set
01
2010
0

A internet das coisas

Começou ontem, no Rio de Janeiro, o Rio Info 2010, importante seminário sobre tecnologia. O tema desse ano é “integrando mídias, coisas, pessoas e serviços”.

Da primeira mesa redonda, gostaria de destacar a apresentação do professor  Markus Eisenhauer, do Instituto Fraunhofer, da Alemanha. Ele apresentou o Hydra, um middleware voltado para a conexão de coisas. Para quem não sabe, um middleware  é um sistema que atua numa camada intermediária, entre o sistema operacional (Windows, Linux etc) do computador e os aplicativos/programas que o usuário utiliza.

O Hydra tem algumas aplicações mais apropriadas ou, ao menos, mais avançadas, entre elas o gerenciamento de energia, a operação remota de equipamentos e o monitoramento da saúde. Uma  pessoa doente, que não pode ir ao médico pode, por exemplo, a partir de um aplicativo no celular, transmitir diretamente para o médico (que pode estar em qualquer lugar do mundo), sua pressão e taxa de açúcar. Ou talvez o próprio aparelho de medir a pressão faça isso.

A partir de um histórico daquele paciente, o médico pode optar por enviar um enfermeiro ao local. Aí começa o mais interessante. Imagine uma pessoa muito idosa, ou portadora de deficiência que a impeça de sair da cama. Com a integração das plataformas, o médico, ao acionar a enfermeira, pode passar a ela um “código” do paciente, que recebe uma mensagem no celular, e “autoriza” a enfermeira a visitá-lo. Essa autorização pode ser “materializada” num cartão magnético, que a enfermeira carrega (faz o download) e usará para abrir a porta da casa (como um quarto de hotel) do paciente (lembre-se, ele não pode sair da cama).

Imagine agora que você tem um sensor de fumaça/incêndio em sua casa. Por um motivo qualquer, algum aparelho eletrônico apresenta um problema, e entra em curto. O sensor captura esse sinal, envia para o seu celular. Mas você está em Madrid… aí você pode acionar o seguro (que entraria na sua casa pelo mesmo processo da enfermeira da situação anterior) e desligaria o equipamento defeituoso. Num caso extremo, o sistema enviaria uma mensagem diretamente ao corpo de bombeiros.

Os exemplos acima, e vários outros, fazem parte do futuro da internet, a chamada “internet das coisas”. Os aparelhos, as “coisas” em geral – desde que conectados à internet – passam a atuar como máquinas que podem ser acionadas remotamente. Sabe aquela dúvida clássica, se apagou a luz, desligou o gás, ou deixou a janela aberta? Pois é, na internet das coisas essas questões poderão ser resolvidas remotamente.

Como todas as novidades e possibilidades do mundo tecnológico, restam ainda questões a resolver. Exemplo: se você mora num apartamento, será que o porteiro vai deixar a enfermeira entrar?

Mas não deixa de ser um pensamento instigante e desafiador imaginar o universo de possibilidades que se abrem com a internet das coisas. Estamos ainda aprendendo a conectar as pessoas – as redes sociais ainda vão explodir. Imagine quando as máquinas também puderem participar dessa conversa…

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
ago
17
2010
3

Lições do Gattopardo

Por Jorge Carrano

Em meados da década de 1950, Giuseppe Tomasi dei Lampedusa escreveu  “Il Gattopardo”. A história se passa em 1860, ano em que Garibaldi chegou à Sicília com seus ideiais revolucionários. O personagem principal, Don Fabrizio Corbera, percebe que o fim da aristocracia estava próximo, e uma nova era se iniciava. Pronuncia, então, a frase mais célebre da obra: “é preciso que algo mude para tudo permanecer como está”.

Sem querer soar apocalíptico, talvez seja preciso questionar o futuro das  empresas no modelo atual. É preciso que elas mudem, para poderem continuar no mercado.

