dez
12
2008
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iObama

Por Jorge Carrano

Nas últimas semanas, muito se escreveu a respeito da vitória de Barack Obama. Em geral, com muita ênfase dada ao fato de ser negro (“filho de pai Queniano e mãe branca”), embora todo mundo diga que é “afro-descendente”, bem ao gosto da hipocrisia do “politicamente correto” por lá. Sim, porque, a rigor, somos todos afro-descendentes, já que nossos antepassados comuns surgiram na África…

Mas a eleição de Obama traz outros aspectos interessantes para o estudo da comunicação, e quero destacar apenas dois.

Em primeiro lugar, o uso da Internet. De fato, os mais jovens têm atração e usam mais as novas tecnologias. Já cresceram num mundo conectado por computadores, telefones celulares, games, redes sociais etc. É notório, também, a preferência desse eleitor mais jovem pelo partido Democrata. Historicamente, o partido apóia causas mais alinhadas com o pensamento dos mais jovens, como o apoio às questões ambientais, mais liberdade para minorias (gays, negros, imigrantes) entre outras.

Juntando as duas pontas, o uso que o candidato fez da Internet teve papel fundamental nessa eleição. Seja pela capacidade de mobilização, seja pelo tal do efeito “viral” que os “marketeiros” tanto gostam, seja simplesmente pelo fato de que facilitou muito quem queria doar dinheiro para a campanha. Vídeos no YouTube são a forma de “discurso” que a juventude quer ver. Nada de panfletos escritos, ou comerciais tradicionais nas redes de TV aberta.

Um candidato “diferente” em tudo, da cor da pele ao uso das ferramentas de comunicação, passando pela elegância nos gestos e na forma de se expressar em público.

O outro aspecto interessante tem a ver com o “produto Obama”. Afinal, atualmente, os políticos são, como qualquer outra coisa, tratados como produtos. São vendidos segundo estratégias de marketing que definem do vestuário ao vocabulário, das idéias (às vezes um tanto “voláteis”, como o mercado…) até as peças publicitárias. Quem não se lembra do “Lulinha paz e amor?”…

No caso, o produto Obama tinha algumas características interessantes. Era uma mudança de paradigma, ou seja, um político que era “diferente dos outros políticos”. Pregava a necessidade de mudança. Representava, também, uma candidatura impensável há 30 ou 40 anos. Ou seja, refletia um processo de mudança social, de comportamento. E os jovens o acham muito “cool”. Talvez por tudo isso, represente a esperança, o “salvador da pátria”, num país assolado por George Bush e crise internacional. Embora para a crise haja esperanças…

Não lembra o iPhone? Pense bem. Um celular que mudou o paradigma dos celulares, o filho caçula da empresa de Steve Jobs usa os dedos para navegar, sem botões, e tem um design (aparência) inovador. Chegou para revolucionar o “conceito” de telefone. Outros vieram na sua cola. Além de tudo, o iPhone é “cool”, exatamente como o novo presidente.

Para finalizar, mais um ponto em comum entre os dois. As longas filas que os americanos formaram para comprar, votar, escolher, enfim.

Em poucos lugares do mundo as pessoas ficam tantas horas numa fila na calçada, chova ou faça sol, para comprar um produto, ou votar nele.

É a democracia do consumo, e o consumo da democracia.

Artigo publicado originalmente em dezembro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital, Marketing |
dez
12
2008
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A comunicação contra o mito

Por Jorge Carrano

Durante muitos anos, acreditou-se ser a Terra o centro do Universo. Uma concepção Aristotélica, abraçada pela Igreja Católica, que persistiu até a primeira formulação teórica de Copérnico (1473-1543), posteriormente aprimorada por Kepler e Galileu (1564-1642).

