jun
30
2009
0

Duloc e a bomba atômica

Por Jorge Carrano

No filme de animação Shrek, o personagem “Lord Farquhar” era o príncipe de um lugar chamado Duloc, que ele acreditava ser praticamente perfeito. Mas o Lord não podia ser rei. Para isso,  precisaria encontrar uma princesa e casar-se com ela. Sequestra então o “Espelho Mágico” da história da Branca de Neve, e o espelho lhe apresenta três opções de princesa. Ele escolhe uma (Fiona) e a aventura prossegue.

A característica marcante de Lord Farquhar era sua baixa estatura. Um homenzinho que queria ser rei. Na entrada de seu pequeno reino, uma musiquinha anunciava: Duloc is a perfect place!

O igualmente pequeno ditador da Coreia do Norte, Kim Jong Il, parece também ter pretensões reais, só que “a noiva” é uma combinação de militarismo, repressão e censura.  Seu exército hoje possui um contingente superior a 1 milhão de soldados, sendo o quarto maior do mundo (só perde para os EUA, Rússia e China).

A Coreia do Norte é um país sem agricultura ou indústrias relevantes. Durante o século XX foi invadido pelo Japão, bombardeado inúmeras vezes durante a Segunda Guerra Mundial e na posterior Guerra da Coreia.  Apenas nesta última, que durou de 1950 a 1953, o saldo foi de 3,5 milhões de mortos. Coerente com o maniqueísmo característico da Guerra Fria,  o país foi finalmente dividido em dois, na altura no paralelo 38°, sendo o norte alinhado à URSS, e o sul, aos Estados Unidos.

Hoje, é um país considerado perigoso, e o Japão é o que mais teme uma ação militar de Pyongyang. O curioso é que o armistício entre as duas Coreias nunca foi assinado, o que significa que os países continuam “tecnicamente” em guerra.

As duas jornalistas americanas presas - e condenadas a doze anos de trabalhos forçados - no início de junho são a ponta de um obscuro iceberg que o país esconde. Kim Jong Il está sob a mira de observadores de todo o mundo, sobretudo depois da explosão de misseis de longo alcance no mar do Japão.  Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, a Coreia do Norte foi o oitavo país a obter uma bomba nuclear. Os outros sete são Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China, Índia e Paquistão.

A exemplo do que publicamos a respeito da censura na China (leia aqui), a Coreia oferece um cenário tão grave, ou pior, de restrição do acesso de seus cidadãos às fontes externas de informação.

O telefone móvel foi introduzido em 2002, mas dois anos depois seu uso ficou restrito à elite militar. O governo disse que era para “proteger o povo”. Isso criou um enorme mercado negro para celulares na fronteira com a Coreia do Sul.

Atualmente, o regime  controla toda a comunicação de voz via celular, a partir de uma concessão feita, em dezembro de 2008,  à empresa egípcia Orascom Telecom. No release que anunciava o negócio, o presidente da Orascom disse: “não se trata apenas de fornecer serviços móveis 3G; estamos fazendo história em um país que está num processo de abertura e desenvolvimento notáveis”. Então tá.

A internet, como todos os demais meios de comunicação, está também a serviço da propaganda oficial. Implementada em 2000, a rede coreana oferece serviço de e-mail (que é monitorado pelo governo), acesso a apenas alguns sites também pré-definidos e a uma ferramenta de busca para lá de suspeita.

A exemplo de Lord Farquhar, que apregova ser Duloc um lugar especial, Kim Jong Il e seus “websites oficiais” apresentam um país bem diferente do que se vê, de fato.

O site http://www.naenara.kp oferece 9 idiomas, e seus grandes destaques são os “Eventos Especiais” e a agenda de Kim Jong Il.  Aliás, as “obras” do governante estão à venda no site…

Você pode conferir mais em: http://www.naenara.kp/en/book/reading.php

Bem, no fim do Shrek, Lord Farquhar é devorado por um dragão…

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Para cantar:

Welcome to Duloc

Welcome to Duloc such a perfect town
Sure we have some rules planned laid of down
Don’t make wave, stay at line, and we’ll get along fine
Duloc is a perfect place
please keep off of of the grass, shine your shoes,
Wash your face
Duloc is, Duloc is, Duloc is a perfect place!!!

