam colocar o fato como um avanço rumo ao amanhã. Afirmam que os 180 empregados (dos quais, 60 jornalistas) continuam trabalhando normalmente. Chegam a dizer que o JB Virtual será ecologicamente correto, porque não irá gastar mais papel! Mas a verdade é que o Jornal do Brasil, centenário e respeitável, como tantas gerações de brasileiros conheceram, acabou. Soterrado por uma dívida de mais de 100 milhões de reais, décadas de roubalheira e má administração, o JB, revolucionário e aguerrido, chegou a seu fim. Triste? Como saber?

O prédio da Av. Brasil, durante anos uma ruína saqueada, por muito pouco não se transformou em uma favela e ponto de controle estratégico, de onde o Comando Vermelho  poderia fechar a saída do Rio de Janeiro com uma rajada de metralhadora.  As velhas rotativas lá ainda dormem, como monstros entorpecidos, conforme captado pelas belas fotos de Rogério Reis.

O que podemos tirar de tudo isto? Que nada é tão definitivo que não possa ser destruído, modificado. Mais uma vez a História e o Tempo nos mostram suas lições: tudo é passagem, processo, um caminho daqui prali, onde o que realmente permanece é o próprio caminho. E as lembranças que ele nos deixa.

O mundo virtual, implacavelmente, continua engolindo o universo físico em que vivemos. Tudo migra para dentro desta telinha onde você lê meu texto. Será que, algum dia, nós mesmos seremos abduzidos pela luz de LED e LCD, e de nós restará somente uma lembrança diáfana, na mente de infindáveis e sucessivas gerações de computadores e robôs, seres de silício e plástico, autossuficientes, novos dono do mundo, herdeiros do conhecimento humano?

Como dizia o grande filósofo Nelson Ned: “mas tudo passa, tudo passará…”

* Paulo Baiano é carioca de criação, jornalista de profissão, músico por vocação, leitor do JB por (falta de) opção.
www.paulobaiano.com.br
paulofortes@uol.com.br

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
jul
12
2010
2

Deveres de imagem

Por Jorge Carrano

A cada grande evento esportivo, os meios de comunicação divulgam as altas somas pagas por empresas para alguns atletas, na busca por associar suas marcas à imagem que estes famosos carregam. É uma fórmula já consagrada pela propaganda. Mas traz seus riscos.

Quando o golfista Tyger Woods se envolveu num escândalo sexual nos EUA, perdeu patrocinadores importantes, que lhe rendiam milhões de dólares em contratos publicitários. O mesmo já havia acontecido com o jogador de futebol americano O. J. Simpson, acusado do assassinato da ex-mulher, um caso de grande repercusão na mídia.

Durante a Copa que se encerrou ontem, os patrocinadores da Seleção Brasileira reclamaram com a CBF, por conta dos treinos secretos impostos pelo ex-técnico Dunga. Se você colocasse milhões de reais para assegurar a visibilidade de sua marca num evento da magnitude de uma Copa do Mundo, o mínimo que iria esperar é que sua marca fosse…vista.

E o que dizer do erro de marketing da mesma entidade ao aceitar que a Brahma fosse patrocinadora da seleção? A cerveja é boa, a empresa é séria, mas associar esporte com consumo de álcool é um absurdo total. Sem contar a falácia de marketing da empresa, que criou o mito de  “guerreiros” que existem apenas nos comerciais, já que os jogadores não tiveram a disposição para batalhar por nada além de seus cachês. A violência do Felipe Melo não vale como exemplo de “raça”.

Para ficar no caso mais recente e dramático, ainda dentro dos gramados, o episódio envolvendo o goleiro Bruno, do Flamengo, obrigou a Olympikus, marca que patrocinava o goleiro, a cancelar seu contrato e ainda recolher as milhares de peças - entre camisetas, chuteiras e luvas - que traziam o nome do jogador.

As empresas, de fato, correm um risco ao associar sua marca a alguns atletas. Mesmo o sereno e educado Kaká foi expulso (injustamente, ok) no jogo do Brasil contra a Costa do Marfim, e foi flagrado inúmeras vezes soltando palavrões. As onipresentes câmeras não perdoam mais ninguém.

Imagine como o pai vai explicar para o filho que seu ídolo, do qual o menino quis até uma camisa com nome impresso, teve um comportamento que o levou às páginas policiais?