Vamos a alguns aspectos dessa questão, sem a pretensão de esgotá-los:

1. Modelo. O formato atual de análise do desempenho das empresas, determinado por certa “tirania” do mercado, estabelece a necessidade de lucros trimestrais crescentes. Um ou dois resultados trimestrais ruins faz com que algumas empresas mudem seus diretores, revisem suas políticas, ou passem a considerar pequenas “maquiagens” no balanço, em casos extremos. Tem uma empresa crescendo muito rápido na Bolsa? Pense duas vezes antes de comprar suas ações. Esse modelo visa dar retorno aos acionistas, o que é legítimo, mas traz um conflito inevitável: a necessidade de gerar lucro é infinita, mas a capacidade de gerar resultados, não.

2. As pessoas. O mundo é cada vez mais dos jovens. Se por um lado, isso deixa as empresas com mais capacidade de inovar, falta a esses novos gestores a experiência e a calma de tomar decisões por vezes difíceis, mas necessárias. Aliado ao item anterior, esse fenômeno cria uma geração de profissionais neuróticos, com grande potencial de infartar antes dos 40 anos.

Outro fenômeno típico dessa geração é a mudança constante de empresa. Pesquisa divulgada na semana passada pelo O Globo mostra que boa parte dos jovens trocou de emprego pelo menos uma vez nos últimos 12 meses. Ok, o mundo está mais rápido, mas ninguém aprende de verdade sobre um mercado ou uma empresa em poucos meses. As empresas precisam descobrir quem são seus verdadeiros talentos, e como fazer para, de fato, manter esses profissionais estimulados.

3. Sustentabilidade. Para complicar mais o cenário, temos um terceiro aspecto: o planeta. Naturalmente, os recursos naturais são finitos, estão cada vez mais escassos, e a sociedade está cada vez mais “de olho” nas empresas. O resultado é que, para manter a chamada “licença social” para operar, as companhias precisam de modelos de produção mais eficientes, não apenas eficazes. Esses modelos que respeitam o ambiente são ainda, em sua maioria, mais caros.

Ainda nessa linha de preocupação ambiental, a reversão da cadeia produtiva - com a obrigação de as empresas cuidarem da reciclagem ou disposição em lugares adequados de seus produtos após o uso - é mais um fator de custo. Pode até significar uma oportunidade, mas não sem investimento.

4. Cultura do “grátis”. A internet trouxe, junto com imensas oportunidades de comunicação, também um gosto pela cultura do “grátis”. No dia 12 de agosto deste ano, o site Diário Digital divulgou um estudo global realizado pela Haboo, comunidade virtual voltada para o público adolescente. Segundo a notícia “mais de metade dos jovens de 11 a 18 anos não estão dispostos a pagar por conteúdos na Internet. Segundo o estudo, realizado com 50 mil cibernautas dessa faixa etária, 32% desses utilizadores não pagam pelo que acessam, e 26% pagariam somente se não houvesse nenhuma opção grátis disponível.” Com isso, a produção de conteúdo original pode ser comprometida. Em escala global, isso afeta os negócios de empresas em muitas cadeias produtivas. E pode, em outra escala, tornar o respeito pela propriedade intelectual “uma coisa do passado”.

5. Respeito. Basta conversar com pessoas que habitam o universo corporativo para perceber o quanto se sentem pressionadas. A degradação de certos valores éticos e comportamentais na sociedade é nítida, e isso se reflete dentro das empresas, mesmo as mais sérias, que buscam oferecer condições de trabalho dignas e um ambiente saudável aos seus colaboradores. Como me dizia um amigo já falecido, a “qualidade da matéria-prima humana está se degenerando rapidamente”. A competição interna, os prazos cada vez mais curtos e a falta de foco no que realmente importa são aspectos que causam enorme stress nas pessoas.

A pressa torna-se o “default“, e cria-se a perigosa confusão entre o que é urgente e o que é importante. E o urgente acaba priorizando os esforços para atingir resultados financeiros que, na verdade, refletem saúde apenas nos pregões.

Enquanto isso, nas salas de reunião, no chão da fábrica, nas relações com as comunidades, nas redes sociais e nas prateleiras do mercado, temos corporações terminais.