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital | Tags:
jun
23
2009
1

Cajamarca moderna

Por Jorge Carrano

Em 16 de novembro de 1532, o espanhol Franciso Pizarro, com cerca de 160 soldados, dominou o imperador inca Atahualpa, cujo exército era superior a 80 mil homens. O confronto, ocorrido na cidade de Cajamarca, atualmente no Peru, mostra bem a evolução das guerras entre os homens, e como a tecnologia sempre foi decisiva para seu resultado.  Naquele dia, em poucas horas, os 160 espanhóis mataram cerca de 7.000 incas. Estes não conheciam as armas de fogo ou os cavalos.

Para lutar com uma espada, você precisava ficar muito próximo de seu inimigo. A arma de fogo viabilizou a luta (e a morte) à distância. Os aviões jogam bombas do céu, e os mísseis modernos ampliaram esta distância de ataque para milhares de quilômetros.

Mas as guerras do futuro serão travadas sem a preocupação de onde os inimigos se encontram. As armas também são outras. Silenciosas, mas igualmente letais.

A arena dos conflitos modernos não é mais uma pequena praça como a de Cajamarca, mas a internet.

O maior ataque já registrado a uma rede de computadores ocorreu em 2007, na Estônia. A ex-república soviética é um país com grande penetração da internet e oferta de serviços on-line. Você pode votar pela internet e, com um celular, pode pagar até o estacionamento. O ataque cibernético deixou o país paralisado, sem acesso aos sites de bancos, órgãos do governo e imprensa e serviços de emergência, para mencionar os principais. Foi um ataque do tipo DDoS (distributed denial of service), ou “ataque distribuído de negação de serviço”. (*)

Os ataques começaram ao final de abril de 2007, após a retirada de uma estátua conhecida como “Soldado de Bronze”, símbolo da expulsão dos nazistas pelo Exército Vermelho durante a Segunda Guerra. Moscou protestou contra a retirada do monumento, e o governo da Estônia acusou os russos de orquestrarem a ação, já que grande parte dos ataques veio de servidores localizados na Rússia.

No mesmo ano, a Scotland Yard  impediu um ataque planejado pela rede terrorista Al-Qeada. Tendo como alvo as instalações da Telehouse Europe, um dos maiores data centers da Europa, a ação causaria a interrupção dos serviços de diversas instituições financeiras e bancárias da Grã-Bretanha.

Basta olhar ao nosso redor para perceber o quanto somos dependentes da tecnologia da informação e esse fato torna a questão uma preocupação crescente.

É interessante lembrarmos que a internet surgiu justamente pelo medo da guerra. Ao final dos anos 1960, o mundo vivia uma acelerada corrida armamentista entre os EUA e a União Soviética. Com medo de que um ataque nuclear soviético pudesse destruir dados estratégicos e informações valiosas, o governo americano instituiu uma agência, conhecida como ARPA - Advanced Research and Projects Agency - cujo objetivo era conectar em rede os computadores, sobretudo dos departamentos de pesquisa e inteligência. Descentralizar a informação. Assim nasceu, em 1969, a ARPANET, precursora da internet, cujo uso comercial só foi iniciado em 1993. Nesse período, seu caráter exclusivamente militar foi substituído pelo uso acadêmico, permitindo a troca de informações entre instituições de pesquisa e universidades.

Nos atentados terroristas aos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, a internet permitiu a milhões de pessoas acompanharem o desenrolar daqueles tristes fatos. A web perdeu apenas para a Televisão como meio de maior audiência. Diversos sites de agências de notícias ficaram tão sobrecarregados pelo enorme número de visitas que seus servidores pararam de funcionar. O mesmo efeito ocorrido na Estônia.

Temos, portanto, um fenômeno de faces opostas na relação da internet com a guerra. A rápida expansão da rede e de outras tecnologias de comunicação tem sido apontada como um dos mais importantes fenômenos da comunicação já ocorridos. Tamanha é a capacidade de mobilização possível com as novas tecnologias, que temos acompanhado várias tentativas de censura.

Enquanto alguns sites e redes de relacionamento são usados como “praças virtuais” para denunciar regimes totalitários e buscar liberdade de expressão, outros instigam o ódio racial e religioso, e ensinam a fazer bombas.