Os atletas de ponta, assim como políticos, atores e celebridades em geral têm um poder de fascínio sobre a sociedade que os faz, naturalmente, serem modelos a seguir. Afinal, todos queremos, em maior ou menor grau, sermos bonitos, famosos, ricos e admirados. Alguns reclamam da falta de privacidade, mas não têm direito a ela além das paredes de seus lares, justamente porque vivem da exposição.

Para as empresas, os episódios deveriam servir de alerta para, ao menos, estudar com mais cuidado as associações que fazem (ou forçam) de suas marcas com pessoas “públicas”. Construir uma reputação demora anos, décadas. Destruí-la, pode ser rápida como um pontapé.

Para as celebridades, o recado também é claro: é preciso que tenham consciência da dimensão que ocupam no imaginário da sociedade, e que pensem não apenas nos direitos de exploração de sua imagem, mas nos deveres e valores que essa imagem dever representar.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
jul
06
2010
1

A alto custo do baixo custo

Por Jorge Carrano

Temos a clara consciência de que as novas tecnologias digitais tornaram a vida mais fácil e rápida.

Internet, celular, computadores e outros recursos fazem parte de nosso cotidiano há tempos e, por estarmos tão acostumados a eles, nem notamos como afetam nossa percepção do mundo.

Entre os muitos exemplos, um dos mais interessantes diz respeito à produção de imagens. Até há alguns anos, tirar uma foto era, no mínimo, um gesto que requeria duas providências: você precisava ter a máquina em mãos e ter filme na máquina.

Quantos de nós, nessa época, não precisamos sair correndo atrás de uma lojinha que vendesse pelicula para não perder o registro de algo interessante bem no meio de uma viagem?

A câmera digital veio render esse turista desprecavido, e mudou para sempre a relação do usuário com a fotografia.

Em pouco tempo, as câmeras invadiram outros espaços, como elevadores, ambientes públicos e privados de todo tipo, as ruas, os monitores e notebooks (que agora, inclusive, já vêm com câmeras embutidas) e, finalmente, os celulares.

Com isso, tirar uma foto ficou não apenas mais fácil, mas também mais disponível, pois quase sempre estamos com algum aparelho que oferece a câmera.

Isso é bom? Sim, há um lado legal nessa facilidade. Mas, como quase tudo, há desvantagens potenciais.

A principal delas é que ficamos menos seletivos quanto à qualidade. Como o filme em película era caro, não podíamos sair por aí fotografando qualquer coisa. Era preciso um certo cuidado. Hoje, com capacidades de armazenamento de muitos Megabytes, ninguém se preocupa muito. Vai fotografando tudo, depois você escolhe o que quer e deleta o resto, certo? Errado. Você acaba acumulando milhares de arquivos, e com isso não vê nada.

O velho álbum de fotografias impressas circulava pelas salas, as imagens eram “vistas”. Se você faz uma viagem e traz 2.000 fotos, nem o mais gentil e interessado amigo terá paciência para ver as imagens.

Além  da  qualidade da maioria das imagens ser ruim, justamente por não haver limites para a quantidade (resultado direto de ”ser muito barato”),  passamos a prestar menos atenção às coisas, numa ilusão digital de que, ao podermos registrar tudo quase de maneira ilimitada, estaríamos, de fato, guardando momentos preciosos.

Mais interessante seria registrar com os próprios olhos um monumento ou paisagem por alguns segundos ou minutos, e só então clicar. Ou não.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
23
2010
0

O bom, o mau e o feio

Em 1966, o diretor Sergio Leone dirigiu um clássico do western: “O bom, o mau e o feio” (The good, the bad and the ugly), estranhamente traduzido para “Três homens em conflito”, em português.

Nessa Copa de jogos sem qualidade e técnicos histriônicos, pudemos ver os três personagens do filme em campo.

O “bom” seria o educado Parreira, que foi cumprimentar o técnico francês Raymond Domenech, o feio da vez. E põe feio nisso. Pegou um time de bons jogadores, e só conseguiu produzir cenas patéticas dentro e fora do gramado. Recusar a mão do Parreira foi sua (des)graça final, um comportamento incompatível com o fair play. Ou mesmo com a boa educação de casa.