Escrito por Jorge Carrano em: Comunicação Empresarial, Cultura, Digital, Marketing |
ago
12
2010
1

Quem vê “Face” não vê “Skin”

Por Jorge Carrano

Todos conhecem (ou ao menos já ouviram falar de) Orkut, Twitter e Facebook. Esta última, a maior rede social do mundo, tem impressionantes 500 milhões de usuários. Se fosse um país, seria o 3° mais populoso do mundo. Mas e do Skinbook, você já ouviu falar?

O Skinbook me lembra aquele projeto da revista Bundas, uma gozação com a Caras. Aliás, lembra mesmo, porque o Skinbook é uma rede social para simpatizantes do…nudismo!

O site se apresenta como “a primeira rede social nudista do mundo, com mais de 9 mil participantes… oferece os recursos que você espera de uma rede social: perfis pessoais, fóruns, blogs, grupos, galerias, vídeos, chat e outras coisas.

Possuem também uma página no Facebook e uma conta no Twitter, que tem (nesse momento) 1.068 seguidores.

Já para quem gosta de gastronomia e culinária, uma rede social feita sob medida: YoumIt!.  O site oferece aplicativos para iPhone, receitas apetitosas e possibilidade de contato com chefs de vários países.


Se você é daqueles que adora um  karaokê, que tal fazer parte de uma comunidade que não apenas gosta de “soltar a voz”, mas ainda quer dividir com os “amigos”? Então junte-se ao Redkaraoke.

Mas se a sua onda são os filmes de modernos vampiros da Saga Crepúsculo, muito menos assustadores que os de antigamente, você talvez goste do VampireFreaks.

A tecnologia é mesmo democrática. Seja qual for a sua tribo, você tem grande chance de achar um espaço que seja a “sua cara” e permita trocar ideias, mesmo as mais bizarras.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
ago
05
2010
0

O valor do virtual

Por Jorge Carrano

Nos primórdios do capitalismo, o valor de um produto era formado a partir do seu custo de produção (matéria-prima + mão-de-obra + energia + distribuição + publicidade etc.). Há algumas décadas, descobrimos que havia um valor intangívei nos produtos, que não guardava relação direta com seu custo de produção, mas era definido pela “percepção de valor” que os consumidores tinham de determinada marca. Isso explica, por exemplo, porque um produto “premium” ou “de grife” chega a custar 100 vezes mais do que uma outro, cujas funções e características são bastante similares.

Com as mudanças trazidas pela tecnologia nos últimos anos, muitos produtos se virtualizaram. Você não precisa mais comprar um CD para ouvir música. O produto tangível (disco) deu lugar ao produto intangível (arquivo mp3).  Dinheiro, livros e até “amigos” se tornaram menos tangíveis ultimamente, sendo esta uma das  características da chamada “sociedade do conhecimento”.

O fato de ser “virtual”, no entanto, não quer dizer que tenha pouco valor. A música que você compra de uma loja na internet em arquivo mp3 não vale menos do que a mesma música adquirida num CD. O que tem valor, na verdade, é o “talento”, o conteúdo.

E o  valor desse conteúdo está na razão direta do benefício que traz, como em qualquer produto, seja ele a solução de um problema, um momento de lazer ou uma informação importante para sua vida.

Dar o devido valor ao conhecimento ainda é, infelizmente, uma prática pouco comum. O vídeo abaixo é uma bem-humorada paródia sobre o que acontece quando o valor de um produto/serviço não é reconhecido pelos clientes. Pior ainda são os “argumentos” de negociação, esses sim, verdadeiramente risíveis.

Divirta-se, mas dê o devido valor…

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
jul
29
2010
0

E-ducação

Por Jorge Carrano

Apesar de já existir há mais de 40 anos, o correio eletrônico (e-mail) ainda é mal utilizado. E isso acontece tanto na esfera corporativa quando na pessoal.

Do lado empresarial, os sites deixam muito a desejar. Experimente um “fale conosco”. Primeiro, você precisará achar os canais (se disponíveis) para fazer sua solicitação ou questionamento, e existe uma grande chance de sua mensagem nunca ser respondida. Vários estudos têm mostrando como esse recurso elementar da interatividade ainda é bastante negligenciado.

