Lições do Gattopardo
Por Jorge Carrano
Em meados da década de 1950, Giuseppe Tomasi dei Lampedusa escreveu “Il Gattopardo”. A história se passa em 1860, ano em que Garibaldi chegou à Sicília com seus ideiais revolucionários. O personagem principal, Don Fabrizio Corbera, percebe que o fim da aristocracia estava próximo, e uma nova era se iniciava. Pronuncia, então, a frase mais célebre da obra: “é preciso que algo mude para tudo permanecer como está”.
Sem querer soar apocalíptico, talvez seja preciso questionar o futuro das empresas no modelo atual. É preciso que elas mudem, para poderem continuar no mercado.
Vamos a alguns aspectos dessa questão, sem a pretensão de esgotá-los:
1. Modelo. O formato atual de análise do desempenho das empresas, determinado por certa “tirania” do mercado, estabelece a necessidade de lucros trimestrais crescentes. Um ou dois resultados trimestrais ruins faz com que algumas empresas mudem seus diretores, revisem suas políticas, ou passem a considerar pequenas “maquiagens” no balanço, em casos extremos. Tem uma empresa crescendo muito rápido na Bolsa? Pense duas vezes antes de comprar suas ações. Esse modelo visa dar retorno aos acionistas, o que é legítimo, mas traz um conflito inevitável: a necessidade de gerar lucro é infinita, mas a capacidade de gerar resultados, não.
2. As pessoas. O mundo é cada vez mais dos jovens. Se por um lado, isso deixa as empresas com mais capacidade de inovar, falta a esses novos gestores a experiência e a calma de tomar decisões por vezes difíceis, mas necessárias. Aliado ao item anterior, esse fenômeno cria uma geração de profissionais neuróticos, com grande potencial de infartar antes dos 40 anos.
Outro fenômeno típico dessa geração é a mudança constante de empresa. Pesquisa divulgada na semana passada pelo O Globo mostra que boa parte dos jovens trocou de emprego pelo menos uma vez nos últimos 12 meses. Ok, o mundo está mais rápido, mas ninguém aprende de verdade sobre um mercado ou uma empresa em poucos meses. As empresas precisam descobrir quem são seus verdadeiros talentos, e como fazer para, de fato, manter esses profissionais estimulados.
3. Sustentabilidade. Para complicar mais o cenário, temos um terceiro aspecto: o planeta. Naturalmente, os recursos naturais são finitos, estão cada vez mais escassos, e a sociedade está cada vez mais “de olho” nas empresas. O resultado é que, para manter a chamada “licença social” para operar, as companhias precisam de modelos de produção mais eficientes, não apenas eficazes. Esses modelos que respeitam o ambiente são ainda, em sua maioria, mais caros.
Ainda nessa linha de preocupação ambiental, a reversão da cadeia produtiva - com a obrigação de as empresas cuidarem da reciclagem ou disposição em lugares adequados de seus produtos após o uso - é mais um fator de custo. Pode até significar uma oportunidade, mas não sem investimento.
4. Cultura do “grátis”. A internet trouxe, junto com imensas oportunidades de comunicação, também um gosto pela cultura do “grátis”. No dia 12 de agosto deste ano, o site Diário Digital divulgou um estudo global realizado pela Haboo, comunidade virtual voltada para o público adolescente. Segundo a notícia “mais de metade dos jovens de 11 a 18 anos não estão dispostos a pagar por conteúdos na Internet. Segundo o estudo, realizado com 50 mil cibernautas dessa faixa etária, 32% desses utilizadores não pagam pelo que acessam, e 26% pagariam somente se não houvesse nenhuma opção grátis disponível.” Com isso, a produção de conteúdo original pode ser comprometida. Em escala global, isso afeta os negócios de empresas em muitas cadeias produtivas. E pode, em outra escala, tornar o respeito pela propriedade intelectual “uma coisa do passado”.
5. Respeito. Basta conversar com pessoas que habitam o universo corporativo para perceber o quanto se sentem pressionadas. A degradação de certos valores éticos e comportamentais na sociedade é nítida, e isso se reflete dentro das empresas, mesmo as mais sérias, que buscam oferecer condições de trabalho dignas e um ambiente saudável aos seus colaboradores. Como me dizia um amigo já falecido, a “qualidade da matéria-prima humana está se degenerando rapidamente”. A competição interna, os prazos cada vez mais curtos e a falta de foco no que realmente importa são aspectos que causam enorme stress nas pessoas.
A pressa torna-se o “default“, e cria-se a perigosa confusão entre o que é urgente e o que é importante. E o urgente acaba priorizando os esforços para atingir resultados financeiros que, na verdade, refletem saúde apenas nos pregões.
Enquanto isso, nas salas de reunião, no chão da fábrica, nas relações com as comunidades, nas redes sociais e nas prateleiras do mercado, temos corporações terminais.



