mai
26
2009
1

‘Gap’ de entendimento

Por Luiz Fernando Brandão

Entre Helvécia, distrito no extremo-sul da Bahia — região que concentra um dos bolsões de miséria do nosso país —, e Oslo, a impecável capital da Noruega, locais que visitei no espaço de apenas 15 dias, existe um fosso profundo. Que não é a imensa desigualdade de riqueza, educação, oportunidades e bem-estar social.

É um fosso de desconhecimento, um hiato criado pela incapacidade de se compreender um outro mundo que coexiste neste mundo de nós todos. Um gap que os mais bem-intencionados esforços  de educação, comunicação e engajamento, pelo menos no horizonte visível hoje, são incapazes de preencher.

A elegante senhora que se agacha, compungida e solícita, diante do jovem dependente químico maltrapilho e mendicante na imaculada Karl Johans Gate, a principal avenida de Oslo, terá idéia das condições  em que vivem os milhões de miseráveis que lutam  pela sobrevida nos confins interioranos do norte e nordeste brasileiros ou nas periferias de nossas metrópoles?

As centenas de turistas escandinavos que se comovem e mobilizam diante de enormes painéis exibindo fotos belíssimas de caçadores, mulheres e crianças indígenas amazônicos, nas ruas de Oslo, terão alguma idéia do contexto em que estes nossos povos originais sobrevivem em meio a outros 20 milhões de conterrâneos de todas as origens — européias, negras e asiáticas — que habitam a vasta Amazônia brasileira? Terão eles noção dos desafios de governança de um país de dimensões continentais como o nosso, com quase 200 milhões de habitantes e apenas 200 anos de história nacional, num mundo de economias globalizadas?

Aqui, cabe remeter à questão essencial: nós, os humanos, em nossa trajetória sobre a Terra, continuamos longe de superar o desafio de nossa condição intrínseca, utilitarista quanto aos recursos naturais e leviana quanto às conseqüências de nossos atos e escolhas sobre nosso futuro comum. Enquanto essa pulsão não for domada, disciplinada, pouca esperança restará para as próximas gerações. A culpa e o imediatismo continuarão a prevalecer, mesmo por trás da fachada de ajuda humanitária, de altruísmo dos muito ricos com relação aos muito pobres. Esse quadro só poderá ser superado por novas visões de mundo que conciliem os avanços da ciência e da tecnologia com o entendimento de que somos um único povo, habitante e organicamente parte da Terra, e que só vencendo nossas diferenças poderemos sobreviver.

É uma pena que a superficialidade humana não nos permita usar com propriedade a riqueza de informações online que a era da internet nos oferece. A uma análise mais profunda das razões das nossas diferenças culturais e sociais, parecem preferíveis as conclusões simplistas que  remetem ao ancestral embate entre o bem o mal. Parece mais fácil acreditar em acusações que materializem externamente um grande vilão e  assim expiar nossa responsabilidade por cada abuso socioambiental que ocorre em qualquer canto do planeta. Responsabilidade pela omissão, responsabilidade pelo desinteresse, responsabilidade pela conveniência.

E então assistimos a algo que começa a se configurar como  dumping reputacional de países, empresas e instituições. Um processo em que o hiato de compreensão entre realidades diferentes no planeta é utilizado como alavanca para reforçar percepções simplistas; em que situações complexas que requerem análises e soluções igualmente complexas veem-se reduzidas a uma visão maniqueísta, passando ao largo das infinitas nuances da vida real.

É assim que países do hemisfério norte encontram seus vilões na metade de baixo do planeta, tão distante de seus corações e mentes. Gente preparada e bem informada não raro dá crédito a fontes que nem ao menos se preocupam com a fidedignidade das histórias que propagam sobretudo pela Grande Rede. Por que lhes é tão difícil, por exemplo, perceber a enorme diferença que existe entre empresas que, malgrado suas imperfeições, dilemas e dificuldades, se esforçam por práticas socioambientais corretas, e aquelas inconseqüentes e imediatistas?

Uma hipótese é que, para alguns cidadãos de países mais ricos, seja difícil admitir que interesses específicos de suas próprias economias possam estar por trás de denúncias que acolhem como verdadeiras. Afinal, em muitos casos, o desenvolvimento sustentado de países como o Brasil e o sucesso das nossas empresas podem representar ameaças para suas empresas ou para os empregos de alguns dos seus compatriotas. É melhor acreditar no vilão lá longe.