Do lado dos usuários em geral, reina ainda um desconhecimento da etiqueta no uso do e-mail. Nunca é demais lembrar alguns princípios básicos de uma boa “e-ducação”:

1.  Não envie mensagens para pessoas que nada têm a ver com o assunto. Isso apenas gera tráfego desnecessário na rede, e entope a caixa postal das pessoas. Muita gente tem essa mania por querer “mostrar serviço”.

2. Evite anexar arquivos muito pesados. Se possível, é melhor colocar o arquivo numa página web e enviar apenas o link por e-mail para que o destinatário faça o download do arquivo. Vale ainda observar que alguns formatos de arquivo (.exe e .zip, por exemplo) são normalmente bloqueados nos firewalls das empresas, pois são extensões que podem trazer vírus ou outras ameaças.

3. Cuidado com o português. O fato de ser um meio rápido não dá direito de assassinar  o idioma. Revise o que escreveu antes de enviar, e evite o excesso de abreviações. Gírias também não cabem numa mensagem profissional.

4. Não escreva somente com letras maiúsculas. São como se você estivesse “gritando”. Tampouco escreva tudo em minúsculas, pois denota pouco caso com o assunto ou o destinatário.

5. Seja educado. Não custa começar a mensagem com um  “prezado fulano” e terminar com um “atenciosamente” ou suas variações. O excesso de objetividade pode ser interpretado como falta de educação. E, geralmente, é.

6. Cuidado com os pedidos “para ontem”. A regra aqui é simples: se tudo é prioridade, nada é prioridade. Ou seja, só peça uma coisa com urgência se essa realmente existir… do contrário você fica igual àquele menino que vivia contando mentiras, e um dia, quando era verdade, ninguém mais acreditava nele.

7. Por fim, não se esqueça que, ao usar o e-mail da empresa, você dever redobrar a atenção, pois estará (querendo ou não) falando em nome da empresa. Algumas companhias têm regras claras sobre uso de e-mails. Vale a pena conhecê-las logo.

Se você acha que essas dicas são óbvias demais, basta abrir sua caixa de entrada, e dar uma olhada se algumas mensagens que você recebeu (será que enviou?) não cometem alguns desses equívocos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
jul
20
2010
0

A abdução do JB

Por Paulo Baiano *

Eu vivia o encantamento dos meus 20 anos quando, naquela distante tarde de 1972, entrei pela primeira vez  na nova sede do Jornal do Brasil. O mítico prédio cinzento da Avenida Brasil 500 era frio e feio, mas transpirava modernidade, ainda mais se comparado com a antiga e apertada sede na Avenida Rio Branco, um dos primeiros edifícios art-déco do Rio de Janeiro, testemunha ainda da abertura da Avenida Central, começo do século XX.

Lógico que, no instante seguinte, eu e alguns amigos – todos hoje respeitáveis senhores jornalistas – iniciamos uma animada corrida de cadeiras, pelos enormes corredores, ainda desertos. Até 1974 trabalhei ali, como repórter da Rádio Jornal do Brasil. Ainda me lembro dos estúdios enormes, com paredes de pedra. Lembro da redação, que ocupava um andar inteiro, e fervilhava dia e noite com o tic tac incessante das máquinas de escrever. Por lá passavam todos os “que importavam” - políticos, empresários, artistas, celebridades - anônimos, assessores de imprensa. Lembro do restaurante, um andar acima, com o pior café expresso que já tomei na vida - como o prédio era no meio do nada, não tinha jeito: uma hora qualquer, teríamos que fazer o sacrifício de subir pro café, para dar uma turbinada.

Lembro de 11 de setembro de 1973, quando os gorilas tomaram o poder no Chile: eu estava de plantão na Rádio, os telex eram cuspidos pelas máquinas em frenesi trazendo notícias horripilantes, em tempo (quase) real, que minutos depois estavam sendo lidas pelo locutor em edição extraordinária, após passarem por minha máquina de escrever.

Em 1985, voltei à Av. Brasil 500, para escrever sobre Filmes na TV no Caderno B. Tudo parecia igual: a redação barulhenta, as pessoas, as máquinas de escrever, as imensas mesas onde as páginas eram diagramadas a mão, com elegantes traços de lápis sobre o papel branco. As máquinas ainda rugiam na Sala do Telex, e até mesmo o café mantinha aquele gosto horroroso.

