iObama
Por Jorge Carrano
Nas últimas semanas, muito se escreveu a respeito da vitória de Barack Obama. Em geral, com muita ênfase dada ao fato de ser negro (“filho de pai Queniano e mãe branca”), embora todo mundo diga que é “afro-descendente”, bem ao gosto da hipocrisia do “politicamente correto” por lá. Sim, porque, a rigor, somos todos afro-descendentes, já que nossos antepassados comuns surgiram na África…
Mas a eleição de Obama traz outros aspectos interessantes para o estudo da comunicação, e quero destacar apenas dois.
Em primeiro lugar, o uso da Internet. De fato, os mais jovens têm atração e usam mais as novas tecnologias. Já cresceram num mundo conectado por computadores, telefones celulares, games, redes sociais etc. É notório, também, a preferência desse eleitor mais jovem pelo partido Democrata. Historicamente, o partido apóia causas mais alinhadas com o pensamento dos mais jovens, como o apoio às questões ambientais, mais liberdade para minorias (gays, negros, imigrantes) entre outras.
Juntando as duas pontas, o uso que o candidato fez da Internet teve papel fundamental nessa eleição. Seja pela capacidade de mobilização, seja pelo tal do efeito “viral” que os “marketeiros” tanto gostam, seja simplesmente pelo fato de que facilitou muito quem queria doar dinheiro para a campanha. Vídeos no YouTube são a forma de “discurso” que a juventude quer ver. Nada de panfletos escritos, ou comerciais tradicionais nas redes de TV aberta.
Um candidato “diferente” em tudo, da cor da pele ao uso das ferramentas de comunicação, passando pela elegância nos gestos e na forma de se expressar em público.
O outro aspecto interessante tem a ver com o “produto Obama”. Afinal, atualmente, os políticos são, como qualquer outra coisa, tratados como produtos. São vendidos segundo estratégias de marketing que definem do vestuário ao vocabulário, das idéias (às vezes um tanto “voláteis”, como o mercado…) até as peças publicitárias. Quem não se lembra do “Lulinha paz e amor?”…
No caso, o produto Obama tinha algumas características interessantes. Era uma mudança de paradigma, ou seja, um político que era “diferente dos outros políticos”. Pregava a necessidade de mudança. Representava, também, uma candidatura impensável há 30 ou 40 anos. Ou seja, refletia um processo de mudança social, de comportamento. E os jovens o acham muito “cool”. Talvez por tudo isso, represente a esperança, o “salvador da pátria”, num país assolado por George Bush e crise internacional. Embora para a crise haja esperanças…
Não lembra o iPhone? Pense bem. Um celular que mudou o paradigma dos celulares, o filho caçula da empresa de Steve Jobs usa os dedos para navegar, sem botões, e tem um design (aparência) inovador. Chegou para revolucionar o “conceito” de telefone. Outros vieram na sua cola. Além de tudo, o iPhone é “cool”, exatamente como o novo presidente.
Para finalizar, mais um ponto em comum entre os dois. As longas filas que os americanos formaram para comprar, votar, escolher, enfim.
Em poucos lugares do mundo as pessoas ficam tantas horas numa fila na calçada, chova ou faça sol, para comprar um produto, ou votar nele.
É a democracia do consumo, e o consumo da democracia.
Artigo publicado originalmente em dezembro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação




