jul
28
2009
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The Big Amazon

Por Jorge Carrano

Você vai a uma livraria, escolhe o livro que deseja, paga e leva para casa. No dia seguinte, ao acordar, descobre que seu exemplar não está mais na estante. Pior, descobre que, durante a noite, um funcionário da livraria entrou na sua casa, com cuidado para não acordá-lo, e pegou o livro de volta. Deixou um bilhete dizendo que vai devolver o dinheiro…

Parece surreal, mas foi o que aconteceu com os clientes da Amazon que compraram os livros 1984 e Animal Farm (A Revolução dos Bichos, em português), de George Orwell. Ironia do destino, foi justamente em 1984 que o autor criou a figura do Big Brother, que tudo via e controlava. Uma sociedade onde a privacidade não existia, e até pensar diferente era “crimideia”, o crime ideológico, o pensamento ilegal.

A MobileReference,  editora digital que colocou os livros na Amazon, não tinha direitos de comercialização sobre a obra. O livro de Orwell só será de dominio público nos EUA em 2044, embora já seja assim em outros países, segundo informa o New York Times.

Cada edição foi adquirida por US$ 0,99 por internautas que possuem o Kindle, o leitor de e-books fabricado e vendido pela própria Amazon. Pesquisando na internet, encontramos informações de que a empresa já fez isso antes com livros de Harry Potter, ao que tudo indica, pelos mesmos motivos.

Atualmente, discute-se a cloud computing, modelo pela qual os programas (softwares) deixariam de ser “produtos” rodando nas máquinas dos usuários e passariam a ser “serviços”, rodando diretamente dos servidores da empresa que desenvolve o programa, modelo já adotado pelo Google. O mesmo princípio oferece espaço quase ilimitado para armazenar seus arquivos na rede. A própria Amazon, aliás, “garante” o backup dos arquivos baixados para o Kindle.

A ação da Amazon vai deixar muita gente desconfiada, e com razão. A empresa cometeu dois erros: primeiro, colocou à venda um produto que não poderia. É como se o dono da livraria colocasse CDs piratas, ou cópias de livros feitas no fundo do quintal. É responsabilidade da loja garantir que os produtos que coloca à venda sejam legítimos e de acordo com a lei. Não é problema do usuário.

O segundo erro, ainda pior, foi invadir os aparelhos de seus clientes, que jamais imaginariam tamanha quebra de privacidade, e pegar de volta um produto pelo qual eles pagaram.

Embora recente, a discussão a respeito das vantagens do livro eletrônico já divide muito as opiniões.

A atitude da Amazon pode fazer muita gente desistir da nova tecnologia,  e continuar achando mais garantido dormir com seu velho exemplar de papel na estante.

Mas a grande questão é saber até que ponto, num mundo cada vez mais cercado por câmeras, com sistemas que capturam e processam nossos dados a todo instante, temos como assegurar um minimo de privacidade.

The Big Google is watching you…

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jul
21
2009
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Ford ao contrário

Por Jorge Carrano

Henry Ford pode ser considerado o pai da indústria moderna por ser o criador da linha de montagem, um processo implementado em 1913, e que rapidamente ultrapassou os limites da fabricação de automóveis, sendo empregado em diversos outros segmentos.

De lá para cá, o mundo cresceu, e milhões de produtos são fabricados a cada dia nos quatro cantos do planeta. E, se o automóvel foi o produto símbolo do século XX, podemos dizer que os celulares e computadores são os grandes ícones do século que vivemos, pelo menos por enquanto.

Linha de montagem da Ford - 1913

Linha de montagem da Ford - 1913

Mas o mundo também tem hoje preocupações ambientais que não tinha há 100 anos. E a produção e descarte dos modernos produtos eletrônicos têm sido uma preocupação crescente.

Para produzir um único computador, por exemplo, são consumidas 1,8 tonelada (isso mesmo, 1.800 kg!) de matérias-primas.  Apenas em combustíveis fósseis são gastos cerca de 10 vezes o peso do equipamento. Para comparação, cada automóvel consome entre 1 e 2 vezes seu próprio peso em combustíveis fósseis.

Numa iniciativa para reduzir o uso de metais pesados na fabricação de eletrônicos, entrou em vigor na Europa, há cerca de 3 anos, a norma RoHS - Restriction of Hazardous Substances, ou “Restrição de Substâncias Perigosas”. Por esta regra, todos os equipamentos eletrônicos vendidos na Europa devem ser isentos (ou ter uma quantidade muito pequena) de metais como chumbo, cádmio, mercúrio, cromo, entre outros.

Mas o problema não acaba no volume de insumos necessários para a produção. Outro problema, tão grande, é o que fazer com os milhões desses produtos descartados diariamente. Só nos Estados Unidos, são jogados no lixo mais de 400 mil aparelhos celulares …. por dia!

Ironicamente, é justamente o grande volume de produtos descartados que tem viabilizado algumas iniciativas de reciclagem bem interessantes. Esses equipamentos contém diversos metais valiosos. Como não existe tecnologia de reciclagem no Brasil, as baterias de celular, por exemplo,  são enviadas para a Bélgica e Suécia. Nessas baterias, são encontrados lítio, níquel, cobalto e cádmio. Nas placas dos computadores, temos metais ainda mais valiosos, como ouro, prata, alumínio, cobre e ferro. E há outros menos conhecidos, como gálio, índio e paládio. E não são quantidades desprezíveis. Há mais ouro em uma tonelada de placas do que em 17 toneladas de minério bruto…

Além da sensação de minimizar o impacto de seu consumo sobre a natureza, os consumidores podem ainda lucrar com seu próprio lixo eletrônico. O site inglês Simply Drop recebe celulares, tocadores MP3, câmeras e até cartuchos vazios.  Um  aparelho  N95,  da Nokia,  chega  a  valer  mais  100  libras,  algo como R$ 320,00. 