Dois anos depois, chegava à redação o primeiro computador, um PC XT, com monitor de fósforo verde. Não poderíamos saber que aquela máquina trazia a mensagem de um futuro distante, onde tudo aquilo em volta iria desaparecer, seria engolido por uma nova realidade, virtual, que o aparelho antecipava. Logo o tic tac das máquinas daria lugar a um silêncio de mosteiro, com as velhas Remingtons substituídas por computadores em rede, cada dia mais poderosos e velozes. Em alguns anos, com a modernidade reduzindo o tamanho de tudo, o próprio prédio da Av. Brasil 500 tornou-se um elefante branco (no caso, cinza), e o JB se mudaria para algumas salas comerciais, novamente na Rio Branco.

Hoje acordei com o anúncio de página central, no JB, do qual ainda sou assinante: a partir de 1 de setembro, acaba o Jornal do Brasil impresso: ele passará a existir somente na Internet, impalpável, virtual. No anúncio, eles tentam colocar o fato como um avanço rumo ao amanhã. Afirmam que os 180 empregados (dos quais, 60 jornalistas) continuam trabalhando normalmente. Chegam a dizer que o JB Virtual será ecologicamente correto, porque não irá gastar mais papel! Mas a verdade é que o Jornal do Brasil, centenário e respeitável, como tantas gerações de brasileiros conheceram, acabou. Soterrado por uma dívida de mais de 100 milhões de reais, décadas de roubalheira e má administração, o JB, revolucionário e aguerrido, chegou a seu fim. Triste? Como saber?

O prédio da Av. Brasil, durante anos uma ruína saqueada, por muito pouco não se transformou em uma favela e ponto de controle estratégico, de onde o Comando Vermelho  poderia fechar a saída do Rio de Janeiro com uma rajada de metralhadora.  As velhas rotativas lá ainda dormem, como monstros entorpecidos, conforme captado pelas belas fotos de Rogério Reis.

O que podemos tirar de tudo isto? Que nada é tão definitivo que não possa ser destruído, modificado. Mais uma vez a História e o Tempo nos mostram suas lições: tudo é passagem, processo, um caminho daqui prali, onde o que realmente permanece é o próprio caminho. E as lembranças que ele nos deixa.

O mundo virtual, implacavelmente, continua engolindo o universo físico em que vivemos. Tudo migra para dentro desta telinha onde você lê meu texto. Será que, algum dia, nós mesmos seremos abduzidos pela luz de LED e LCD, e de nós restará somente uma lembrança diáfana, na mente de infindáveis e sucessivas gerações de computadores e robôs, seres de silício e plástico, autossuficientes, novos dono do mundo, herdeiros do conhecimento humano?

Como dizia o grande filósofo Nelson Ned: “mas tudo passa, tudo passará…”

* Paulo Baiano é carioca de criação, jornalista de profissão, músico por vocação, leitor do JB por (falta de) opção.
www.paulobaiano.com.br
paulofortes@uol.com.br

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
jul
12
2010
2

Deveres de imagem

Por Jorge Carrano

A cada grande evento esportivo, os meios de comunicação divulgam as altas somas pagas por empresas para alguns atletas, na busca por associar suas marcas à imagem que estes famosos carregam. É uma fórmula já consagrada pela propaganda. Mas traz seus riscos.

Quando o golfista Tyger Woods se envolveu num escândalo sexual nos EUA, perdeu patrocinadores importantes, que lhe rendiam milhões de dólares em contratos publicitários. O mesmo já havia acontecido com o jogador de futebol americano O. J. Simpson, acusado do assassinato da ex-mulher, um caso de grande repercusão na mídia.

Durante a Copa que se encerrou ontem, os patrocinadores da Seleção Brasileira reclamaram com a CBF, por conta dos treinos secretos impostos pelo ex-técnico Dunga. Se você colocasse milhões de reais para assegurar a visibilidade de sua marca num evento da magnitude de uma Copa do Mundo, o mínimo que iria esperar é que sua marca fosse…vista.

