mar
24
2009
1

As pedras do macaco

Por Jorge Carrano

No início deste mês, os cientistas apresentaram o interessante caso de um chimpanzé que vive no zoológico de  Gävle, a cerca de 170 km de Estocolmo, na Suécia.

O chimpanzé Santino, de 30 anos, cata e arruma calmamente várias pedras antes da abertura do zoológico para depois… atirá-las nos visitantes.

O objetivo do estudo foi comprovar que nossos parentes são, portanto, capazes de atos premeditados. Santino planeja e executa as ações de maneira consciente, segundo os cientistas.

A capacidade de planejar era considerada um atributo apenas do homem mas, ao que tudo indica, nossos parentes são capazes de adotar o mesmo comportamento.

Apesar de sermos a espécie mais “complexa” e intelectualmente avançada do planeta, não pude deixar de pensar que somos basicamente como o velho Santino.

Acuados cada vez mais com os infinitos compromissos e pressões do cotidiano,  o que fazemos? Jogamos nossas “pedras” - na forma de agressões físicas ou verbais, intolerância e preconceitos diversos  - nos outros.  Basta ler o jornal para constatar o aumento de nossas muitas formas de intolerância para com o próximo.

Sem contar a destruição do planeta causada pelo modelo insustentável de exploração de seus recursos.

Merecemos as pedras do Santino.

Escrito por Jorge Carrano em: Cultura, Sustentabilidade |
mar
17
2009
3

E-Gutenberg (parte 2)

Por Jorge Carrano

Responda rápido: na tela abaixo, do The Wall St. Journal, onde você clicaria para ler as notícias sobre Tecnologia?

Aposto que você pensou no item Technology, certo? Pois é, eu também, mas é a resposta errada. Se você clicar ali verá apenas a notícia mais recente. Para ver todas as notícias do assunto, precisa clicar no número que aparece entre parênteses ao lado da palavra, ou seja, no “(16)”.

Isso é usabilidade, ou melhor, é um problema de usabilidade.

Com a chegada do Kindle 2, o leitor de livros da Amazon, lançado este ano (US$ 359, nos EUA), a discussão voltou a ocupar espaço na mídia: afinal, o livro eletrônico vai subsituir o livro em papel?

A primeira questão remete justamente à usabilidade. Se não for fácil e intuitivo de usar, não terá sucesso. O livro impresso parece já fazer parte do nosso DNA. Basta você oferecer um livrinho daqueles de plástico, cheio de figuras coloridas, que mesmo bebês pequenos “deduzem” como folheá-lo. Fácil de usar.

O Kindle 2 tem uma tela com resolução de 600×800 pixels, com aproximadamente 6 polegadas. Usa tecnologia E-Ink, que permite escolher entre 16 tonalidades de cinza, o que deixa a leitura mais confortável. Quanto à  capacidade de armazenamento, o aparelho tem pouco mais de 2 GB de memória, o suficiente para uns 1.500 livros.

Mas é fácil de usar?

Um estudo de usabilidade realizado este mês por Jakob Nielsen - considerado uma das maiores autoridades do mundo no assunto - reprovou o Kindle 2 justamente no quesito “navegação”, considerando-o fácil de usar para leituras lineares (como um romance), mas ruim para conteúdos em que o leitor precisa interagir, como no exemplo do The Wall St. Journal lá de cima. Além de pouco intuitivo, era lento para executar algumas funções.

Apesar disso, o produto parece ser candidado a, de fato, substituir alguns livros. Mas quais?

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que existem livros e livros. Possivelmente, para um livro didático, o e-book pode apresentar vantagens. Conter referências de outras obras “linkadas” ao assunto e permitir que um estudante ou profissional frequente a sala de aula com bom arsenal de informações sem precisar carregar uma mala de livros, por exemplo. Conectado à internet, busca mais informações e se atualiza. E tome download. É o livro “ferramenta”. Parece fazer sentido, uma vez corrigidas suas falhas de usabilidade.

