ago
17
2010
3

Lições do Gattopardo

Por Jorge Carrano

Em meados da década de 1950, Giuseppe Tomasi dei Lampedusa escreveu  “Il Gattopardo”. A história se passa em 1860, ano em que Garibaldi chegou à Sicília com seus ideiais revolucionários. O personagem principal, Don Fabrizio Corbera, percebe que o fim da aristocracia estava próximo, e uma nova era se iniciava. Pronuncia, então, a frase mais célebre da obra: “é preciso que algo mude para tudo permanecer como está”.

Sem querer soar apocalíptico, talvez seja preciso questionar o futuro das  empresas no modelo atual. É preciso que elas mudem, para poderem continuar no mercado.

Vamos a alguns aspectos dessa questão, sem a pretensão de esgotá-los:

1. Modelo. O formato atual de análise do desempenho das empresas, determinado por certa “tirania” do mercado, estabelece a necessidade de lucros trimestrais crescentes. Um ou dois resultados trimestrais ruins faz com que algumas empresas mudem seus diretores, revisem suas políticas, ou passem a considerar pequenas “maquiagens” no balanço, em casos extremos. Tem uma empresa crescendo muito rápido na Bolsa? Pense duas vezes antes de comprar suas ações. Esse modelo visa dar retorno aos acionistas, o que é legítimo, mas traz um conflito inevitável: a necessidade de gerar lucro é infinita, mas a capacidade de gerar resultados, não.

2. As pessoas. O mundo é cada vez mais dos jovens. Se por um lado, isso deixa as empresas com mais capacidade de inovar, falta a esses novos gestores a experiência e a calma de tomar decisões por vezes difíceis, mas necessárias. Aliado ao item anterior, esse fenômeno cria uma geração de profissionais neuróticos, com grande potencial de infartar antes dos 40 anos.

Outro fenômeno típico dessa geração é a mudança constante de empresa. Pesquisa divulgada na semana passada pelo O Globo mostra que boa parte dos jovens trocou de emprego pelo menos uma vez nos últimos 12 meses. Ok, o mundo está mais rápido, mas ninguém aprende de verdade sobre um mercado ou uma empresa em poucos meses. As empresas precisam descobrir quem são seus verdadeiros talentos, e como fazer para, de fato, manter esses profissionais estimulados.

3. Sustentabilidade. Para complicar mais o cenário, temos um terceiro aspecto: o planeta. Naturalmente, os recursos naturais são finitos, estão cada vez mais escassos, e a sociedade está cada vez mais “de olho” nas empresas. O resultado é que, para manter a chamada “licença social” para operar, as companhias precisam de modelos de produção mais eficientes, não apenas eficazes. Esses modelos que respeitam o ambiente são ainda, em sua maioria, mais caros.

Ainda nessa linha de preocupação ambiental, a reversão da cadeia produtiva - com a obrigação de as empresas cuidarem da reciclagem ou disposição em lugares adequados de seus produtos após o uso - é mais um fator de custo. Pode até significar uma oportunidade, mas não sem investimento.

4. Cultura do “grátis”. A internet trouxe, junto com imensas oportunidades de comunicação, também um gosto pela cultura do “grátis”. No dia 12 de agosto deste ano, o site Diário Digital divulgou um estudo global realizado pela Haboo, comunidade virtual voltada para o público adolescente. Segundo a notícia “mais de metade dos jovens de 11 a 18 anos não estão dispostos a pagar por conteúdos na Internet. Segundo o estudo, realizado com 50 mil cibernautas dessa faixa etária, 32% desses utilizadores não pagam pelo que acessam, e 26% pagariam somente se não houvesse nenhuma opção grátis disponível.” Com isso, a produção de conteúdo original pode ser comprometida. Em escala global, isso afeta os negócios de empresas em muitas cadeias produtivas. E pode, em outra escala, tornar o respeito pela propriedade intelectual “uma coisa do passado”.

5. Respeito. Basta conversar com pessoas que habitam o universo corporativo para perceber o quanto se sentem pressionadas. A degradação de certos valores éticos e comportamentais na sociedade é nítida, e isso se reflete dentro das empresas, mesmo as mais sérias, que buscam oferecer condições de trabalho dignas e um ambiente saudável aos seus colaboradores. Como me dizia um amigo já falecido, a “qualidade da matéria-prima humana está se degenerando rapidamente”. A competição interna, os prazos cada vez mais curtos e a falta de foco no que realmente importa são aspectos que causam enorme stress nas pessoas.