Mais feio que ele, o “mau” é mesmo o nosso Dunga. Mal-educado quando o time ganha, mal-educado quando o time perde. Síndrome de perseguido pela Imprensa. E, para tudo, tem a necessidade de dizer que “tem que ser homem”.

A agressão gratuita ao jornalista Alex Escobar, da TV Globo (veja abaixo) é só mais uma prova de que ele não está preparado para o cargo que ocupa. Melhor, não é digno de ocupar um cargo dessa importância. Maltrata o português e os jornalistas. Aliás, botar a culpa de tudo na Imprensa virou esporte favorito dos tiranos (moda lançada por Hugo Chávez) e dos incompetentes.

Não adianta ganhar a Copa, e perder o respeito.

Mas não podemos nos iludir: Dunga, afinal, é um anão.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura |
jun
14
2010
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A pixação criativa

Por Jorge Carrano

O Segundo Caderno do O Globo de hoje traz uma interessante matéria de capa, falando do Poster Boy. O artista de 28 anos, cujo nome real é Henry Matyjewicz,  fez inúmeras intervenções em cartazes publicitários espalhados pelo metrô de Nova York. Em geral, suas críticas são voltadas ao capitalismo e ao nosso modelo de consumo, com passagens também por temas políticos.

O curioso é que tenha sido preso por vandalismo. Por que curioso? Porque estamos acostumados a ver no mundo digital muitas paródicas, críticas, reinterpretações e mashups envolvendo vídeos, músicas e outras manifestações artísticas. Algumas delas, inclusive, viram verdadeiros hits, com muitos milhares de visualizações e downloads. É um fenômeno característico do universo digital que vivemos, e que volta e meia acende novas polêmicas envolvendo direitos autorais.

Mas, em que aspecto uma “interferência” numa estação de metrô feita num anúncio do McDonald’s, por exemplo, é diferente de uma ação similar publicada no YouTube? A diferença é que, provavelmente, no YouTube será mais vista do que pelos passageiros da estação…

Vale lembrar que, além dos cartazes publicitários, outros “equipamentos” (lâmpadas, catracas, bancos etc) são diariamente depredados e pixados, e  não só no metrô, mas em toda a cidade. Por que uma “pixação” crítica e em alguns casos, engraçada, é considerada tão grave?

Além de ter as ideias, o artista tem ainda que ser bem veloz, pois sua ação precisa estar concluída em poucos minutos, antes que guardas cheguem à plataforma após o flagrante dos circuitos internos de TV.

Veja algumas das peças produzidas:

O mais curioso é que, apesar de preso, seu trabalho está sendo divulgado num livro chamado “The war of art”, que será publicado ainda esse mês.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
08
2010
0

O futuro do trabalho

Por Jorge Carrano

Uma pessoa que tivesse deixado a Terra há 30 anos, e retornasse agora, encontraria um mundo muito diferente. Há 3 décadas, não havia internet, celulares, TVs de LCD, DVD, eletrodomésticos e carros tão avançados. As mulheres não trabalhavam fora, o mundo vivia dividido entre duas potências atômicas, ninguém se preocupava com o lixo, o esgotamento dos recursos naturais não era levado em consideração, entre tantas outras questões.

Apesar da mudança de comportamentos e de toda a modernidade tecnológica ao nosso redor, ainda seguimos padrões ultrapassados. Nosso método de trabalho, por exemplo, ainda é basicamente o mesmo de há 100 anos.

A Revolução Industrial ocorreu pela concentração de meios de produção extremamente caros: máquinas, matérias-primas, energia. Era preciso levar os trabalhadores até eles, e seus proprietários eram poderosos justamente por deter esses recursos.

Todo o processo do trabalho era baseado na necessidade de concentrar tudo num lugar só, inclusive os operários. O fluxo de trabalhadores de casa para o trabalho - elevado hoje ao máximo do stress nas grandes metrópoles - foi apenas uma das consequências desse modelo.

Embora seja fácil  notar que parte do trabalho intelectual pode ser feita em casa há tempos (quem nunca respondeu um e-mail ou preparou uma apresentação durante o fim de semana?) não sou dos que acredita que o trabalho poderá ser realizado totalmente em casa no futuro. A interação entre as pessoas ainda é fundamental para muitas atividades. E o ser humano precisa estar próximo de outros.