Nesse momento circula pela internet e outras redes, como o Twitter, uma campanha de protesto contra o resultado das eleições no Irã, com dicas e instruções para “derrubar” os principais sites do governo.

Nos conturbados dias em que vivemos, a internet, pensada originalmente para um cenário de guerra, torna-se uma ferramenta para lutar pela paz e a liberdade.

Mas, ao mesmo tempo, pode estar se tornando a nova arena onde as guerras do amanhã serão travadas.

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(*) Estes ataques caracterizam-se por um envio indiscriminado, em grandes quantidades, de requisições a um mesmo computador, em geral o servidor de uma empresa ou instituição. Esse ataque simultâneo paralisa a máquina, que não consegue atender a todos os pedidos (requisições) de páginas, tornando-se indisponível.  É mais ou menos o que acontece quando os telefones ficam congestionados nas noites de Natal ou Ano Novo.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
16
2009
0

Censura.gov

Por Jorge Carrano

São crescentes as preocupações com a liberdade de expressão. Temos acompanhado as iniciativas de alguns governos para restringir o acesso de seus cidadãos às informações contrárias aos seus interesses.

Até pouco tempo, a internet era o último refúgio para aqueles cujas vozes haviam sido caladas pela força da censura ou das armas. Infelizmente, a web tornou-se também um lugar perigoso para certas ideias.

Pela velocidade com que as informações trafegam, pode parecer que circulam livremente, mas isso não é verdade. No mundo atual ainda vigoram regimes anacrônicos e duas notícias veiculadas na semana passada ilustram o quanto a liberdade de expressão ainda é frágil.

Na Coréia do Norte, duas jornalistas americanas foram presas e condenadas a 12 anos de trabalhos forçados. Então você pensa, seriam espiãs, trabalhando disfarçadas para a CNN, Fox, ABC ou outra grande emissora americana? Não, elas trabalham para um canal de TV via web, chamado Current TV.  Você nunca ouviu falar?  Pois é, não me parece (ainda) uma ameaça ao país que tem o quarto maior contingente militar do mundo…

A outra notícia informa que, após a morte de Omar Bongo, “presidente” do Gabão por 42 anos (só perdia para o Fidel Castro…), o governo resolveu fechar as fronteiras, o aeroporto da capital e … o acesso à internet!

A esses exemplos, podemos somar diversas medidas já adotadas pelo presidente da Venezuela ou pelo governo chinês, para ficar nos mais conhecidos. Em todos esses casos, a censura aos meios de comunicação e aos temas considerados “tabus” atestam que as liberdades de informação e expressão estão distantes.

Vamos falar um pouco mais da China, onde 49 “blogueiros” estão hoje presos pelo Governo.

foto: Jeff Widener/AP

foto: Jeff Widener/AP

A verdadeira muralha

Quando a China foi escolhida como sede das Olimpíadas de 2008, houve grande apreensão quanto à liberdade de trabalho que os jornalistas de todo o mundo teriam. Pequim assegurou que não haveria bloqueio aos sinais de TV ou à internet.

No entanto, o acesso foi “liberado” apenas para versões em inglês de alguns sites, como o YouTube, Wikipedia e Google.  As versões em chinês desses sites permaneceram inacessíveis.

O país mais populoso do mundo tem hoje 40.000 trabalhadores — funcionários do Estado — cuja tarefa é monitorar o tráfego na internet. Diversos termos são proibidos e expressões associadas ao massacre da Praça da Paz Celestial, a independência do Tibet, entre outros, não apresentam resultados de busca. Sites inteiros são simplesmente inacessíveis. Para tentar burlar alguns desses filtros, os internautas passaram a usar símbolos - como aspas, travessões e barras - mas recentemente o governo aperfeiçoou seus filtros e consegue bloquear também essas tentativas.

Manifestação em Hong Kong - foto: Kin Cheung/AP

Manifestação em Hong Kong - foto: Kin Cheung/AP

De olho no imenso mercado chinês, gigantes como Google e Yahoo se renderam à censura. Alegam que não podem operar no país e desobedecer suas regras. A atitude - julgue cada um como quiser - rendeu, até agora, a prisão de algumas pessoas, inclusive jornalistas. O Skype foi a última vítima, e agora toda sua comunicação é monitorada por Pequim.