A pressa torna-se o “default“, e cria-se a perigosa confusão entre o que é urgente e o que é importante. E o urgente acaba priorizando os esforços para atingir resultados financeiros que, na verdade, refletem saúde apenas nos pregões.

Enquanto isso, nas salas de reunião, no chão da fábrica, nas relações com as comunidades, nas redes sociais e nas prateleiras do mercado, temos corporações terminais.

Escrito por Jorge Carrano em: Comunicação Empresarial, Cultura, Digital, Marketing |
jul
29
2010
0

E-ducação

Por Jorge Carrano

Apesar de já existir há mais de 40 anos, o correio eletrônico (e-mail) ainda é mal utilizado. E isso acontece tanto na esfera corporativa quando na pessoal.

Do lado empresarial, os sites deixam muito a desejar. Experimente um “fale conosco”. Primeiro, você precisará achar os canais (se disponíveis) para fazer sua solicitação ou questionamento, e existe uma grande chance de sua mensagem nunca ser respondida. Vários estudos têm mostrando como esse recurso elementar da interatividade ainda é bastante negligenciado.

Do lado dos usuários em geral, reina ainda um desconhecimento da etiqueta no uso do e-mail. Nunca é demais lembrar alguns princípios básicos de uma boa “e-ducação”:

1.  Não envie mensagens para pessoas que nada têm a ver com o assunto. Isso apenas gera tráfego desnecessário na rede, e entope a caixa postal das pessoas. Muita gente tem essa mania por querer “mostrar serviço”.

2. Evite anexar arquivos muito pesados. Se possível, é melhor colocar o arquivo numa página web e enviar apenas o link por e-mail para que o destinatário faça o download do arquivo. Vale ainda observar que alguns formatos de arquivo (.exe e .zip, por exemplo) são normalmente bloqueados nos firewalls das empresas, pois são extensões que podem trazer vírus ou outras ameaças.

3. Cuidado com o português. O fato de ser um meio rápido não dá direito de assassinar  o idioma. Revise o que escreveu antes de enviar, e evite o excesso de abreviações. Gírias também não cabem numa mensagem profissional.

4. Não escreva somente com letras maiúsculas. São como se você estivesse “gritando”. Tampouco escreva tudo em minúsculas, pois denota pouco caso com o assunto ou o destinatário.

5. Seja educado. Não custa começar a mensagem com um  “prezado fulano” e terminar com um “atenciosamente” ou suas variações. O excesso de objetividade pode ser interpretado como falta de educação. E, geralmente, é.

6. Cuidado com os pedidos “para ontem”. A regra aqui é simples: se tudo é prioridade, nada é prioridade. Ou seja, só peça uma coisa com urgência se essa realmente existir… do contrário você fica igual àquele menino que vivia contando mentiras, e um dia, quando era verdade, ninguém mais acreditava nele.

7. Por fim, não se esqueça que, ao usar o e-mail da empresa, você dever redobrar a atenção, pois estará (querendo ou não) falando em nome da empresa. Algumas companhias têm regras claras sobre uso de e-mails. Vale a pena conhecê-las logo.

Se você acha que essas dicas são óbvias demais, basta abrir sua caixa de entrada, e dar uma olhada se algumas mensagens que você recebeu (será que enviou?) não cometem alguns desses equívocos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
jul
20
2010
0

A abdução do JB

Por Paulo Baiano *

Eu vivia o encantamento dos meus 20 anos quando, naquela distante tarde de 1972, entrei pela primeira vez  na nova sede do Jornal do Brasil. O mítico prédio cinzento da Avenida Brasil 500 era frio e feio, mas transpirava modernidade, ainda mais se comparado com a antiga e apertada sede na Avenida Rio Branco, um dos primeiros edifícios art-déco do Rio de Janeiro, testemunha ainda da abertura da Avenida Central, começo do século XX.

Lógico que, no instante seguinte, eu e alguns amigos – todos hoje respeitáveis senhores jornalistas – iniciamos uma animada corrida de cadeiras, pelos enormes corredores, ainda desertos. Até 1974 trabalhei ali, como repórter da Rádio Jornal do Brasil. Ainda me lembro dos estúdios enormes, com paredes de pedra. Lembro da redação, que ocupava um andar inteiro, e fervilhava dia e noite com o tic tac incessante das máquinas de escrever. Por lá passavam todos os “que importavam” - políticos, empresários, artistas, celebridades - anônimos, assessores de imprensa. Lembro do restaurante, um andar acima, com o pior café expresso que já tomei na vida - como o prédio era no meio do nada, não tinha jeito: uma hora qualquer, teríamos que fazer o sacrifício de subir pro café, para dar uma turbinada.