Se, por um lado, o trabalho em casa pode parecer ficção, tampouco podemos imaginar um futuro onde todos tenham que gastar horas no trânsito para chegar ao escritório. Não há como comportar mais carros, mais ruas e mais poluição que virão com a manutenção do modelo atual.

Fala-se muito em como as tecnologias de comunicação como videoconferências têm ajudado, por exemplo, a reduzir o número de viagens dos executivos para reuniões. Mas essa é uma fração muito pequena do problema.

Algumas alternativas têm sido consideradas:

- Mudança nos horários de trabalho. Por que todos precisam trabalhar de 9h às 18h, e de segunda a sexta-feira? Isso é ainda um padrão de “fábrica”, que parece anacrônico na sociedade do conhecimento.

- Criação de unidades descentralizadas. Será mesmo que todas as dezenas de departamentos de uma grande corporação precisam ficar no mesmo endereço?  A criação de duas ou três “sedes” de uma empresa numa mesma cidade poderia ser um caminho. Assim, ao menos parte dos empregados poderia morar mais perto do trabalho.

As mudanças ocorridas nas últimas décadas  impactam muitas áreas de nossa vida. A linha tênue que hoje separa a vida “privada” da “profissional” ficará cada vez mais invisível numa sociedade onde as pessoas terão apenas tarefas “cerebrais”, deixando para as máquinas o que os operários dos séculos passados faziam com as mãos.

Criar as condições - a começar pela educação - para que toda essa população possa fazer parte dessa  sociedade do conhecimento é, portanto, um dos grandes desafios para os próximos anos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
01
2010
0

Quem ler viverá

Por Luiz Fernando Brandão

Uma das maiores livrarias brasileiras e da América Latina, detentora de mais de três milhões de títulos, começou recentemente a vender livros eletrônicos. E anunciou a novidade em todas as lojas de sua rede com um slogan bastante sugestivo: “O importante é ler”. Sugestivo e feliz, ao resumir em quatro palavras uma questão que, por força da tendência humana em fazer escolhas a partir de extremos, para muitos parece inconciliável: papel ou digital, o que é melhor?

No cipoal em que arrisca enredar-se o senso comum — não raro constituído de posicionamentos e opiniões equivocados porque incompletos — na discussão sobre o destino da vida na Terra, nosso velho companheiro papel é há tempos objeto de um sem-número de questionamentos, e bastante injustiçado por sinal.  Protagonista de boa parte do processo civilizatório, ele foi e continuará a ser importante na difusão do conhecimento e da cultura, na saúde, higiene e bem-estar das pessoas, assim como em diversas outras finalidades igualmente nobres.

Mas quem já não leu, na assinatura de uma mensagem eletrônica, o alerta “Antes de imprimir, pense no meio ambiente”? Ou o “Use papel reciclado, salve uma árvore”, disseminado nas escolas por professores empenhados em conscientizar aqueles que, do nosso legado, construirão o depois de amanhã, em tempos de aquecimento global?

Ambas as sugestões reforçam cuidados importantes e necessários, mas sua interpretação numa leitura superficial pode induzir ao erro. A louvável intenção original — conscientizar sobre a conservação da cobertura vegetal, os perigos do consumo irresponsável e a importância da reciclagem — é atropelada por frases de efeito que não privilegiam o conhecimento aprofundado. As pessoas seguem sem paradas para reflexão a corrente dominante, e terminam convencidas de que é apenas na natureza do produto, e não também na forma como é fabricado e utilizado, que devem basear suas preferências e exercer a parte que lhes cabe na construção do futuro de seus filhos e netos.

Sérios equívocos já foram cometidos pelo homem, ao achar-se capaz de interpretar o comportamento do ambiente e interferir para ajudar. Lembra-nos o escritor Michael Crichton, no romance Estado de medo, entre inúmeros outros exemplos nessa linha, o ocorrido no início do século 20 no Parque Nacional Yellowstone, nos Estados Unidos. Nesta que foi a primeira área oficialmente designada como reserva ambiental no mundo, funcionários ciosos de sua missão, ao observarem mudanças no ambiente e julgando entendê-las, resolveram que a população de lobos crescera demais e trataram de exterminá-la. O desequilíbrio provocado pela intervenção radical na cadeia alimentar foi possivelmente um dos primeiros desastres ambientais da história moderna perpetrados com a melhor das intenções.