Em 1610, Galileu publica o livro Sidereus Nuncius (”Mensageiro das Estrelas”), onde apresenta formulações mais precisas e provas do sistema heliocêntrico. O livro foi um sucesso, e Galileu continuou o desenvolvimento de suas idéias, até que propôs a necessidade de (re)interpretar alguns trechos da Bíblia a partir da concepção de que a Terra não era o centro do universo. Em 1616, a Inquisição simplesmente considerou a teoria heliocêntrica “teologicamente errada”. Nenhum comentário ou argumento com base científica.

Condenado a renunciar às suas teorias, Galileu foi talvez o melhor exemplo do conflito fé versus ciência. Em 1999, mais de três séculos depois de sua condenação, o cientista foi absolvido pela Igreja.

Há, em pleno século XXI, dilemas similares que confrontam crenças (tratadas aqui não como questões de “fé religiosa”, mas como percepções e opiniões arraigadas e consolidadas pelo tempo) e fatos científicos.

Quantas descobertas científicas, mas também sociais, ambientais e tecnológicas têm sido feitas nos últimos anos? O mapeamento genético, com a decodificação do DNA de várias espécies, pesquisas com células embrionárias, transplantes, robótica, a questão dos transgênicos, biocombustíveis e o aquecimento global, entre outras, reativam polêmicas similares, que colocam pesquisas e conceitos estabelecidos em lados opostos.

Mas, a exemplo do que aconteceu com Galileu, um desafio fundamental para qualquer avanço científico é saber comunicá-lo.

Os transgênicos são um bom exemplo: foram considerados por parte da população e da imprensa como negativos a priori. Apesar da polêmica recente, a descoberta da tecnologia do DNA recombinante (como é chamada a técnica para criar os organismos geneticamente modificados, popularmente chamados de OGM ou transgênicos) data de várias décadas.

Em 1975, na Conferência do Monte Asilomar (EUA), foram discutidos mecanismos para estimular estudos conclusivos a respeito das implicações da adoção desses ingredientes para a saúde humana e o meio ambiente. Na época da Conferência, acreditava-se que os cientistas sairiam por aí criando Quimeras (o ser mitológico que tinha cabeças de leão, dragão e cabra) ou Frankensteins ambulantes. O fato é que esses temores iniciais acabaram por cristalizar na população a idéia de que essa técnica seria, fatalmente, usada para criar aberrações. Até hoje, algumas ONGs rotulam esses alimentos de “Frankenfoods”.

No Brasil, a Lei de Biossegurança (Lei 11.105/05) dispõe que “os alimentos e ingredientes alimentares destinados ao consumo humano ou animal que contenham ou sejam produzidos a partir de organismo geneticamente modificado - OGM ou derivados deverão conter informação nesse sentido em seus rótulos”. Está certo. Afinal, informar corretamente os consumidores é imprescindível – tanto legalmente quanto moralmente.

Mas acontece que as empresas que produzem esses alimentos mantiveram-se em silêncio durante anos, dando espaço para que os boatos e mitos se consolidassem.

Basta ver o símbolo que o Governo brasileiro adotou para informar (ou seria melhor dizer “alertar”?) a população de que determinado produto é feito com ingredientes transgênicos. Veja abaixo. Lembra material radioativo, símbolo máximo da idéia de contaminação…

Não cabe aqui discutir se os produtos fazem bem ou mal, pois o que nos interessa é analisar apenas alguns aspectos ligados à comunicação.

Em pesquisa recente, citada pela Exame (edição 929, pág. 82), mais de 70% das pessoas ouvidas disseram que dariam preferência a produtos não transgênicos. Mas as mesmas pessoas não sabiam explicar o porquê de sua escolha. Essa opinião está diretamente relacionada à falta de informação.

Tão certo quanto a Terra gira em torno do Sol é o fato de que o maior inimigo de todas as ações humanas é a ignorância.

E a comunicação tem aqui também um papel fundamental a cumprir.

Artigo publicado originalmente em novembro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Marketing |
dez
12
2008
1

O Orkut do neanderthal

Por Jorge Carrano

No jornal O Globo de 26/08/08, foi reportada uma descoberta feita por um grupo de cientistas da Universidade de Exeter (Inglaterra) a respeito do homem de Neanderthal, que habitou a Europa e o Oriente Médio durante aproximadamente 300 mil anos, até ser extinto, há cerca de 25 mil anos.