Lembro de 11 de setembro de 1973, quando os gorilas tomaram o poder no Chile: eu estava de plantão na Rádio, os telex eram cuspidos pelas máquinas em frenesi trazendo notícias horripilantes, em tempo (quase) real, que minutos depois estavam sendo lidas pelo locutor em edição extraordinária, após passarem por minha máquina de escrever.

Em 1985, voltei à Av. Brasil 500, para escrever sobre Filmes na TV no Caderno B. Tudo parecia igual: a redação barulhenta, as pessoas, as máquinas de escrever, as imensas mesas onde as páginas eram diagramadas a mão, com elegantes traços de lápis sobre o papel branco. As máquinas ainda rugiam na Sala do Telex, e até mesmo o café mantinha aquele gosto horroroso.

Dois anos depois, chegava à redação o primeiro computador, um PC XT, com monitor de fósforo verde. Não poderíamos saber que aquela máquina trazia a mensagem de um futuro distante, onde tudo aquilo em volta iria desaparecer, seria engolido por uma nova realidade, virtual, que o aparelho antecipava. Logo o tic tac das máquinas daria lugar a um silêncio de mosteiro, com as velhas Remingtons substituídas por computadores em rede, cada dia mais poderosos e velozes. Em alguns anos, com a modernidade reduzindo o tamanho de tudo, o próprio prédio da Av. Brasil 500 tornou-se um elefante branco (no caso, cinza), e o JB se mudaria para algumas salas comerciais, novamente na Rio Branco.

Hoje acordei com o anúncio de página central, no JB, do qual ainda sou assinante: a partir de 1 de setembro, acaba o Jornal do Brasil impresso: ele passará a existir somente na Internet, impalpável, virtual. No anúncio, eles tentam colocar o fato como um avanço rumo ao amanhã. Afirmam que os 180 empregados (dos quais, 60 jornalistas) continuam trabalhando normalmente. Chegam a dizer que o JB Virtual será ecologicamente correto, porque não irá gastar mais papel! Mas a verdade é que o Jornal do Brasil, centenário e respeitável, como tantas gerações de brasileiros conheceram, acabou. Soterrado por uma dívida de mais de 100 milhões de reais, décadas de roubalheira e má administração, o JB, revolucionário e aguerrido, chegou a seu fim. Triste? Como saber?

O prédio da Av. Brasil, durante anos uma ruína saqueada, por muito pouco não se transformou em uma favela e ponto de controle estratégico, de onde o Comando Vermelho  poderia fechar a saída do Rio de Janeiro com uma rajada de metralhadora.  As velhas rotativas lá ainda dormem, como monstros entorpecidos, conforme captado pelas belas fotos de Rogério Reis.

O que podemos tirar de tudo isto? Que nada é tão definitivo que não possa ser destruído, modificado. Mais uma vez a História e o Tempo nos mostram suas lições: tudo é passagem, processo, um caminho daqui prali, onde o que realmente permanece é o próprio caminho. E as lembranças que ele nos deixa.

O mundo virtual, implacavelmente, continua engolindo o universo físico em que vivemos. Tudo migra para dentro desta telinha onde você lê meu texto. Será que, algum dia, nós mesmos seremos abduzidos pela luz de LED e LCD, e de nós restará somente uma lembrança diáfana, na mente de infindáveis e sucessivas gerações de computadores e robôs, seres de silício e plástico, autossuficientes, novos dono do mundo, herdeiros do conhecimento humano?

Como dizia o grande filósofo Nelson Ned: “mas tudo passa, tudo passará…”

* Paulo Baiano é carioca de criação, jornalista de profissão, músico por vocação, leitor do JB por (falta de) opção.
www.paulobaiano.com.br
paulofortes@uol.com.br

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
jun
01
2010
0

Quem ler viverá

Por Luiz Fernando Brandão

Uma das maiores livrarias brasileiras e da América Latina, detentora de mais de três milhões de títulos, começou recentemente a vender livros eletrônicos. E anunciou a novidade em todas as lojas de sua rede com um slogan bastante sugestivo: “O importante é ler”. Sugestivo e feliz, ao resumir em quatro palavras uma questão que, por força da tendência humana em fazer escolhas a partir de extremos, para muitos parece inconciliável: papel ou digital, o que é melhor?