Faltava na época, como falta ainda em nossos dias, sobretudo para os leigos, um entendimento mais completo das questões relacionadas ao ambiente. A tendência ao engano embasado na interpretação simplista do que se apresenta como verdade absoluta prevalece. A constatação do erro, infelizmente, vem muito tempo depois, quando os efeitos podem ser irreversíveis.

Assim, por força da repetição, acredita-se que, como quase todos os papéis são feitos de madeira, por extensão seu consumo constituiria uma ameaça ao verde do planeta. Por isso, as árvores devem ser “salvas” — uma verdade parcial. Esquece-se ou desconhece-se que, já há décadas, a maior parte do papel consumido no mundo provém de florestas renováveis para uso comercial, de rápido crescimento, cujo cultivo não apenas contribui para proteger e conservar as árvores nativas, a biodiversidade e os recursos hídricos, mas também é hoje, comprovadamente, uma das formas mais eficazes de estocar carbono e mitigar o chamado efeito estufa.

Ainda na década de 90, um estudo independente que é tão interessante quanto pouco conhecido foi encomendado ao Instituto Internacional para o Desenvolvimento Ambiental (IIED), de Londres, por um grupo de empresários desejosos de respostas confiáveis para essas questões. No trabalho, intitulado “O ciclo sustentável do papel”, um grupo multidisciplinar rastreou a pegada de carbono de todo o ciclo de vida do papel e concluiu que seu uso sustentável é viabilizado por um conjunto de quatro expedientes: o emprego de fibras virgens oriundas de fontes renováveis; a reciclagem de parcela do papel usado; a incineração e a transformação em energia de parte do que foi descartado; e a destinação do restante a aterros sanitários.

De volta ao livro tradicional e ao eletrônico, ambos, como tudo na vida, têm vantagens e desvantagens. Assim como outros bens de amplo consumo, se fabricados e utilizados de forma irresponsável, acarretam prejuízos. E não necessariamente implicam escolhas definitivas e excludentes, como expressou com muita propriedade e a dose certa de emoção o articulista Gianni Carta — evidente amante da boa literatura — em edição recente da revista Carta Capital.

Acredito que só o conhecimento, o espírito crítico e a sabedoria, proporcionados entre outras fontes pela leitura, podem nos ajudar a superar as ameaças que as forças insondáveis da natureza, associadas ao modelo econômico prevalente no mundo dito civilizado, trouxeram à vida no planeta – as alterações climáticas, sem dúvida, a mais premente. O plantio de árvores para múltiplas finalidades, o desenvolvimento de tecnologias limpas para uma economia de baixo carbono e, evidentemente, o consumo esclarecido estão entre as frentes a serem exploradas nas adaptações que se impõem. Sempre fundamentadas em políticas públicas que privilegiem a educação.

Por paradoxal que possa parecer, escolhas pautadas por informação incompleta são tão arriscadas quanto as fundamentadas no completo desconhecimento. Quase todo dia somos demandados a nos posicionar sobre as mais diversas questões – econômicas, políticas, ambientais e tantas outras. Para fazer isso com propriedade, a experiência e o bom senso recomendam uma boa leitura. Quem viver lerá.

Luiz Fernando Brandão é consultor de comunicação, jornalista e tradutor.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
mai
25
2010
1

Comigo não, violão

Por Jorge Carrano

Que o ser humano sempre foi egoísta, já sabemos. Faz parte da nossa natureza, dizem alguns, e as exceções se transformam em ídolos, mártires ou pessoas admiráveis simplesmente por serem humanas.

O egoísmo assume também proporções nacionais, com países que tomam ações para preservar interesses de seus cidadãos - o que é legítimo, diga-se - em detrimento das aspirações de outros. Um exemplo óbvio disso é a xenofobia em países desenvolvidos, que tentam conter as imigrações em massa do antes chamado “terceiro mundo”. França, Alemanha, Itália e outros países europeus vivem esse drama com frequência, e o tema assume as cores da bandeira nacional quando ocorrem eleições.

Há também um espírito de egoísmo em nossa relação com o planeta. Dele só tiramos insumos e devolvemos lixo. Jogamos lixo nas ruas, porque “não é problema nosso”. No máximo, é mais trabalho para o lixeiro. Ainda existem pessoas que acrescentam a estúpida frase: “se não fizer isso, o lixeiro não tem trabalho”, como se houvesse algum componente social em seu comportamento porco.