Mas confesso que tenho dúvidas quanto a capacidade de um e-book substituir um livro de arte, de poesia ou mesmo um romance. O contato físico com o papel ainda é insuperável. Quem nunca cochilou sobre um livro? Quem nunca fechou suas páginas, momentaneamente, e contemplou o céu num segundo de reflexão, sem a preocupação de que a bateria pode acabar? Ler numa tela, ainda que num LCD de boa resolução, é mais cansativo e aborrecido que na página impressa.

Mas por pouco tempo. Embora esses argumentos sejam mencionados pelos defensores do livro tradicional, sua eventual substituição por uma versão eletrônica terá muito pouco a ver com tecnologia.

Tem mais a ver com comportamento.

A nova geração que agora chega ao mercado de trabalho não tem com o livro impresso a mesma relação das gerações anteriores.  São filhos de um mundo onde computadores sem fio, internet, celulares e redes sociais são tão comuns quanto geladeiras, televisores e micro-ondas. Estão acostumados a conteúdos digitais.

Eles “clicam” nas coisas.

Assim, é bem provável que o “livro eletrônico” conquiste cada vez mais espaço, conforme as gerações vão passando, a tecnologia fica mais acessível e o produto vai tendo suas características e funcionalidades aprimoradas.

Mas isso não acaba com o livro, apenas com seu suporte em papel. Quanto tempo isso vai levar, não creio que seja possível prever. Se você tiver um palpite, mande para nós.

Até lá, boa leitura.

Leia aqui a primeira parte deste artigo.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mar
10
2009
2

E-Gutenberg

Por Jorge Carrano

Em primeiro lugar, um esclarecimento: sou fã do livro impresso. É um meio onde o leitor é dono do tempo, vai e volta quantas vezes quiser. Tem muita “portabilidade”, sendo um companheiro em casa, numa viagem, qualquer lugar. Não consome energia (salvo uma lâmpada para leitura, se de noite). Além disso, podemos interagir com ele, riscando, anotando, grifando, tornando-o pessoal. Podemos ainda doar, emprestar, reler…

Desde o advento da prensa de tipos móveis de Gutenberg, em torno de 1439, o livro se tornou uma ferramenta de educação, lazer e informação para a sociedade.  Está conosco nesse formato, impresso em papel, há pelo menos 570 anos.

Um dos motivos do sucesso da invenção de Gutenberg foi ter barateado o custo dos livros, numa Europa que ansiava por difusão cultural, em pleno Renascimento. Os livros, até então, eram feitos de pergaminho, um material caro, obtido da pele de animais, em geral bezerros, cabras ou ovelhas.

Embora o papel obtido a partir de fibras vegetais já existisse há muito tempo, tendo sido criado na China, em 105 a.C. , foi preciso esperar mais de 1500 anos para que os dois inventos se materializassem no livro como o conhecemos hoje.

Apesar de seu enorme impacto na sociedade, o processo de impressão de Gutenberg não substituiu totalmente ou imediatamente os manuscritos, que continuaram a ser produzidos. Como o processo de impressão permitia ter páginas sempre iguais, com o mesmo conteúdo, foi possível a criação de índices, e de numeração nas páginas, para mencionar aspectos mais óbvios.

Mas o livro mudou sobretudo o próprio ato da leitura, que deixou de ser uma ação “coletiva” - leituras em voz alta, a evolução da conversa ao pé da fogueira das culturas tribais -  para um hábito individual, silencioso.

Agora, vemos a discussão em torno da chegada dos e-books, produto que usa internet e avançadas tecnologias de processamento da informação. Entre os mais badalados, está o Kindle 2, da Amazon.

Muito tem se discutido sobre a substituição do livro tradicional pelo livro eletrônico. Estudos relacionados à portabilidade e à usabilidade têm sido divulgados com frequência. Mas quero enfatizar aqui apenas a discussão em torno de seu aspecto “ecológico”, na medida em que os defensores dos e-books destacam o fato de que o equipamento não consome papel e comporta muitos livros simultaneamente, diminuindo a necessidade do corte de árvores.

Sei não.

O apelo ambiental, ainda que interessante, esconde a meu ver um perigo: o lixo eletrônico é mais complicado de lidar que o “lixo” do livro. Para começar, um livro pode ter muitos donos em sua vida, durando facilmente 40 ou 50 anos.  Em dois anos,  a maioria dos produtos da tecnologia é lixo, para o qual ainda não existe solução aparente.

