Por Jorge Carrano
Em primeiro lugar, um esclarecimento: sou fã do livro impresso. É um meio onde o leitor é dono do tempo, vai e volta quantas vezes quiser. Tem muita “portabilidade”, sendo um companheiro em casa, numa viagem, qualquer lugar. Não consome energia (salvo uma lâmpada para leitura, se de noite). Além disso, podemos interagir com ele, riscando, anotando, grifando, tornando-o pessoal. Podemos ainda doar, emprestar, reler…
Desde o advento da prensa de tipos móveis de Gutenberg, em torno de 1439, o livro se tornou uma ferramenta de educação, lazer e informação para a sociedade. Está conosco nesse formato, impresso em papel, há pelo menos 570 anos.
Um dos motivos do sucesso da invenção de Gutenberg foi ter barateado o custo dos livros, numa Europa que ansiava por difusão cultural, em pleno Renascimento. Os livros, até então, eram feitos de pergaminho, um material caro, obtido da pele de animais, em geral bezerros, cabras ou ovelhas.
Embora o papel obtido a partir de fibras vegetais já existisse há muito tempo, tendo sido criado na China, em 105 a.C. , foi preciso esperar mais de 1500 anos para que os dois inventos se materializassem no livro como o conhecemos hoje.
Apesar de seu enorme impacto na sociedade, o processo de impressão de Gutenberg não substituiu totalmente ou imediatamente os manuscritos, que continuaram a ser produzidos. Como o processo de impressão permitia ter páginas sempre iguais, com o mesmo conteúdo, foi possível a criação de índices, e de numeração nas páginas, para mencionar aspectos mais óbvios.
Mas o livro mudou sobretudo o próprio ato da leitura, que deixou de ser uma ação “coletiva” – leituras em voz alta, a evolução da conversa ao pé da fogueira das culturas tribais - para um hábito individual, silencioso.
Agora, vemos a discussão em torno da chegada dos e-books, produto que usa internet e avançadas tecnologias de processamento da informação. Entre os mais badalados, está o Kindle 2, da Amazon.
Muito tem se discutido sobre a substituição do livro tradicional pelo livro eletrônico. Estudos relacionados à portabilidade e à usabilidade têm sido divulgados com frequência. Mas quero enfatizar aqui apenas a discussão em torno de seu aspecto “ecológico”, na medida em que os defensores dos e-books destacam o fato de que o equipamento não consome papel e comporta muitos livros simultaneamente, diminuindo a necessidade do corte de árvores.
Sei não.
O apelo ambiental, ainda que interessante, esconde a meu ver um perigo: o lixo eletrônico é mais complicado de lidar que o “lixo” do livro. Para começar, um livro pode ter muitos donos em sua vida, durando facilmente 40 ou 50 anos. Em dois anos, a maioria dos produtos da tecnologia é lixo, para o qual ainda não existe solução aparente.
Sem falar nas matérias-primas necessárias à sua produção, com o uso de metais como chumbo, mercúrio e cádmio, entre outros. Segundo reportagem publicada na revista Amanhã, “um estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) revela que, para cada computador fabricado, são necessários dez vezes o seu peso em produtos químicos e combustíveis fósseis”.
O papel é reciclável, e seu processo de produção é hoje bem sustentável. A indústria usa (ao menos no Brasil) apenas florestas plantadas (em geral com eucaliptos) para produzir a celulose que vai virar o papel do livro. E essas empresas, seja por obrigação legal, seja por preocupação com imagem, seja para assegurar a biodiversidade importante também para seus plantios, preservam milhares de hectares de florestas nativas.
A meu ver, o viés ecológico é um apelo que – ainda que fosse totalmente verdadeiro – não seria suficiente para motivar as pessoas ou empresas a mudarem sua forma de absorver ou distribuir conteúdo.
No fundo, é disso que tratamos, do livro como suporte para distribuição de conteúdo.
As pessoas não passaram a preferir o livro impresso pelo lado ecológico, por pena dos animais. Fizeram isso porque era mais barato e apresentava melhor qualidade final.
O apelo ecológico, nesse caso, parece menos relevante ou verdadeiro. O sucesso dos e-books está em outro aspecto, associado à usabilidade, que trataremos num próximo artigo, a ser publicado no dia 17 de março.