Mas a censura por lá não se restringe aos temas políticos. Quando houve a denúncia de leite em pó contaminado por melamina na fábrica de Sanlu, em setembro de 2008, um jornalista da revistas Nanfang Zhoumo (algo como “Semanário do Sul”) disse que os fatos já eram de seu conhecimento - e das autoridades - desde o início de julho daquele ano (portanto, quase 3 meses antes), mas que havia sido proibido de divulgá-los. Consequência da censura: 300 mil crianças contaminadas, com pelo menos seis mortes confirmadas.

Tudo isso para não “contaminar” a imagem do país durante as Olimpíadas.

A censura é a verdadeira muralha da China.

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Mais informações no site dos Repórteres Sem Fronteiras: http://www.rsf.org/

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
jun
09
2009
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O blog chapa branca

Por Jorge Carrano

Numa entrevista ao jornalista Roberto D’Avila, no ano passado, o colega Ricardo Noblat falou bastante de seu blog. O “Blog do Noblat” foi um dos pioneiros no Brasil, e hoje é um dos mais importantes do país, tendo milhares de visitantes por mês que acompanham as notícias “postadas” pelo jornalista. Na entrevista, o dono do blog comentou: “É como ter seu próprio jornal”.

O “weblog”, que surgiu como um diário pessoal para registrar fatos cotidianos e de importância duvidosa, tornou-se uma poderosa ferramenta de comunicação para jornalistas e empresas. Afinal, é como “ter o próprio jornal”.

Um jornalista ter seu próprio canal é interessante. Pode, por exemplo, elaborar textos relativos a assuntos que não cobre normalmente.  Um reporter que trabalhe na editoria de Economia mas que goste e conheça jazz, por exemplo, pode ter seu próprio blog, exercitando simultaneamente sua paixão pela música e o hábito de escrever. Ou pode aprofundar temas para além do que é possível por restrições editoriais.

Uma empresa ter um blog é também interessante. Em primeiro lugar, porque o blog tem uma dinâmica, característica da própria tecnologia, que permite a participação dos leitores de maneira muito fácil. Além disso, se para publicar conteúdo num website é preciso conhecer, no mínimo, um pouco de HTML, para publicar num blog basta saber ler as instruções que as próprias ferramentas (Wordpress ou Blogger, por exemplo) fornecem ao usuário.

Ao criar um blog, uma empresa ganha ainda uma “cara”, já que alguns deles (especialmente no exterior) são assinados pelos próprios presidentes das companhias. Trata-se de uma comunicação menos institucional, menos “formal”, do que a usualmente praticada nos websites.

Nos últimos dias, temos lido sobre a criação de um blog corporativo pela Petrobras, chamado “Fatos e Dados” Sem dúvida, as empresas modernas não podem mais ignorar nenhum meio de comunicação. Para cada faixa de público há o formato e o veículo ideal. Cada um com sua linguagem própria, é claro.

Entretanto, o que poderia, ou deveria, ser mais um canal de comunicação com seus diversos stakeholders tornou-se motivo de preocupação por parte de alguns veículos, que têm criticado a postura da empresa. Alegam que a Petrobras estaria divulgando as questões feitas pelos jornalistas, num claro rompimento com a prática de sigilo entre fonte e veículo. Ao menos até que as notícias sejam publicadas.

Se uma empresa cria um blog, ou qualquer outro canal, para ampliar as informações prestadas à sociedade, é excelente. Mas é preciso abertura na relação com a Imprensa, pois ela é fundamental na democracia. A liberdade de apurar, editar e veicular informações de interesse público precisa ser assegurada aos jornalistas que, espera-se, irão sempre ouvir também outros interessados naquele assunto.

Uma postura contrária a esse princípio pode trazer um risco para a  própria companhia: se um repórter sente-se intimidado com a ação da empresa, ou não quer que sua abordagem para um determinado tema seja de conhecimento prévio de todos,  pode acabar publicando a matéria sem dar à empresa a chance de contribuir para a discussão, ou dar sua versão para o fato.