No cipoal em que arrisca enredar-se o senso comum — não raro constituído de posicionamentos e opiniões equivocados porque incompletos — na discussão sobre o destino da vida na Terra, nosso velho companheiro papel é há tempos objeto de um sem-número de questionamentos, e bastante injustiçado por sinal.  Protagonista de boa parte do processo civilizatório, ele foi e continuará a ser importante na difusão do conhecimento e da cultura, na saúde, higiene e bem-estar das pessoas, assim como em diversas outras finalidades igualmente nobres.

Mas quem já não leu, na assinatura de uma mensagem eletrônica, o alerta “Antes de imprimir, pense no meio ambiente”? Ou o “Use papel reciclado, salve uma árvore”, disseminado nas escolas por professores empenhados em conscientizar aqueles que, do nosso legado, construirão o depois de amanhã, em tempos de aquecimento global?

Ambas as sugestões reforçam cuidados importantes e necessários, mas sua interpretação numa leitura superficial pode induzir ao erro. A louvável intenção original — conscientizar sobre a conservação da cobertura vegetal, os perigos do consumo irresponsável e a importância da reciclagem — é atropelada por frases de efeito que não privilegiam o conhecimento aprofundado. As pessoas seguem sem paradas para reflexão a corrente dominante, e terminam convencidas de que é apenas na natureza do produto, e não também na forma como é fabricado e utilizado, que devem basear suas preferências e exercer a parte que lhes cabe na construção do futuro de seus filhos e netos.

Sérios equívocos já foram cometidos pelo homem, ao achar-se capaz de interpretar o comportamento do ambiente e interferir para ajudar. Lembra-nos o escritor Michael Crichton, no romance Estado de medo, entre inúmeros outros exemplos nessa linha, o ocorrido no início do século 20 no Parque Nacional Yellowstone, nos Estados Unidos. Nesta que foi a primeira área oficialmente designada como reserva ambiental no mundo, funcionários ciosos de sua missão, ao observarem mudanças no ambiente e julgando entendê-las, resolveram que a população de lobos crescera demais e trataram de exterminá-la. O desequilíbrio provocado pela intervenção radical na cadeia alimentar foi possivelmente um dos primeiros desastres ambientais da história moderna perpetrados com a melhor das intenções.

Faltava na época, como falta ainda em nossos dias, sobretudo para os leigos, um entendimento mais completo das questões relacionadas ao ambiente. A tendência ao engano embasado na interpretação simplista do que se apresenta como verdade absoluta prevalece. A constatação do erro, infelizmente, vem muito tempo depois, quando os efeitos podem ser irreversíveis.

Assim, por força da repetição, acredita-se que, como quase todos os papéis são feitos de madeira, por extensão seu consumo constituiria uma ameaça ao verde do planeta. Por isso, as árvores devem ser “salvas” — uma verdade parcial. Esquece-se ou desconhece-se que, já há décadas, a maior parte do papel consumido no mundo provém de florestas renováveis para uso comercial, de rápido crescimento, cujo cultivo não apenas contribui para proteger e conservar as árvores nativas, a biodiversidade e os recursos hídricos, mas também é hoje, comprovadamente, uma das formas mais eficazes de estocar carbono e mitigar o chamado efeito estufa.

Ainda na década de 90, um estudo independente que é tão interessante quanto pouco conhecido foi encomendado ao Instituto Internacional para o Desenvolvimento Ambiental (IIED), de Londres, por um grupo de empresários desejosos de respostas confiáveis para essas questões. No trabalho, intitulado “O ciclo sustentável do papel”, um grupo multidisciplinar rastreou a pegada de carbono de todo o ciclo de vida do papel e concluiu que seu uso sustentável é viabilizado por um conjunto de quatro expedientes: o emprego de fibras virgens oriundas de fontes renováveis; a reciclagem de parcela do papel usado; a incineração e a transformação em energia de parte do que foi descartado; e a destinação do restante a aterros sanitários.

De volta ao livro tradicional e ao eletrônico, ambos, como tudo na vida, têm vantagens e desvantagens. Assim como outros bens de amplo consumo, se fabricados e utilizados de forma irresponsável, acarretam prejuízos. E não necessariamente implicam escolhas definitivas e excludentes, como expressou com muita propriedade e a dose certa de emoção o articulista Gianni Carta — evidente amante da boa literatura — em edição recente da revista Carta Capital.