Mas há também uma parcela de responsabilidade dos governos, empresas e das ONGs de países emergentes, como o Brasil. É preciso um esforço maior – consistente e permanente – de comunicação daqui para o mundo dos ricos, para estabelecer os fatos e desfazer a confusão provocada pelas denúncias falsas, embaladas na defesa de causas nobres e em chavões politicamente corretos.

Uma missão na qual os comunicadores empresariais brasileiros devem se engajar o quanto antes, com seu conhecimento, experiência e redes de relacionamento, a bem do interesse de suas próprias organizações, de seus filhos e netos, do nosso país e do nosso futuro comum.

Luiz Fernando Brandão, comunicador empresarial, jornalista e tradutor, é gerente de comunicação corporativa da Aracruz Celulose. Em paralelo às atividades que desenvolveu em empresas como Shell Brasil e Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, traduziu para o português obras de autores como Edgar Allan Poe, Vladimir Nabokov, Tom Wolfe, Jack London e Flann O’Brien, entre outros.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Sustentabilidade |
mai
19
2009
1

Muros

Por Jorge Carrano

A história registra a construção de muitos muros, como a Grande Muralha da China, com seus quase 7.000 km de extensão (7,5 metros de altura e 3,75 metros de largura). Sua construção começou em 220 a.C, com o objetivo de impedir a entrada de tribos nômades oriundas da Mongólia e da Manchúria.

O de Berlim, chamado de “muro da vergonha” dividiu a Alemanha de 1961 a 1989. Há alguns anos, Israel começou a construção de muros na fronteira da Cisjordânia. Os Estados Unidos, numa tentativa de inibir a entrada de imigrantes,  ergueram um muro na fronteira com o Mexico. Até o Rio de Janeiro entrou na onda, com seus muros destinados a funcionar como “eco-limites”.

Na recente visita do Papa Bento XVI a Israel,  “muros” foram usados como espaço de manifestação de idéias, numa pixação carregada de significados políticos (abaixo).

Mas o que é “o muro”, afinal? Todos os muros nascem da idéia de evitar que os de fora entrem, ou que os de dentro saiam. Separam universos, famílias e economias.

Aqui, nos interessa mais o muro como separador de idéias. A “idéia” de que do outro lado do muro há bárbaros, há pessoas indesejáveis, hábitos contrários aos nossos. E ficamos do lado de cá, nos sentindo “seguros”.

E como têm dois lados,  ajudam a agravar nossa tendência quase natural ao maniqueísmo. Desse lado do muro, tudo bom. Do lado de lá, o que não queremos.  E quem não sabe o que quer? Está “em cima do muro”.

São muitas as formas dos muros em nossa sociedade. Há os muros físicos, como paredes; há barreiras naturais (como um deserto ou uma geleira), há fronteiras, cercas e grades. Mas há outros muros menos aparentes. O carro blindado é um muro móvel.  O visto no passaporte é outro. O elevador de serviço também.

Quando pensamos em muros, geralmente nos vêm imagens de barreiras para conter a movimentação de pessoas. Mas e a movimentação das idéias?

Tendemos a valorizar e acreditar numa imprensa livre, e recebemos as novas tecnologias de comunicação como  elementos que ampliam essa liberdade. Afinal, mesmo “preso” atrás de um muro, um cidadão pode usar a internet ou o celular para registrar um fato ou entrar em contato com quem está “do outro lado”.

Ciente do poder dessas tecnologias, alguns governos tentam (e estão conseguindo) criar muros virtuais, restringindo o acesso a sites, monitorando as comunicações de voz e dados de seus cidadãos.

Não é à toa que os mecanismos de restrição de acesso aos dados instalados nos computadores são chamados de firewall (um “muro corta-fogo”).

Num mundo em que valorizamos cada vez mais a mobilidade - de pessoas, mercadorias e idéias -, é preciso estar atento aos diversos muros que continuam sendo erguidos ao nosso redor.

De todos, o que inibe o acesso à educação é o mais perverso, pois “empareda” a pessoa dentro de si mesma, deixando do lado de fora um mundo imcompreensível e intolerante.