Sem falar nas matérias-primas necessárias à sua produção, com o uso de metais como chumbo, mercúrio e cádmio, entre outros.  Segundo reportagem publicada na revista Amanhã,  “um estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) revela que, para cada computador fabricado, são necessários dez vezes o seu peso em produtos químicos e combustíveis fósseis”.

O papel é reciclável, e seu processo de produção é hoje bem sustentável. A indústria usa (ao menos no Brasil) apenas florestas plantadas (em geral com eucaliptos) para produzir a celulose que vai virar o papel do livro. E essas empresas, seja por obrigação legal, seja por preocupação com imagem, seja para assegurar a biodiversidade importante também para seus plantios, preservam milhares de hectares de florestas nativas.

A meu ver, o viés ecológico é um apelo que - ainda que fosse totalmente verdadeiro - não seria suficiente para motivar as pessoas ou empresas a mudarem sua forma de absorver ou distribuir conteúdo.

No fundo, é disso que tratamos, do livro como suporte para distribuição de conteúdo.

As pessoas não passaram a preferir o livro impresso pelo lado ecológico, por pena dos animais. Fizeram isso porque era mais barato e apresentava melhor qualidade final.

O apelo ecológico, nesse caso, parece menos relevante ou verdadeiro. O sucesso dos e-books está em outro aspecto, associado à usabilidade, que trataremos num próximo artigo, a ser publicado no dia 17 de março.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
mar
05
2009
1

Consumo sustentável - como comunicar

Por Jorge Carrano

No post anterior, comentei a necessidade de revermos nossos modelos de produção, comercialização e comunicação, buscando estimular a idéia de consumir “melhor” ao invés de consumir cada vez “mais”.

Se isso não acontecer, não haverá mais recursos naturais no planeta para as próximas gerações. Nem florestas. Nem água. Nem ar respirável.

Um exemplo interessante de como apresentar o problema, e de como a internet é um meio cada vez mais importante para a disseminação de conceitos ligados à sustentabilidade é o vídeo “The Story of Stuff” (www.storyofstuff.com), que já recebeu mais de 4 milhões de downloads !

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Escrito por Jorge Carrano em: Comunicação Empresarial, Digital, Sustentabilidade |
mar
03
2009
1

O trimestre sustentável - parte 2

Por Jorge Carrano

Conciliar o crescimento sustentável da empresa com a necessidade de apresentar resultados aos acionistas é trabalho para todos. Mas os responsáveis pela comunicação empresarial têm um desafio a mais: explicar a todos os envolvidos e interessados no que a empresa faz (”stakeholders“), incluindo os principais gestores, o que é, de fato, essa sustentabilidade. Não é reformar escola, não é doar ambulâncias, não é empregar minorias, não é plantar árvores.

Isso pode vir como resultado da estratégia de sustentabilidade. Mas ela precisa ser muito mais que isso. O conceito de sustentável pode ser definido resumidamente como algo que é economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto.

Se for isso, então não é permitido esgotar os recursos naturais, pois seria ambientalmente errado. Não dá para ignorar as carências da sociedade (empregados aí incluídos), pois seria socialmente injusto. É um tremendo desafio fazer as coisas direito e, ainda, ser economicamente viável.

Mas isso não parece óbvio? Então por que é um desafio, um dilema? Porque os modelos de produção, comercialização e comunicação estão ultrapassados. Ao invés de estimularem o “consuma mais”, deveriam estimular o “consuma melhor” ou “consuma certo”.

É preciso que o modelo seja qualitativo, e não apenas quantitativo. A comunicação tem papel relevante na formação desse modelo, uma vez que a sustentabilidade só será obtida se houver o comprometimento de todos os agentes da empresa, e também de seus fornecedores e consumidores.

Não adianta parte da empresa ouvir o que a comunidade vizinha de sua fábrica quer, tentar compreender suas demandas e construir uma relação positiva se, ao mesmo tempo, a chaminé lança uma nuvem negra de poluição, ou resíduos são despejados no rio ao lado.

Não adianta retocar a radiografia, é preciso atacar a doença.

Mesmo que os resultados demorem mais que um trimestre.

Leia a primeira parte deste artigo aqui.

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