abr
28
2009
0

O cachimbo da verdade

Por Jorge Carrano

Observe bem a foto abaixo.

Na imagem à esquerda (a original), enquanto Lênin faz seu discurso, podemos ver Kamenev e Trotski, que “misteriosamente” foram removidos (veja imagem à direita) da imagem “oficial” por terem se tornado adversários de Stalin (Foto: Museu Nacional de História de Moscou/BBC).

Exemplo clássico de manipulação da informação, neste caso usada para “reescrever a história” de um regime totalitário.

Embora pareça distante esse tempo (e nem é tanto assim), e apesar das sociedades terem hoje nas tecnologias de comunicação instantânea (internet, blogs, SMS etc) formas de acesso à informação além dos “canais oficiais”, esse tipo de manipulação acontece a todo instante.

Exemplo recentemente divulgado inclui a censura ao famoso cachimbo do cineasta Jacques Tati. Nos cartazes de divulgação da exposição em homenagem ao diretor inaugurada na cinemateca de Paris, o cachimbo foi substituído por um ridículo catavento amarelo. Veja abaixo:

A decisão foi baseada na Lei Evin, que proíbe a propaganda de tabaco e álcool. A lei tem 18 anos, e o próprio autor, o ex-ministro Claude Evin, considerou sua aplicação neste caso equivocada, na medida em que a obra de Tati é um patrimônio cultural da França.

Imagine agora se a moda pega. O que seria feito com o enorme acervo de filmes dos anos 1940, 1950 e até mais recentes? Em Casablanca (1942), por exemplo, Humphrey Bogart aparece quase o tempo todo com um cigarro na boca. Pelo que seria substituído, um pirulito? E o que fazer com a também clássica imagem de Winston Churchill sem seu famoso charuto? Ou Tom Jobim, Villa-Lobos, Groucho Marx, Freud e Che Guevara, também notórios apreciadores de um bom tabaco?

Daqui a pouco alguém dirá ser necessário eliminar o nú de obras clássicas, por conta de “proteger” a sociedade e não “incentivar” a pornografia.  Que faremos, então, com as estátuas de David e da Vênus de Milo, ou o famoso quadro de Boticelli, o “Nascimento da Vênus”? (imagens ao final do post)

A comunicação tem papel importante no esclarecimento dos males que o cigarro (o álcool, o açúcar, as gorduras e tantos outros) fazem à saúde. Sem a comunicação, torna-se impossível tratar qualquer questão de saúde pública. Isso é fato.

Mas é fato também que a história não se reescreve com Photoshop.

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Seguem agumas imagens originais para aproveitarmos (e lembrarmos) enquanto há tempo…

Cartaz original do filme Mon Oncle, de 1958. O cachimbo é parte da própria silhueta do personagem.

Cena de Casablanca, de 1942, com Humphrey Bogart e seu inseparável cigarro, muitas vezes acompanhado também de um copo de whisky…

O “David”, de Michelangelo (concluída em 1504)

“O nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli (1845)

“A vênus de Milo”, atribuída a Alexandros de Antióquia (cerca 130 a.C)

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
abr
14
2009
0

O burro falante

Por Jorge Carrano

“Um fazendeiro vai à feira comprar um burro. Um cigano lhe oferece um burro que fala. Custa uma verdadeira fortuna, mas o fazendeiro nem hesita, leva-o para casa. O burro, porém, não abre a boca para dizer coisa alguma. Desgostoso, o dono resolve devolvê-lo ao cigano. No caminho, encontra uma cobra. “Vou jogar na cobra”, diz ele, pensando em ficar rico no jogo do bicho. É então que o burro começa a falar e o aconselha a jogar no coelho. O fazendeiro, deslumbrado, aposta tudo o que tem no coelho. Mas dá é cobra mesmo. O homem fica furioso e o burro, despeitado: “Já faço muito em falar. Ainda queria que eu acertasse o bicho?”. (*)

Dois fenômenos do jornalismo atual me remeteram à essa velha história. O primeiro é o uso e, em certa medida, o abuso, que alguns veículos de comunicação fazem da participação da audiência (seja telespectador, leitor ou ouvinte).

As tecnologias atuais, como a facilidade de criação de vídeos por celulares e a disseminação da banda larga, entre outras, têm feito a farra de blogs, websites e até mesmo programas de televisão em formato tradicional, como o Fantástico.

Mas o fato de ser possível essa participação não quer dizer que qualquer coisa possa ser veiculada. Se o conteúdo não é bom, diferente ou interessante, não deve ser veiculado só porque foi feito “com a participação do espectador”.

Se, por um lado, essa “democratização” do acesso aos veículos de comunicação é interessante, por outro é preciso uma dose de bom senso.  Do contrário, teremos apenas burros que falam. Algo me diz que um bom editor ainda tem seu lugar.

Isso sem mencionar que, ao mesmo tempo que avançamos para a era da TV digital, com a transmissão de sinais com qualidade cada vez maior,  acabamos por assistir aquela festinha de aniversário no escuro que o telespectador gravou do seu celular e mandou para a emissora…

Outra discussão é se os jornalistas precisam ou não de diploma para exercer a profissão. Pode não parecer, mas essa  questão tem relação com a primeira.  Até porque, se a audiência começar a “participar muito”, vai sobrar menos espaço para os materiais produzidos pelos próprios veículos.

Como qualquer empresa, os jornais e emissoras querem reduzir custos. Se o público pode produzir o conteúdo de graça, por que pagar alguém para fazê-lo?