E nem por isso mais seguro.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mai
12
2009
0

Terceirização de imagem

Por Jorge Carrano

Ontem, conversei com um amigo que trabalha numa empresa da qual sou cliente. Comentei do (péssimo) atendimento que recebi quando liguei para o 0800 a fim de tirar uma dúvida. Resposta que recebi do meu amigo: o call center não é da nossa empresa, é terceirizado.

Terceirização de serviços é uma das tendências mais interessantes que as empresas adotaram nas últimas décadas. Ela permite que a companhia possa se concentrar em sua atividade principal, contratando empresas para realizar outras tarefas. Se bem conduzida, a terceirização permite obter ganhos de qualidade e produtividade, e ainda gera economia de recursos (financeiros, humanos etc). De quebra, cria demanda para o surgimento de novos negócios, o que é bom para toda a economia.

Ao fazer isso, no entanto, é preciso muito cuidado. Vamos imaginar duas cenas bem comuns:

Cena 1 – um grande banco, que investe em ações e comunicação para criar a imagem de uma atuação responsável. Ao entrar em uma de suas agências, o cliente sofre de cara um constrangimento, tendo que ficar praticamente nu antes de passar pela porta giratória, pois o guarda “sismou” que aquela velhinha traz, em sua bolsa, uma pistola automática. Já houve casos em que o cliente foi ofendido, e até morto com um tiro disparado por um segurança. Alguém rapidamente dirá: “é de uma empresa terceirizada”.

Cena 2 – você liga para o call center da empresa e, apesar da nova Lei, leva 30 minutos pra ser atendido por uma pessoa completamente desqualificada, que te diz dezenas de vezes “obrigado por aguardar”, abusa dos gerúndios (”vamos estar solicitando”, “iremos estar analisando”…) e, pior, não resolve seu problema.

Pois é, o call center também é “terceirizado”.

Terceirização não é sinônimo de falta de responsabilidade.

Alguém vai se lembrar do nome da empresa de segurança, ou da empresa responsável pelo call center? Claro que não, o cliente vai lembrar é da sua marca.

Ao terceirizar serviços, tome cuidado para não terceirizar junto a imagem de sua empresa, foi o alerta que fiz ao meu amigo.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Marketing |
mai
05
2009
2

Os segredos de Victoria

Por Jorge Carrano

“A Victoria’s Secret envia mais de um milhão de catálogos por dia e o custo desses catálogos não é sexy. São impressos em papel feito a partir de uma das florestas mais ameaçadas do planeta”.

Assim começa o texto de um impactante anúncio publicado no New York Times (veja abaixo), assinado pela ForestEthics, onde uma modelo vestida com roupas da grife segura uma motosserra. O título do anúncio “Victória’s Dirty Secret” (”O Segredo Sujo de Victoria”)  já dá o tom do texto da peça, alertando para o impacto devastador causado no meio ambiente pelas ações de marketing da marca, avaliada em cerca de U$ 6 bilhões.

Depois do anúncio, o vice-presidente da Limited Brands (empresa controladora da Victoria’s Secret) sentou-se à mesa com representantes da ForestEthics, para traçar uma estratégia de minimizar o impacto dos quase 400 milhões de catálogos enviados anualmente pela marca a seus consumidores.

Além da grande escala, a questão envolve ao menos duas perspectivas igualmente importantes.

A primeira é que as empresas não podem mais “esconder” a origem das matérias-primas que utilizam em seus produtos e esforços de marketing. Os consumidores precisam - e têm direito de - saber que por trás daquele lindo catálogo podem estar árvores derrubadas de florestas nativas.

Nesso caso, são derrubados mais de 8 mil metros quadrados por minuto de floresta boreal no Canadá.

Mas é preciso também que os consumidores sejam conscientes de suas escolhas. Somos nós que podemos pressionar as marcas a não enviar catálogos, por exemplo. Assim como há uma crescente conscientização (ainda que incipiente) a respeito do uso de sacolas plásticas nos supermercados e do excesso de embalagens em geral, é preciso estar atento a toda a cadeia de produtos que consumimos diariamente.

Não adianta apenas exigirmos das empresas que sejam responsáveis. Nós, os cidadãos comuns, precisamos ser também mais responsáveis em nossas decisões de consumo.

Aqui está, talvez, nosso mais importante papel.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Sustentabilidade |

Powered by WordPress | Aeros Theme | TheBuckmaker.com