E o que dizer do erro de marketing da mesma entidade ao aceitar que a Brahma fosse patrocinadora da seleção? A cerveja é boa, a empresa é séria, mas associar esporte com consumo de álcool é um absurdo total. Sem contar a falácia de marketing da empresa, que criou o mito de  “guerreiros” que existem apenas nos comerciais, já que os jogadores não tiveram a disposição para batalhar por nada além de seus cachês. A violência do Felipe Melo não vale como exemplo de “raça”.

Para ficar no caso mais recente e dramático, ainda dentro dos gramados, o episódio envolvendo o goleiro Bruno, do Flamengo, obrigou a Olympikus, marca que patrocinava o goleiro, a cancelar seu contrato e ainda recolher as milhares de peças - entre camisetas, chuteiras e luvas - que traziam o nome do jogador.

As empresas, de fato, correm um risco ao associar sua marca a alguns atletas. Mesmo o sereno e educado Kaká foi expulso (injustamente, ok) no jogo do Brasil contra a Costa do Marfim, e foi flagrado inúmeras vezes soltando palavrões. As onipresentes câmeras não perdoam mais ninguém.

Imagine como o pai vai explicar para o filho que seu ídolo, do qual o menino quis até uma camisa com nome impresso, teve um comportamento que o levou às páginas policiais?

Os atletas de ponta, assim como políticos, atores e celebridades em geral têm um poder de fascínio sobre a sociedade que os faz, naturalmente, serem modelos a seguir. Afinal, todos queremos, em maior ou menor grau, sermos bonitos, famosos, ricos e admirados. Alguns reclamam da falta de privacidade, mas não têm direito a ela além das paredes de seus lares, justamente porque vivem da exposição.

Para as empresas, os episódios deveriam servir de alerta para, ao menos, estudar com mais cuidado as associações que fazem (ou forçam) de suas marcas com pessoas “públicas”. Construir uma reputação demora anos, décadas. Destruí-la, pode ser rápida como um pontapé.

Para as celebridades, o recado também é claro: é preciso que tenham consciência da dimensão que ocupam no imaginário da sociedade, e que pensem não apenas nos direitos de exploração de sua imagem, mas nos deveres e valores que essa imagem dever representar.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
jul
06
2010
1

A alto custo do baixo custo

Por Jorge Carrano

Temos a clara consciência de que as novas tecnologias digitais tornaram a vida mais fácil e rápida.

Internet, celular, computadores e outros recursos fazem parte de nosso cotidiano há tempos e, por estarmos tão acostumados a eles, nem notamos como afetam nossa percepção do mundo.

Entre os muitos exemplos, um dos mais interessantes diz respeito à produção de imagens. Até há alguns anos, tirar uma foto era, no mínimo, um gesto que requeria duas providências: você precisava ter a máquina em mãos e ter filme na máquina.

Quantos de nós, nessa época, não precisamos sair correndo atrás de uma lojinha que vendesse pelicula para não perder o registro de algo interessante bem no meio de uma viagem?

A câmera digital veio render esse turista desprecavido, e mudou para sempre a relação do usuário com a fotografia.

Em pouco tempo, as câmeras invadiram outros espaços, como elevadores, ambientes públicos e privados de todo tipo, as ruas, os monitores e notebooks (que agora, inclusive, já vêm com câmeras embutidas) e, finalmente, os celulares.

Com isso, tirar uma foto ficou não apenas mais fácil, mas também mais disponível, pois quase sempre estamos com algum aparelho que oferece a câmera.

Isso é bom? Sim, há um lado legal nessa facilidade. Mas, como quase tudo, há desvantagens potenciais.

A principal delas é que ficamos menos seletivos quanto à qualidade. Como o filme em película era caro, não podíamos sair por aí fotografando qualquer coisa. Era preciso um certo cuidado. Hoje, com capacidades de armazenamento de muitos Megabytes, ninguém se preocupa muito. Vai fotografando tudo, depois você escolhe o que quer e deleta o resto, certo? Errado. Você acaba acumulando milhares de arquivos, e com isso não vê nada.