Acontece que o mundo está menor. Não apenas porque a população cresce rapidamente, mas porque o comércio internacional e as tecnologias de comunicação o deixaram mais próximo.

Se antes a erupção de um vulcão lá na Islândia prejudicava apenas os moradores do país ou, no máximo, os vizinhos mais próximos, agora o fenômeno paraliza vôos em São Paulo e Buenos Aires. Cria um colapso no sistema de trens e rodovias. E vira problema de todo mundo, mesmo aqueles distantes alguns milhares de quilômetros

As crises financeiras são outro exemplo. Um banco quebra, derruba uma bolsa de valores, e a economia inteira do planeta desmorona como aqueles dominós, que vão caindo em sequência.

Como cidadãos, é preciso que sejamos capazes de compreender que não estamos sozinhos. Nossos hábitos de consumo - e descarte, principalmente - são problemas de todos. Nossas ações deixarão pegadas no futuro.

As empresas, igualmente, precisam perceber que estão agora conectadas com um universo muito mais amplo do que as fronteiras fisicas de suas fábricas. A tão propalada sustentabilidade nada mais é do que observar, respeitar e cuidar de todos esses aspectos: produção, pessoas, ambiente.

Um deslize que em outras épocas passaria despercebido, hoje torna-se conhecido ao redor do mundo com a velocidade do instantâneo. E impactos imprevisíveis. É necessária uma mudança na forma de encarar sua relação com o planeta.

Nessa complexa teia em que fomos todos envolvidos, não dá para menosprezar um problema, simplesmente considerando-o alheio. O tempo mudou. Ao invés do egoísta “comigo não, violão”, é chegado o momento do conectado e solidário “comigo sim, tamborim”.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
mai
18
2010
0

Concentração

Por Jorge Carrano

Com a chegada de mais uma Copa do Mundo, os meios de comunicação apresentam as cidades  e estádios que receberão os jogos. E também os hotéis onde nossa delegação se hospedará, sempre muito bonitos e luxuosos. No quarto dos jogadores, grandes TVs de LCD, internet banda larga sem fio (wireless), camas king size, entre outros confortos.

Não sei se no mundo de hoje um jogador pode se concentrar, de fato, enquanto estiver colocando conteúdos no seu blog ou Twitter, ou conferindo as versões dos jornais na internet, que podem elogiar ou criticar sua atuação.

Quem tem filhos adolescentes sabe o quanto é difícil que eles façam uma coisa só de cada vez. Estão no computador, mas  de olho na televisão ligada e ainda ouvindo música no iPod, tudo ao mesmo tempo. Perguntados se conseguem se concentrar, respondem que sim, mas meu palpite é que dizem isso apenas por não saberem o que é concentração.

Concentração não é a capacidade de “fragmentar a atenção” entre várias ações. Pelo contrário, é a capacidade de colocar toda a atenção num ponto, num foco central.

As ofertas de conteúdo, conectividade e interação são hoje muito grandes, e  boa parte dos jovens está sempre  “plugada” em algum aparelho. Como o dia continua a ter 24h, o jeito é dividir a atenção entre as inúmeras alternativas.

Outro exemplo de excessiva conectividade pode ser visto nos jovens que fazem intercâmbio no exterior. Mesmo distantes, continuam com o hábito de se conectar com os amigos aqui no Brasil, mantendo longas conversas pelo MSN, Skype, e-mail ou redes sociais. Isso interfere na capacidade, ou melhor, na oportunidade de interagirem com as pessoas do país que visitam. Diferentes visões de mundo, diferentes hábitos e culturas. Tudo muito enriquecedor. Antigamente, quando você viajava, ligava para casa no máximo uma vez por semana, e falava rápido, o suficiente para dizer que estava tudo correndo bem.

Penso que devemos – sobretudo os que têm filhos pequenos – ter cuidado para que as oportunidades de conexão não se tornem um fator negativo por conta da excessiva dependência que podemos ter delas.

Não se trata, evidentemente, de proibir ou ser contra esse tipo de recurso, até porque ele é inevitável, veio para ficar e estará cada vez mais presente.

Mas se não conseguirmos formas de concentrar nossa mente em algumas atividades, viveremos com a crescente sensação de estarmos fazendo cada vez mais coisas, e realizando menos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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