Acredito que só o conhecimento, o espírito crítico e a sabedoria, proporcionados entre outras fontes pela leitura, podem nos ajudar a superar as ameaças que as forças insondáveis da natureza, associadas ao modelo econômico prevalente no mundo dito civilizado, trouxeram à vida no planeta – as alterações climáticas, sem dúvida, a mais premente. O plantio de árvores para múltiplas finalidades, o desenvolvimento de tecnologias limpas para uma economia de baixo carbono e, evidentemente, o consumo esclarecido estão entre as frentes a serem exploradas nas adaptações que se impõem. Sempre fundamentadas em políticas públicas que privilegiem a educação.

Por paradoxal que possa parecer, escolhas pautadas por informação incompleta são tão arriscadas quanto as fundamentadas no completo desconhecimento. Quase todo dia somos demandados a nos posicionar sobre as mais diversas questões – econômicas, políticas, ambientais e tantas outras. Para fazer isso com propriedade, a experiência e o bom senso recomendam uma boa leitura. Quem viver lerá.

Luiz Fernando Brandão é consultor de comunicação, jornalista e tradutor.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
fev
23
2010
2

Jornalismo on-line: em busca do tempo abolido

Por Jorge Carrano

O relato de um acontecimento no tempo sempre foi um desafio para o homem. Desde os tempos da tradição oral até o advento da imprensa — cujo registro oficial indica o ano de 1455, quando Gutenberg imprimiu sua primeira versão da Bíblia — a humanidade sempre lidou com a perda das informações e a falta de fidelidade aos fatos, causada por métodos rudimentares de registro e transmissão de nossa história.

Com a evolução dos meios de comunicação, e uma vez superada a questão do suporte físico para a informação — no caso, o jornal impresso em papel — o fator velocidade tornou-se um novo elemento na busca por conquistar leitores.

Levar ao público informações verídicas e completas sobre determinado acontecimento pouco depois da sua ocorrência sempre foi, portanto, um desafio para jornalistas desde o nascimento da mídia impressa — e depois com o rádio e a televisão — até os dias de hoje. Por isso, o jornalismo é uma profissão muito próxima do erro, pois são inúmeras as variantes e circunstâncias que envolvem uma reportagem.

A chegada da internet colocou mais pressão nessa equação temporal acontecimento-relato-leitura. Tornou mais ágil, mas também mais frágil a cobertura da imprensa.

A narração pelos meios eletrônicos se dá no que se convencionou chamar de “tempo real”, que nada mais é do que o fato sendo narrado enquanto se desenvolve.

A tecnologia fez assim aquilo que parecia impossível: reduzir drasticamente o tempo entre um fato e seu relato. Mas é incapaz, por si, de garantir a qualidade do relato.

Com a disseminação da internet, nasceram opções de leitura virtual que concorrem com o produto impresso gerado pelas grandes máquinas rotativas que levavam uma noite inteira formando os jornais que chegariam às bancas logo cedo. Hoje, esperar pouco mais de 12 horas para tomar ciência dos fatos ou até mesmo aguardar o telejornal da noite parece-nos anacrônico. Esperar 12 minutos ou 12 segundos parece mais atual.

Mas a tecnologia a serviço do jornalismo trouxe outras particularidades. Se por um lado ela nos aproxima dos fatos no tempo, nos distancia deles na qualidade das informações relatadas. Ou seja, o relato no dito “tempo real” pode até ser preciso, mas é incompleto porque não consegue abranger circunstâncias, fatos correlatos, detalhes ocultos na ação. São indicações e hipóteses relacionadas ao fato que precisariam (ou deveriam) ser aferidas e analisadas. É justamente este tempo que antes os jornalistas dispunham para elaborar a reportagem que desapareceu junto com as máquinas rotativas.

Na verdade, aquele tempo entre a ocorrência do fato e sua publicação, apesar de determinado por restrições de produção industrial dos meios de comunicação da época, era um elemento que dava aos jornalistas condições para apurar, consolidar e escrever (em bom português) uma boa matéria.

Embora seja um benefício, a velocidade on-line tornou-se  perigosa porque passou a ser a principal preocupação do esforço jornalístico. O produto, não podemos nos esquecer, não é a velocidade, mas a qualidade da informação.

Mas aí vem a pergunta: não será possível fazer bom jornalismo no meio digital? Será que as informações publicadas pelos sites de jornais, pelas agências de notícias na internet e pelos milhões de blogs  estão condenadas a serem uma espécie de fast-food do jornalismo? Uma espécie de Big Mac, que sai em um minuto, mas com picles demais e pouca carne?