Os cientistas sempre acreditaram que tal desaparecimento se devia a um confronto direto com o homem “moderno” (do ponto de vista anatômico), o Homo sapiens. Este teria instrumentos mais poderosos e eficazes, e teria superado o Homo neanderthalensis na luta pela sobrevivência.

Mas a pesquisa mostrou que, do ponto de vista “tecnológico”, as diferenças eram praticamente inexistentes, pois o homem de Neanderthal também possuía armas e instrumentos equivalentes.
O estudo indica que o fato preponderante da supremacia do Homo sapiens estava em sua capacidade de formar uma rede social mais estruturada e sólida.


Embora as redes sociais tenham sido objeto de estudo desde a década de 1960, foi com o advento da Internet que elas se difundiram e popularizaram.

Atualmente, o mundo corporativo também se interessa em saber o quanto elas podem ajudar ou prejudicar pessoas, marcas, empresas. E como fazer para aproveitar sua força. Livros são escritos e congressos acontecem com freqüência para abordar o tema.

As versões eletrônicas dos jornais abrem cada vez mais espaço para participação dos leitores, e assim fortalecem sua própria rede social. Blogs de diversos tipos surgem numa velocidade impressionante, sendo também formas de estabelecer redes sociais, em geral ao redor de um tema específico.

Se olharmos à nossa volta, encontraremos vários episódios que mostram como as redes sociais têm sido decisivas para a vida das pessoas há muito tempo.

Um exemplo interessante é a história do primeiro sucesso da dupla de Zezé de Camargo e Luciano. Depois que conseguiram colocar uma canção para ser tocada nas rádios, o pai deles investiu o salário de um mês inteiro na compra de fichas telefônicas (quem se lembra disso?) para distribuí-las aos colegas da construção civil. Ele pedia aos amigos para ligarem para a emissora e pedirem a música É o amor. De fato, a canção acabou sendo a mais pedida e tocada. Em pouco tempo, a música “estourou”.

Além do Orkut, o mais popular site de relacionamento, outras iniciativas têm surgido nos últimos anos, buscando nichos bem definidos. Há espaço para todos os gostos. Desde os também conhecidos Facebook, Flickr e MySpace até curiosidades como o “GoPets”, para quem curte bichos de estimação virtuais, o “Vampire Freaks” (cultura gótica) e o “Gaia“, site voltado ao “consumo social”, abordando temas como alimentos orgânicos, meditação etc.

Um exemplo de como as empresas estão prestando atenção ao fenômeno pode ser visto no caso do Sonico, voltado ao público latino, que recebeu este ano um aporte de mais de US$ 4 milhões. Destinado a formar uma rede social de profissionais em todo o mundo, o LinkedIn está no ar desde 2003. Estima-se que, ao final de 2007, já envolvia 150 indústrias de 400 regiões econômicas em todo o mundo. Segundo o próprio site, são mais de 25 milhões de pessoas registradas.

Resta saber se essas ferramentas estão nos tornando mais aptos a sobreviver num mundo em constante mudança, ou se estamos apenas trocando impressões vazias, sem conteúdo.
Sei não, acho que apesar de toda tecnologia e do “sapiens” no nome, ainda temos muitos comportamentos típicos de homens bem primitivos…

Artigo publicado originalmente em outubro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Digital, Marketing |
dez
12
2008
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Descartando reputações

Por Luiz Fernando Brandão

A primeira acepção para dumping registrada no dicionário Houaiss é também a mais conhecida: “ação ou expediente de pôr à venda produtos a um preço inferior ao do mercado, especialmente no mercado internacional (p.ex., para se desfazer de excedentes ou para derrotar a concorrência).”