Como já disse o jornalista Ricardo Kotscho, primeiro assessor de imprensa do presidente Lula, “tudo o que o governo não quer que seja publicado, é notícia. O resto é propaganda”.

Não importa o veículo.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
02
2009
1

O joio e o filtro

Por Jorge Carrano

“Jornalismo é separar o joio do trigo. E publicar o joio.”

A frase do escritor Mark Twain me vem à cabeça ao ler sobre a programação proposta pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para “comemorar” seus 10 anos de governo. A primeira edição de seu programa de rádio “Alô Presidente” foi ao ar em 1999, logo após ter assumido o poder. O programa também é exibido pela TV estatal.

A ideia era fazer uma transmissão praticamente ininterrupta por quatro dias — de 28 a 31 de maio. Não conheço precedentes de uma ação tão longa. Nem mesmo Fidel Castro, famoso por seus discursos intermináveis e seus 50 anos de poder — que parece inspirar certos presidentes próximos —, imaginou ocupar uma programação por tanto tempo.

Isso não é jornalismo, nem informação e, certamente, não é entretenimento. Enquanto isso, o presidente ameaça fechar o canal Globovisión, acusado de exibir conteúdos que incitam a população contra seu governo.

O Hugo Chávez é o joio movido a petróleo.

O uso dos meios de comunicação dessa forma me fez lembrar ainda outro triste personagem do século passado: Joseph Goebbels. O chefe da propaganda nazista sabia do poder da mídia no convencimento das massas. Em 18 de agosto de 1933 (muito antes, portanto, do início da Segunda Guerra Mundial), Goebbels fez um discurso (1), do qual destaco dois trechos:

“O rádio será para o século XX o que a imprensa foi para o século XIX.  Com uma pequena mudança, podemos adaptar a frase de Napoleão (2) para a nossa época, falando do rádio como o oitavo poder. Sua descoberta e aplicação são verdadeiramente revolucionárias em termos de significado para a vida comunitária contemporânea. As gerações futuras poderão concluir que o rádio teve um impacto intelectual e espiritual tão grande sobre as massas como a imprensa, antes do início da Reforma”.

Se alguém duvida da importância do rádio para os nazistas, o próprio Goebbels explica, em seguida:

“Não teria sido possível para nós tomar o poder ou utilizá-lo nas formas que temos feito sem o rádio e o avião. Não é exagero dizer que a revolução alemã, pelo menos na forma que teve, teria sido impossível sem o avião e o rádio.”

Sem dúvida, os regimes totalitários precisam dos meios de comunicação (e perseguem seu controle). Mas as democracias também precisam deles. Só que a capacidade exclusiva que desses meios em falar para a sociedade está sendo pulverizada. Se antes era possível calar um veículo mandando fechar a redação do jornal ou lacrar as emissoras de TV, hoje isso é mais difícil.

Com as tecnologias atuais, a TV pode ser transmitida praticamente de qualquer lugar, veiculada inclusive pela Internet. E o jornal cuja redação foi fechada pode transformar-se em poucas horas num blog aberto. Daí a perigosa tendência de governos não-democráticos de tentarem controlar a comunicação de dados, voz e o acesso de cidadãos à Internet, como faz a China.

Eessas e outras alternativas proporcionadas pela tecnologia não significam que as sociedades devam assistir passivamente a ações que atentem contra o direito à informação. Isso porque os meios de massa ainda são fundamentais, sobretudo nas áreas rurais ou em regiões urbanas mais pobres, onde a Internet ainda não se viabilizou. E mesmo nas grandes cidades, onde boa parte da população não pode pagar por serviços de TV por assinatura e Internet em banda larga.

A democracia representativa, o estado de direito e as liberdades fundamentais, por mais que tenham falhas, devem ser preservados, quaisquer que sejam os ocupantes dos palácios presidenciais.

A imprensa, não importa se considerada o sétimo, oitavo ou milésimo poder, é um filtro imprescindível desse processo de separação do joio do trigo.

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(1) Por uma triste coincidência, o discurso “The radio as the eight great power” aconteceu também na abertura da décima edição do German Radio Exhibition. Para ler o discurso na íntegra: http://www.calvin.edu/academic/cas/gpa/goeb56.htm
(2) Napoleão referia-se à imprensa (escrita) como o 7° poder.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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