Os detratores de plantão dirão (sempre dizem o mesmo) que “a leitura na tela do computador é ruim”  e que “há muito lixo na internet” e que a qualidade do jornalismo on-line (coloquemos aí também os blogs) é ruim. Ainda que tudo isso seja verdade, não podemos nos esquecer de outros fatores nesta equação: primeiro que o meio on-line não substitui (para quem gosta) a leitura de um bom jornal ou revista. A capacidade analítica e prazer de ler um bom texto impresso ainda resistem. Em segundo lugar,  é preciso aproveitar o que cada meio de comunicação tem a oferecer de bom em comparação com os demais. No caso dos meios eletrônicos, a portabilidade é uma vantagem fundamental.

Os meios on-line permitem que uma matéria seja imensamente enriquecida  a partir da inclusão, por exemplo, de links para sites que aprofundem a informação, ou de imagens e dados complementares que podem ser acessados ou não, a critério do leitor. O que, aliás, permite maior isenção e equanimidade, importantes premissas da atividade jornalística.

Quanto à qualidade do que é veiculado na Web, esta é proporcional às demais produções jornalísticas, como de resto de qualquer outra produção intelectual humana — literatura, cinema, teatro — onde a parte joio é sempre muito maior que a parte trigo.

Para que o jornalismo na internet amadureça e se torne cada vez mais a opção preferencial para os leitores é preciso aprender a usar o tempo abolido pela tecnologia, e retomar em parte o cuidado das antigas redações.

Os meios on-line ganharão mais adeptos. Os jornalistas que atuam neles, mais respeito. E a boa notícia, mais espaço, ainda que virtual.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
set
23
2009
0

Código anti-spam

Por Jorge Carrano

Todos os que usam e-mail sofrem com o número crescente de mensagens indesejadas em suas caixas postais, o spam. A edição de agosto de 2009 do relatório mensal “State of Spam”, da Symantec, traz a informação de que aproximadamente 89% dos e-mails de todo o mundo são spam.

O termo spam veio da sátira do grupo Monty Phyton com esta marca de presunto enlatado.

O termo spam veio da sátira do grupo Monty Phyton com esta marca de presunto enlatado.

Para ajudar a combater esse índice elevado, foi criado um código de autorregulamentação para envio de e-mail marketing no Brasil, aprovado em agosto deste ano por diversas entidades que trabalham com divulgações de produtos e serviços por e-mail, entre elas a Associação Brasileira das Agências Digitais, o Comitê Gestor da Internet no Brasil e o Interactive Advertising Bureau Brasil.

Conheça algumas determinações do código:

* Empresas só podem enviar mensagens com autorização do usuário ou comprovação de laço profissional ou pessoal.

* O campo “assunto” (subject) deverá estar relacionado ao conteúdo do e-mail e ter identificação do remetente.

* Está proibida a venda de listagens de endereços (mailing lists) sem a autorização dos usuários ou o envio de mensagens por máquinas que usem IPs dinâmicos.

* As mensagens deverão conter recursos que possibilitem o descadastramento (opt-out) por parte do usuário.

Além das recomendações previstas pelo novo código, a Tau Virtual adota práticas adicionais para o envio de e-mail marketing, em conformidade com as principais normas internacionais, inclusive a CAN-SPAM Act, o mais importante padrão de conduta para o envio de mensagens por e-mail.

Se você tem alguma dúvida ou comentário sobre o correto uso do e-mail como ferramenta de comunicação, entre em contato com a gente.

Leia o novo código.

Veja vídeo sobre spam feito pelo Cert-BR.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
mai
26
2009
1

‘Gap’ de entendimento

Por Luiz Fernando Brandão

Entre Helvécia, distrito no extremo-sul da Bahia — região que concentra um dos bolsões de miséria do nosso país —, e Oslo, a impecável capital da Noruega, locais que visitei no espaço de apenas 15 dias, existe um fosso profundo. Que não é a imensa desigualdade de riqueza, educação, oportunidades e bem-estar social.

É um fosso de desconhecimento, um hiato criado pela incapacidade de se compreender um outro mundo que coexiste neste mundo de nós todos. Um gap que os mais bem-intencionados esforços  de educação, comunicação e engajamento, pelo menos no horizonte visível hoje, são incapazes de preencher.

A elegante senhora que se agacha, compungida e solícita, diante do jovem dependente químico maltrapilho e mendicante na imaculada Karl Johans Gate, a principal avenida de Oslo, terá idéia das condições  em que vivem os milhões de miseráveis que lutam  pela sobrevida nos confins interioranos do norte e nordeste brasileiros ou nas periferias de nossas metrópoles?