Derrotar a concorrência, seja ela representada por um bloco econômico, um país, um setor de atividade ou uma empresa em particular, é do que se trata aqui. No caso, por meio de um tipo muito especial de dumping, que em expressão idiomática também significa “depreciar”, “vilipendiar”: o que busca minar, se possível, demolir, entre diversas partes interessadas, o ativo intangível mais precioso de uma organização: sua reputação.

O Brasil tem agora trunfos poderosos e circunstâncias para lá de favoráveis para alavancar seu desenvolvimento em bases sustentáveis, com mais inclusão, mais distribuição, mais democracia. Essa inserção vantajosa do nosso país e das empresas brasileiras no duríssimo jogo da competição internacional é evidente em diversos setores, entre eles aqueles onde operam grandes exportadoras de commodities.

Recursos naturais abundantes e renováveis, técnicas de manejo sustentáveis, avançada tecnologia, gestão competente e baixo custo de produção constituem uma fórmula quase imbatível para a concorrência externa em insumos vitais — energia, alimentos, aço, celulose e outros — dos quais dependem, por sua vez, as estratégias de crescimento de países que agora são locomotivas da economia global.

Esse cenário está inquietando muita gente. Afinal, estão sendo desafiados a se repensar, sobretudo no hemisfério norte, modelos tradicionalmente vitoriosos de geração de riquezas, empregos e bem-estar social. No filme O corte, de Costa-Gavras, de 2005, a questão é tangenciada de forma tragicômica, quando um alto executivo de uma fábrica de papel francesa perde o emprego em virtude da migração da produção desta indústria para países com custos mais competitivos.

Nossos estrategistas e gestores de comunicação devem estar bem atentos a essas nuances do processo de globalização, e aos poderosos interesses que podem estar em movimento nos bastidores de campanhas contra governos, empresas e instituições localizados ao sul do equador.

Travestidas quase sempre de cuidados e preocupações de natureza socioambiental, essas campanhas se valem da facilidade de multiplicação e engajamento propiciada pela Internet e, não raro, recorrem a táticas de difamação, denúncias e acusações pseudopoliticamente corretas, nos moldes preconizados pelos pioneiros da moderna comunicação de massa: a mentira, por força da repetição, acaba percebida como verdade.

Essas pressões representam um novo campo de combate para o qual devemos estar bem e rapidamente preparados. O primeiro passo é reconhecer que o problema existe: o dumping reputacional é uma guerra ainda no início, e deverá nos desafiar muito mais no futuro.

Não se trata de insuflar o nacionalismo puro e simples, e menos ainda de negar que existe amplo espaço para melhoria, tanto nas esferas pública e privada, mas sim de ficarmos atentos às duas faces da moeda. As empresas devem continuar aperfeiçoando suas práticas sociais e ambientais, mas nunca descuidando da sua responsabilidade maior de assegurar desenvolvimento, empregos e qualidade de vida aqui, no Brasil.

Além de aprimorar-se no exercício da responsabilidade socioambiental, as empresas têm de reforçar a comunicação desses temas, a partir de plataformas consistentes e alinhadas às estratégias de negócios. Mais do que apenas nos defender, temos de fortalecer continuamente nossa reputação a partir de práticas responsáveis, transparência e convicção. Sobretudo, temos de nos acostumar a vender melhor nosso peixe, sempre.

Luiz Fernando Brandão, jornalista e tradutor, é gerente de comunicação corporativa da Aracruz Celulose. Em paralelo à carreira de comunicador empresarial, que envolveu passagens por empresas como Shell Brasil e Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, traduziu para o português obras de autores como Edgar Allan Poe, Vladimir Nabokov, Tom Wolfe, Jack London e Flann O’Brien, entre outros.

Artigo publicado originalmente pela Revista de Comunicação Empresarial da Aberje – Associação Brasileira de Comunicação Empresarial.

Artigo publicado em setembro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura |
dez
12
2008
3

O atleta da comunicação

Por Jorge Carrano

Em tempos de Jogos Olímpicos, seria interessante pensarmos qual a modalidade esportiva que mais se parece com as atribuições do comunicador empresarial. Quem se arrisca?