O velho álbum de fotografias impressas circulava pelas salas, as imagens eram “vistas”. Se você faz uma viagem e traz 2.000 fotos, nem o mais gentil e interessado amigo terá paciência para ver as imagens.

Além  da  qualidade da maioria das imagens ser ruim, justamente por não haver limites para a quantidade (resultado direto de ”ser muito barato”),  passamos a prestar menos atenção às coisas, numa ilusão digital de que, ao podermos registrar tudo quase de maneira ilimitada, estaríamos, de fato, guardando momentos preciosos.

Mais interessante seria registrar com os próprios olhos um monumento ou paisagem por alguns segundos ou minutos, e só então clicar. Ou não.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
23
2010
0

O bom, o mau e o feio

Em 1966, o diretor Sergio Leone dirigiu um clássico do western: “O bom, o mau e o feio” (The good, the bad and the ugly), estranhamente traduzido para “Três homens em conflito”, em português.

Nessa Copa de jogos sem qualidade e técnicos histriônicos, pudemos ver os três personagens do filme em campo.

O “bom” seria o educado Parreira, que foi cumprimentar o técnico francês Raymond Domenech, o feio da vez. E põe feio nisso. Pegou um time de bons jogadores, e só conseguiu produzir cenas patéticas dentro e fora do gramado. Recusar a mão do Parreira foi sua (des)graça final, um comportamento incompatível com o fair play. Ou mesmo com a boa educação de casa.

Mais feio que ele, o “mau” é mesmo o nosso Dunga. Mal-educado quando o time ganha, mal-educado quando o time perde. Síndrome de perseguido pela Imprensa. E, para tudo, tem a necessidade de dizer que “tem que ser homem”.

A agressão gratuita ao jornalista Alex Escobar, da TV Globo (veja abaixo) é só mais uma prova de que ele não está preparado para o cargo que ocupa. Melhor, não é digno de ocupar um cargo dessa importância. Maltrata o português e os jornalistas. Aliás, botar a culpa de tudo na Imprensa virou esporte favorito dos tiranos (moda lançada por Hugo Chávez) e dos incompetentes.

Não adianta ganhar a Copa, e perder o respeito.

Mas não podemos nos iludir: Dunga, afinal, é um anão.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura |
jun
14
2010
0

A pixação criativa

Por Jorge Carrano

O Segundo Caderno do O Globo de hoje traz uma interessante matéria de capa, falando do Poster Boy. O artista de 28 anos, cujo nome real é Henry Matyjewicz,  fez inúmeras intervenções em cartazes publicitários espalhados pelo metrô de Nova York. Em geral, suas críticas são voltadas ao capitalismo e ao nosso modelo de consumo, com passagens também por temas políticos.

O curioso é que tenha sido preso por vandalismo. Por que curioso? Porque estamos acostumados a ver no mundo digital muitas paródicas, críticas, reinterpretações e mashups envolvendo vídeos, músicas e outras manifestações artísticas. Algumas delas, inclusive, viram verdadeiros hits, com muitos milhares de visualizações e downloads. É um fenômeno característico do universo digital que vivemos, e que volta e meia acende novas polêmicas envolvendo direitos autorais.

Mas, em que aspecto uma “interferência” numa estação de metrô feita num anúncio do McDonald’s, por exemplo, é diferente de uma ação similar publicada no YouTube? A diferença é que, provavelmente, no YouTube será mais vista do que pelos passageiros da estação…

Vale lembrar que, além dos cartazes publicitários, outros “equipamentos” (lâmpadas, catracas, bancos etc) são diariamente depredados e pixados, e  não só no metrô, mas em toda a cidade. Por que uma “pixação” crítica e em alguns casos, engraçada, é considerada tão grave?

Além de ter as ideias, o artista tem ainda que ser bem veloz, pois sua ação precisa estar concluída em poucos minutos, antes que guardas cheguem à plataforma após o flagrante dos circuitos internos de TV.

Veja algumas das peças produzidas:

O mais curioso é que, apesar de preso, seu trabalho está sendo divulgado num livro chamado “The war of art”, que será publicado ainda esse mês.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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