As centenas de turistas escandinavos que se comovem e mobilizam diante de enormes painéis exibindo fotos belíssimas de caçadores, mulheres e crianças indígenas amazônicos, nas ruas de Oslo, terão alguma idéia do contexto em que estes nossos povos originais sobrevivem em meio a outros 20 milhões de conterrâneos de todas as origens — européias, negras e asiáticas — que habitam a vasta Amazônia brasileira? Terão eles noção dos desafios de governança de um país de dimensões continentais como o nosso, com quase 200 milhões de habitantes e apenas 200 anos de história nacional, num mundo de economias globalizadas?

Aqui, cabe remeter à questão essencial: nós, os humanos, em nossa trajetória sobre a Terra, continuamos longe de superar o desafio de nossa condição intrínseca, utilitarista quanto aos recursos naturais e leviana quanto às conseqüências de nossos atos e escolhas sobre nosso futuro comum. Enquanto essa pulsão não for domada, disciplinada, pouca esperança restará para as próximas gerações. A culpa e o imediatismo continuarão a prevalecer, mesmo por trás da fachada de ajuda humanitária, de altruísmo dos muito ricos com relação aos muito pobres. Esse quadro só poderá ser superado por novas visões de mundo que conciliem os avanços da ciência e da tecnologia com o entendimento de que somos um único povo, habitante e organicamente parte da Terra, e que só vencendo nossas diferenças poderemos sobreviver.

É uma pena que a superficialidade humana não nos permita usar com propriedade a riqueza de informações online que a era da internet nos oferece. A uma análise mais profunda das razões das nossas diferenças culturais e sociais, parecem preferíveis as conclusões simplistas que  remetem ao ancestral embate entre o bem o mal. Parece mais fácil acreditar em acusações que materializem externamente um grande vilão e  assim expiar nossa responsabilidade por cada abuso socioambiental que ocorre em qualquer canto do planeta. Responsabilidade pela omissão, responsabilidade pelo desinteresse, responsabilidade pela conveniência.

E então assistimos a algo que começa a se configurar como  dumping reputacional de países, empresas e instituições. Um processo em que o hiato de compreensão entre realidades diferentes no planeta é utilizado como alavanca para reforçar percepções simplistas; em que situações complexas que requerem análises e soluções igualmente complexas veem-se reduzidas a uma visão maniqueísta, passando ao largo das infinitas nuances da vida real.

É assim que países do hemisfério norte encontram seus vilões na metade de baixo do planeta, tão distante de seus corações e mentes. Gente preparada e bem informada não raro dá crédito a fontes que nem ao menos se preocupam com a fidedignidade das histórias que propagam sobretudo pela Grande Rede. Por que lhes é tão difícil, por exemplo, perceber a enorme diferença que existe entre empresas que, malgrado suas imperfeições, dilemas e dificuldades, se esforçam por práticas socioambientais corretas, e aquelas inconseqüentes e imediatistas?

Uma hipótese é que, para alguns cidadãos de países mais ricos, seja difícil admitir que interesses específicos de suas próprias economias possam estar por trás de denúncias que acolhem como verdadeiras. Afinal, em muitos casos, o desenvolvimento sustentado de países como o Brasil e o sucesso das nossas empresas podem representar ameaças para suas empresas ou para os empregos de alguns dos seus compatriotas. É melhor acreditar no vilão lá longe.

Mas há também uma parcela de responsabilidade dos governos, empresas e das ONGs de países emergentes, como o Brasil. É preciso um esforço maior – consistente e permanente – de comunicação daqui para o mundo dos ricos, para estabelecer os fatos e desfazer a confusão provocada pelas denúncias falsas, embaladas na defesa de causas nobres e em chavões politicamente corretos.

Uma missão na qual os comunicadores empresariais brasileiros devem se engajar o quanto antes, com seu conhecimento, experiência e redes de relacionamento, a bem do interesse de suas próprias organizações, de seus filhos e netos, do nosso país e do nosso futuro comum.

Luiz Fernando Brandão, comunicador empresarial, jornalista e tradutor, é gerente de comunicação corporativa da Aracruz Celulose. Em paralelo às atividades que desenvolveu em empresas como Shell Brasil e Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, traduziu para o português obras de autores como Edgar Allan Poe, Vladimir Nabokov, Tom Wolfe, Jack London e Flann O’Brien, entre outros.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Sustentabilidade |
mai
05
2009
2

Os segredos de Victoria

Por Jorge Carrano

“A Victoria’s Secret envia mais de um milhão de catálogos por dia e o custo desses catálogos não é sexy. São impressos em papel feito a partir de uma das florestas mais ameaçadas do planeta”.