São 34 esportes ao todo, alguns pouco conhecidos por aqui, como badminton e hóquei sobre grama.

Para começar, o comunicador empresarial de hoje precisa ter uma saúde de judoca, força de levantador de peso e ainda o equilíbrio dos praticantes de ginástica artística. Sem isso, não pode nem entrar em campo.

Mas precisa ter também habilidade de esgrimista, pois não é fácil transitar pelos bastidores de uma grande corporação, com sua intrincada rede de processos e vaidades.

Mira de atirador de arco e fecha, porque os “targets” a serem atingidos estão cada vez mais difíceis, e só o tiro “na mosca” interessa ao chefe. Tem que ser cesta de 3 pontos.

Respostas rápidas? Tênis de mesa. Afinal, a “bolinha” tem que ficar sempre do lado de lá….Fôlego de nadador e ciclista. E ainda tem que ser elegante, como no salto ornamental.

Mas, no corre-corre do mundo corporativo, parece que vivemos eternamente disputando os 100 metros, às vezes com barreiras…

Pois é, a atividade do comunicador empresarial, assim como a de um grande atleta, não é feita de um dia para outro. Não é o “golpe” do lutador de boxe, que derruba o adversário e acabou-se.

É um eterno aprendizado e treinamento, em busca de superar os cenários que mudam a cada momento e as nossas próprias limitações.

Talvez nossa atividade esteja mais para a modalidade que é, justamente, o símbolo e origem dos jogos: a maratona.

Sim, porque só um maratonista tem fôlego, resistência e perseverança para percorrer todo o complexo cenário que envolve o trabalho de comunicação. Não adianta só força, velocidade ou habilidade.

Construir e gerenciar marcas, lidar com questões socioambientais cada vez mais complexas, estabelecer canais com as diversas e crescentes “partes interessadas” requer também muito fôlego.

Mas é preciso ainda pensar em longo prazo. Não adianta correr muito nos primeiros metros, porque a corrida é longa. Também não pode ficar muito pra trás, do contrário não chegará a tempo.

Administrar os recursos (e canais) disponíveis, como administrar o fôlego, é parte fundamental da nossa atividade.

Boa corrida para você!

Artigo publicado originalmente em agosto de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Marketing |
dez
12
2008
1

A comunicação do pau oco

Por Jorge Carrano

A expressão “Santo do Pau Oco” surgiu de um costume oriundo do século XVII, auge da exploração de ouro e metais preciosos no Brasil. Naquela época, para escapar da fiscalização da Coroa Portuguesa, as esculturas dos santos eram feitas de madeira e “recheadas” com ouro, diamantes e dinheiro. Assim, as imagens passavam com bênçãos pelos postos de Coroa…

Até bem pouco tempo, bastava apoiar alguma entidade, doar umas ambulâncias, reformar uma escola ou plantar algumas árvores e muitas empresas já se consideravam “responsáveis”, ou com “forte atuação socioambiental”. E tentavam, assim, passar pela “fiscalização” da sociedade. Uma espécie de “santo do pau oco corporativo”.

Nos últimos anos, a sociedade está cada vez mais atenta ao que fazem as empresas. Por diversos motivos. Os consumidores ficaram mais exigentes, o mercado se globalizou, a tecnologia propiciou a troca instantânea de informações, as comunidades virtuais estão ganhando força, tudo isso é verdade.

Mas poucas vezes paramos para refletir que boa parte da “atenção” da sociedade se deve aos erros das próprias empresas. Naquele “ouro” escondido nas vestes de madeira dos santos.

Isso vai desde aquele famoso vazamento de petróleo, na década de 1980 (veja mais a respeito aqui) até os recentes “desastres”, passando ainda por questões sociais. Como componente dessa equação, há ainda a ausência do poder público regulador e fiscalizador.