Mas se a qualidade do conteúdo jornalístico já é questionável com a exigência do diploma, imagine se não houver exigência alguma…

Não que colunistas, articulistas, especialistas e outros que contribuem, de fato, com artigos, análises e conteúdos de qualidade não possam existir. Devem. Eles só enriquecem a informação.

Mas o duro ofício de correr atrás das informações e transformá-las em notícia ainda precisa ser, em grande parte, realizado por profissionais que aprendem técnicas mínimas de apuração e redação. E são “mínimas” mesmo, dada a qualidade de nossa educação…

Em resumo: os veículos de comunicação podem, devem e precisam inovar, aproveitando o que a tecnologia oferece de melhor. Mas sem esquecer que seu compromisso maior é com a qualidade (e a veracidade) do produto que oferecem: a informação.

E isso não será atingido sem bons profissionais, que não podem ser substituídos pelos “burros falantes” viabilizados pela tecnologia.

(*) Extraído do livro Duas histórias muito engraçadas, de Joel Rufino dos Santos (Editora Moderna).

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
abr
07
2009
2

A culpa é do cliente

Por Jorge Carrano

Quando assistimos a um comercial incrível na televisão, nossa primeira reação, em geral, é pensar: “o cara que criou isso é um gênio”.

Quando vemos um anúncio na revista ou escutamos um spot criativo no rádio, a reação é mais ou menos a mesma. Quando navegamos por um lindo site, ou pegamos uma embalagem bem bolada, pensamos: “esse designer é fera”.

Pois é, acontece que nessa avaliação falta a parte mais importante: o cliente.

Sim, toda vez que você encontrar uma boa peça de comunicação, não se iluda. O mérito é do cliente.

Foi ele que escolheu a agência certa, provavelmente forneceu um bom briefing, pagou o preço de mercado, soube valorizar uma boa idéia, topou fazer uma boa produção e, finalmente, aprovou a peça certa para veiculação.

Sem o cliente, não há boa comunicação.

Mas essa moeda tem outro lado.

Toda vez que você vir um anúncio ruim, um website mal feito, um comercial que zomba da sua inteligência, um folheto mal escrito, uma embalagem que corta o dedo, não tenha tampouco nenhuma dúvida: a culpa é do cliente. Só dele.

Afinal, em quase todos esses casos,  ele escolheu o parceiro errado, não sabia o que queria (e isso é papel dele), não soube valorizar o trabalho  (ou usou o preço como único fator de decisão) e aprovou (ou sugeriu) uma idéia ruim.

Viva o (bom) cliente. A ele devemos a boa comunicação ao nosso redor.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Digital, Marketing |
abr
06
2009
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O voto do brasileiro

Por Jorge Carrano

Que o Big Brother é um fenômeno, ninguém duvida. Trata-se de um formato cujo retorno comercial é indiscutível. Se assim não fosse, já teria saído do ar.

Mas sempre me surpreendo como o brasileiro vota.

Se você perguntar a um espectador do BBB em quem votou no último “paredão”, ou quem foram os vencedores das edições anteriores do programa, aposto que ele saberá dizer. Pergunte agora em quem ele votou para senador ou deputado…

No último “paredão” do programa antes da final, que será realizada amanhã (7/4), foram 58 milhões de votos. Pode-se votar por SMS, pela internet ou por telefone. O custo da ligação é de R$ 0,31 + impostos.

Apenas como exercício, digamos que não houvesse o custo dos impostos, e que os 58 milhões de pessoas votassem ao custo dos R$ 0,31.Chegaríamos à inacreditável soma de quase 18 milhões de reais! Em apenas um ou dois dias…

Quer uma comparação? O Criança Esperança, programa da mesma TV Globo, que existe desde 1986, em parceria com o Unicef e com o apoio maciço de inúmeros artistas de expressão, arrecadou, em 2008, apenas R$ 11,5 milhões. Esse dinheiro será usado para apoiar 73 projetos que beneficiarão 114 mil crianças.

Em quem votamos diz muito sobre quem somos.

Escrito por Jorge Carrano em: Cultura, Digital |
abr
01
2009
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Feliz primeiro de abril

Por Jorge Carrano

Em 1998, a revista Isto é publicou uma lista de grandes lorotas contadas num primeiro de abril.  Vejam quatro dessas pérolas:

1) Uma rádio no Marrocos informou que o Brasil não iria participar da Copa do Mundo porque o dinheiro da seleção seria usado na luta contra um incêndio em Roraima.

2) A minúscula república russa do Djortostão declarou guerra ao Vaticano. Motivo: arrebatar o título de menor Estado da Europa. Para tanto, o Djortostão teria doado seis metros quadrados de seu território a uma república vizinha.  Deu no Moscou Times.

3) Um jornal do Vietnã deu a notícia de que Maradona, então ex-capitão da seleção argentina de futebol, foi anunciado como novo técnico da seleção do Vietnã.

4) O jornal Le Soleil, do Senegal, informou que o presidente americano Bill Clinton, ao deixar o país, levaria os primeiros 50 senegaleses que fossem à embaixada para pedir visto de entrada nos EUA. Centenas de pessoas acreditaram e correram para a embaixada americana…

Olhando algumas notícias recentemente publicadas em nossos jornais, é possível identificar alguns candidatos a um típico “1° de abril”.

Coisas como  “O Governo vai investir integralmente os recursos do PAC” ou  “A crise vai chegar no Brasil como uma marolinha” (essa já é um clássico!). Isso para ficar apenas na esfera do Governo Federal, sem contar as empresas que “não subfaturam produtos importados” ou que “não fazem doações de campanha ilegais” ou que “não poluem o meio ambiente”.

No Brasil, temos 1° de abril quase diariamente. Por isso,  aproveite o dia, amanhã tem mais!

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos |

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