Assim começa o texto de um impactante anúncio publicado no New York Times (veja abaixo), assinado pela ForestEthics, onde uma modelo vestida com roupas da grife segura uma motosserra. O título do anúncio “Victória’s Dirty Secret” (”O Segredo Sujo de Victoria”)  já dá o tom do texto da peça, alertando para o impacto devastador causado no meio ambiente pelas ações de marketing da marca, avaliada em cerca de U$ 6 bilhões.

Depois do anúncio, o vice-presidente da Limited Brands (empresa controladora da Victoria’s Secret) sentou-se à mesa com representantes da ForestEthics, para traçar uma estratégia de minimizar o impacto dos quase 400 milhões de catálogos enviados anualmente pela marca a seus consumidores.

Além da grande escala, a questão envolve ao menos duas perspectivas igualmente importantes.

A primeira é que as empresas não podem mais “esconder” a origem das matérias-primas que utilizam em seus produtos e esforços de marketing. Os consumidores precisam - e têm direito de - saber que por trás daquele lindo catálogo podem estar árvores derrubadas de florestas nativas.

Nesso caso, são derrubados mais de 8 mil metros quadrados por minuto de floresta boreal no Canadá.

Mas é preciso também que os consumidores sejam conscientes de suas escolhas. Somos nós que podemos pressionar as marcas a não enviar catálogos, por exemplo. Assim como há uma crescente conscientização (ainda que incipiente) a respeito do uso de sacolas plásticas nos supermercados e do excesso de embalagens em geral, é preciso estar atento a toda a cadeia de produtos que consumimos diariamente.

Não adianta apenas exigirmos das empresas que sejam responsáveis. Nós, os cidadãos comuns, precisamos ser também mais responsáveis em nossas decisões de consumo.

Aqui está, talvez, nosso mais importante papel.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Sustentabilidade |
abr
07
2009
2

A culpa é do cliente

Por Jorge Carrano

Quando assistimos a um comercial incrível na televisão, nossa primeira reação, em geral, é pensar: “o cara que criou isso é um gênio”.

Quando vemos um anúncio na revista ou escutamos um spot criativo no rádio, a reação é mais ou menos a mesma. Quando navegamos por um lindo site, ou pegamos uma embalagem bem bolada, pensamos: “esse designer é fera”.

Pois é, acontece que nessa avaliação falta a parte mais importante: o cliente.

Sim, toda vez que você encontrar uma boa peça de comunicação, não se iluda. O mérito é do cliente.

Foi ele que escolheu a agência certa, provavelmente forneceu um bom briefing, pagou o preço de mercado, soube valorizar uma boa idéia, topou fazer uma boa produção e, finalmente, aprovou a peça certa para veiculação.

Sem o cliente, não há boa comunicação.

Mas essa moeda tem outro lado.

Toda vez que você vir um anúncio ruim, um website mal feito, um comercial que zomba da sua inteligência, um folheto mal escrito, uma embalagem que corta o dedo, não tenha tampouco nenhuma dúvida: a culpa é do cliente. Só dele.

Afinal, em quase todos esses casos,  ele escolheu o parceiro errado, não sabia o que queria (e isso é papel dele), não soube valorizar o trabalho  (ou usou o preço como único fator de decisão) e aprovou (ou sugeriu) uma idéia ruim.

Viva o (bom) cliente. A ele devemos a boa comunicação ao nosso redor.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Digital, Marketing |
mar
05
2009
1

Consumo sustentável - como comunicar

Por Jorge Carrano

No post anterior, comentei a necessidade de revermos nossos modelos de produção, comercialização e comunicação, buscando estimular a idéia de consumir “melhor” ao invés de consumir cada vez “mais”.

Se isso não acontecer, não haverá mais recursos naturais no planeta para as próximas gerações. Nem florestas. Nem água. Nem ar respirável.

Um exemplo interessante de como apresentar o problema, e de como a internet é um meio cada vez mais importante para a disseminação de conceitos ligados à sustentabilidade é o vídeo “The Story of Stuff” (www.storyofstuff.com), que já recebeu mais de 4 milhões de downloads !

Clique no banner e assista !

Escrito por Jorge Carrano em: Comunicação Empresarial, Digital, Sustentabilidade |

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