Na linha da “irresponsabilidade fiscal” existem vários casos, como Enron e Worldcom, nos EUA e, recentemente, aqui no Brasil, notícias envolvendo empresas de grande porte — uma cervejaria, uma empresa de produtos de luxo, e uma marca respeitada de equipamentos de telecomunicações.

Inocentes ou culpadas, as empresas de fato tiveram seus nomes envolvidos, com prejuízos para sua reputação. E, ao falarmos de reputação, chegamos à questão da responsabilidade da comunicação.

Não estamos sugerindo que os profissionais de comunicação saiam por aí denunciando as empresas nas quais trabalham, mas que tentem, na medida do possível, alertar a alta diretoria sobre a necessidade de medir com cuidado o que se diz na comunicação.

O importante é fazer primeiro, e depois comunicar. Se faz pouco, melhor comunicar com parcimônia.

Ou seja, devagar com o andor porque, mesmo que o santo não seja do pau oco, pode bem ser de barro.

Artigo publicado originalmente em julho de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Digital, Marketing |
dez
12
2008
3

O homem do cachorro-quente

“Um homem vivia na beira da estrada, e vendia cachorros-quentes. Não tinha rádio e, por deficiência da vista, não podia ler jornais, mas, em compensação, vendia bons cachorros-quentes.

Colocou um cartaz na beira da estrada, anunciando a mercadoria, e ficou por ali, gritando quando alguém passava:

— Olha o cachorro-quente especial!!!

E as pessoas compravam. Com isso, aumentou os pedidos de pão e salsichas, e acabou construindo uma boa mercearia. Então, mandou buscar o filho, que estudava na Universidade, para ajudá-lo a tocar o negócio.

O filho veio e disse:

— Pai, o senhor não tem ouvido rádio? Não tem lido jornais? Há uma crise muito séria, e a situação internacional é perigosíssima!

Diante disso, o pai pensou “meu filho estudou na Universidade! Ouve rádio e lê jornais, portanto, deve saber o que está dizendo!” E então reduziu os pedidos de pão e salsichas, tirou o cartaz da beira da estrada, e não ficou por ali, apregoando os seus cachorros-quentes.

As vendas caíram do dia para a noite, e ele disse ao filho, convencido:

— Você tinha razão, meu filho, a crise é muito séria!”

* Texto original publicado em anúncio da Quaker State Metals Co. em 24 de fevereiro de 1958.

Artigo publicado originalmente em abril de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Marketing |
dez
12
2008
1

A nova dimensão do mundo digital

Por André Soares

A palavra “digital”, originada do latim digitale, diz respeito àquilo que é relativo ou pertencente aos dedos, mas, no meio eletrônico, refere-se aos dígitos ou sistemas de dados codificados em algarismos binários, como na telefonia celular, computadores e modernos receptores de sinal televisivo.

Muitos produtos no mercado de tecnologia, no entanto, reúnem os dois sentidos do termo, já que colocam ao alcance do dedo humano todas as suas funções e possibilidades de interação, através de telas sensíveis ao toque (touch-screen), um verdadeiro convite à aposentadoria dos teclados e interfaces tradicionais.

O Microsoft Surface, por exemplo, é um computador pessoal que interage com o usuário por comandos de voz e tato. Já está sendo utilizado em hotéis e restaurantes, permitindo que as escolhas de um cardápio ou a navegação pelo mapa de uma cidade sejam feitas com toques na tela, entre outras possibilidades.

Sua interação também pode ocorrer com objetos, expandindo ainda mais os limites da comunicação do computador com o mundo, haja vista a possibilidade de colocar um telefone celular sobre a tela para transferir arquivos, ou talvez um copo de cerveja para apurar a temperatura do líquido.

Já a Apple criou o iPhone, celular que dispensa teclas. Sua tela sensível ao toque com vidro de qualidade ótica foi especialmente criada para ser usada com os dedos, permitindo um acesso bem mais dinâmico às suas funções. O aparelho tem sido muito bem vendido nos Estados Unidos desde o seu lançamento, em junho do ano passado.

As televisões do futuro jamais poderiam ficar de fora dessa tecnologia, e a LG apresentou sua TV LCD com tela sensível ao toque na CES 2008 (maior feira de eletrônicos do mundo), realizada em Las Vegas entre os dias 7 e 10 de janeiro, sem contar que os celulares modernos, os chamados smart phones, também são capazes de transmitir a programação da tevê digital.

Como se não bastassem os comandos por voz e tato, há ainda os visores touch screen em telas flexíveis, inovação que inspirou a criação do conceito de celular Nokia 888, tão fino e maleável que pode ser enrolado em torno do braço como se fosse uma pulseira, ou dobrado em pequenas partes como se fosse de papel.

Essas sucessivas e rápidas inovações, além de expandirem os significados de antigas palavras e criarem novas expressões, como “mundo digital”, também trazem obsolescência a velhos produtos e ameaçam os atuais paradigmas da comunicação. Há, assim, uma revolução nas formas de agir e interagir com as coisas ao nosso redor, num novo universo de possibilidades que se encontra cada vez mais ao alcance das mãos, ou melhor, ao alcance dos dedos.

André Soares é redator da Tau Virtual Comunicação

Artigo publicado originalmente em março de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Digital |
dez
12
2008
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A importância do virtual

Por Jorge Carrano

O uso da palavra “virtual” tornou-se corriqueiro entre nós. O dicionário Aurélio considera virtual como algo “existente como faculdade, mas sem de fato existir”. Mas a verdade é que o virtual já “existe” em nossas vidas há muito tempo.

Apenas para dar um exemplo, vamos lembrar do momento em que o dinheiro passou a ser o padrão de troca de mercadorias. Houve uma “virtualização” do valor. Um pedaço de papel onde estava escrito o valor que ele representava. Diferente da moeda de ouro, que trazia “o valor” na sua própria matéria.

Muito desse movimento recente em torno do conceito de virtual está associado ao fenômeno Internet. Na web, todos os temas são abordados, pessoas de todo o mundo podem estar conectadas e formar a tal “aldeia global” de Marshall McLuhan.

Entretanto, é interessante notar que, apesar desse aparente caos, as comunidades virtuais têm começado a se organizar melhor.

Num futuro talvez não muito distante, essas comunidades passarão por um reconhecimento formal, e poderão participar e influir “oficialmente” – já fazem isso extra-oficialmente – de discussões, decisões e protocolos internacionais, pois hoje praticamente todas as questões importantes ultrapassam os limites das fronteiras: tráfico de drogas, pobreza, poluição, desmatamento, energia, clima, lixo, armas e muitos outros.

Mas de onde vem a força dessas comunidades virtuais? Do fato de estarem conectadas numa mesma “frequência”, pois as pessoas se agrupam por afinidades. Preferimos sempre estar com pessoas cujos interesses sejam similares aos nossos. O grande poder da comunidade virtual está no fato de reunir pessoas ligadas por gostarem, detestarem ou acreditarem nas mesmas coisas, independentemente de sua localização geográfica, idioma, credo ou raça. Aliás, esse é o conceito correto da palavra comunidade, que quer dizer fundamentalmente “qualidade do que é comum”, “comunhão”.

Pode parecer um exagero, mas esta é uma mudança e tanto no modo de pensar tradicional já que, em geral, consideramos uma comunidade apenas como um grupo por pessoas que dividem uma determinada região, estando próximas fisicamente.

Essa dificuldade em perceber uma comunidade virtual como “parte interessada” (stakeholder) pode ser uma ameaça para muitas empresas, sobretudo as de atuação global. As que perceberem mais cedo a necessidade de monitorar o que pensam essas comunidades e, sobretudo, aprenderem a não menosprezar seu poder de mobilização, poderão obter importantes ganhos de imagem e reputação.

Não estranhe, um dia uma comunidade dessas talvez tenha um assento na ONU.

Artigo publicado originalmente em fevereiro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
dez
12
2008
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Engajar ou morrer na praia

Por Luiz Fernando Brandão

A falta de disposição para o diálogo pode implicar o fracasso de empreendimentos a que foram dedicados sonhos, capital e trabalho.

No meio empresarial preocupado com o destino dos negócios, está em voga uma expressão nascida na língua inglesa que pretende traduzir um processo cada vez mais crucial para as organizações: o “engajamento das partes interessadas”, ou stakeholder engagement.

Trata-se tanto da disposição quanto do esforço, por parte de empresas e instituições, em aproximar-se de indivíduos ou grupos que, de uma ou de outra forma, são ou podem ser por elas afetados, e de cuja boa vontade (good will) elas dependem para alcançar seus objetivos, sejam estes sucesso nos negócios, relacionamentos construtivos ou êxitos políticos, entre outros.

Associado ao conceito de engajamento está um outro, relativamente novo, o da “licença social para operar”, que os descomprometidos com o politicamente correto resumem em “licença para lucrar”.

Pois a idéia é exatamente essa: para tocar o negócio, e obter o retorno financeiro necessário para continuar na praça, no novo cenário não bastam as licenças tradicionais — regulatórias, ambientais e outras. Há que contar com o aval da sociedade, representada por interlocutores como ONGs, sindicatos, associações de bairro, paroquiais e outros.

Mas, por que “engajamento”?

No excelente Dicionário Houaiss da língua portuguesa, é somente em sua quarta acepção que a palavra tem o sentido mais próximo do desejado por aqueles que adotaram a tradução literal do original em inglês: “participação ativa em assuntos e circunstâncias de relevância política e social, passível de ocorrer por meio de manifestação pública, de natureza teórica, artística ou jornalística, ou em atividade prática no interior de grupos organizados, movimentos, partidos etc.”.

Antes disso, como terceira acepção, o registro do sentido figurado do vocábulo pode até comprometer as melhores intenções — “aliciamento de adeptos para uma causa” —, o que não é o caso.

Já no inglês, a coisa se complica um pouco mais, visto que o verbo (to engage) associado ao termo tem sentidos os mais diversos, inclusive o de “travar combate com”, que é justo o inverso do que pretendem os agentes do processo em pauta.

Mais simples é qualificar o engajamento como ouvir, entender e buscar pontos afins, tendo em vista harmonizar interesses diferentes. Sempre na convicção — ou constatação — de que vivemos numa teia de interdependências.

Seja com e partindo de quem for, o que se pretende é, abrindo mão do pensamento único e de posições entrincheiradas, ir “às bases” e tratar de chegar a um entendimento, a um relacionamento construtivo. Que passa, é claro, por concessões, as quais nem todo negociador, independentemente da parte que represente, está disposto a fazer — mesmo que a um custo muito alto. Um custo que, pelo lado do empreendedor, pode chegar ao fracasso de um projeto ao qual foram dedicados sonhos, trabalho, recursos financeiros e materiais.

Entre engajar ou morrer na praia, melhor — e, em todos os sentidos, mais econômico — é prevalecerem o bom senso e o diálogo, seja qual for a natureza do empreendimento ou o ambiente onde ele opera.

Afinal, nesses tempos de reordenamento dos fatores geopolíticos que fazem o mundo dos negócios girar, com a emergência de novos e importantes atores, tendo como grande pano de fundo as mudanças climáticas globais, todo e qualquer pensamento sobre o futuro é naturalmente pontilhado de interrogações. E todas as partes são interessadas.

Luiz Fernando Brandão, jornalista e tradutor, é gerente de comunicação corporativa da Aracruz Celulose. Em paralelo à carreira de comunicador empresarial, que envolveu passagens por empresas como Shell Brasil e Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, traduziu para o português obras de autores como Edgar Allan Poe, Vladimir Nabokov, Tom Wolfe, Jack London e Flann O’Brien, entre outros.

Artigo publicado originalmente em janeiro de 2008 no L I N K, informativo da Tau Virtual Comunicação

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Digital |

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