As empresas que desenvolveram processos e tecnologias de reciclagem desse lixo tecnológico estão ganhando muito dinheiro.

São, na verdade, “linhas de desmontagem”, onde tudo é separado, e cada componente usado em um processo diferente, de forma que todo esse material possa voltar a fazer parte de uma nova  linha de montagem.

O ciclo se repete e alguns resultados, no mínimo curiosos, podem ser obtidos. Veja a imagem abaixo.

Bolsa feita a partir do teclado

Keybag: feita a partir de peças do teclado

Trata-se da “Keybag”, uma bolsa feita a partir da desmontagem de um teclado de computador. O nome é uma brincadeira com “keyboard” (teclado) e “bag” (bolsa).  Uma criação do designer português João Sabino, a peça custa 130 euros (preta ou branca) ou 145 euros (rosa ou vermelha).  Gostou? Pode comprar a sua aqui.

Assim, você fica na moda com a tendência mais importante do momento: produzir e, sobretudo,  consumir de maneira sustentável.

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Fontes:

Inovacaotecnologica.com.br

Simply Drop

Olhar Digital

João Sabino

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
jul
14
2009
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Reis e florestas

Por Jorge Carrano

A Inglaterra comemorou, no dia 24 de junho, os 500 anos da coroação de Henrique VIII. O conhecido monarca foi responsável pelo rompimento das relações da  Inglaterra com a Igreja Católica, fundando, ele mesmo, a Igreja Anglicana.

Henrique VIII viveu de 1491 a 1547, e Filipe II, da Espanha, de 1527 a 1598. Embora contemporâneos, poucos monarcas poderiam ser mais diferentes.

As inúmeras tentativas de Henrique VIII de ter um herdeiro homem renderam-lhe muitas tramas e seis casamentos. De seu primeiro matrimônio, com Catarina de Aragão, nasceu Maria, a única descendente a atingir a idade adulta. Esta se tornaria rainha da Inglaterra, como Maria I, e se casaria justamente com Filipe II…

O rei espanhol, em guerra contra a Inglaterra, reuniu uma poderosa esquadra de 130 navios, com quase 30 mil homens, chamada “Armada Invencível”. Na época, era também rei de Portugal, cuja frota tinha alguns dos melhores galeões de guerra do mundo.

Além das divergências de ordem religiosa, há outra interessante, até então desconhecida.

Henrique VIII queria que a construção dos navios de sua frota fosse feita sem prejudicar as florestas do país. Criou, inclusive, uma lei de  proteção das florestas, em 1543. Esta previa que, para cada árvore derrubada, outras 12 deveriam ser plantadas. Nada mais moderno.

Filipe II, por sua vez, ficou conhecido como um destruidor de florestas. Diz-se que teria afirmado que queria todas as florestas de Espanha derrubadas para transformá-las na maior esquadra do mundo.

Passados 500 anos, outro membro da família real inglesa parece manter acesa a preocupação ambiental de seu ancestral.

O atual herdeiro do trono inglês, o príncipe Charles, divulgou recentemente seu nível pessoal de emissão de CO2 e seus esforços para reduzir sua “pegada ecológica” (footprint).  Entre as ações, está a substituição de aquecedores movidos a óleo por outros que queimam resíduos de madeira em suas residências. Converteu também seus carros (um Jaguar e um Land Rover) para que passem a utilizar somente combustível feito de óleo de cozinha usado.

Causa nobre, de verdade.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Sustentabilidade |
jul
08
2009
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Virtualizações

Por Jorge Carrano

Há alguns anos, você precisava ir ao banco para fazer tudo: solicitar (e depois ir pegar) talões de cheques, pagar contas, depositar ou sacar dinheiro, aplicar, solicitar cartões etc. O dinheiro sempre teve um caráter um tanto “virtual”, desde que cédulas passaram a ser uma referência desse valor, substituíndo as moedas de ouro e prata que, de fato, eram feitas ouro e prata.

Mal percebemos o quanto nosso mundo tem se virtualizado. Passagens aéreas, por exemplo. Hoje, você faz toda a transação de compra da passagem - da escolha de voo, pagamento, emissão de cartão de embarque e até mesmo escolha de assento - pela internet.  Um dia, os aeroportos poderão ter um terço dos funcionários que têm hoje, pois  talvez sejam desnecessários até para fazer o despacho de bagagens. Você mesmo coloca a mala num raio X, em seguida uma balança pesa a mala e emite um ticket que você cola na bagagem, ficando com a outra parte, como recibo.

Cartão de aniversário. Você ainda vai à papelaria, compra o cartão, escreve, coloca no envelope, cola o selo e envia pelo correio? Cartas, então, são quase objeto de museu. E o e-mail, esse senhor de mais de 40 anos, está também com os dias contados. Tudo agora tem que caber nos 140 caracteres de um SMS, ou do Twitter.

Os jornais e revistas digitais já fazem parte de nosso cotidiano. Resta saber o que o futuro reserva aos livros, alvo de discussões recentes, que estão também sendo transportados para os novos leitores digitais (leia mais aqui).

Acredite, a própria matéria de que somos feitos pode se virtualizar.

Os cientistas do Projeto de Realidade Sintética da Carnegie-Mellon University, nos EUA, trabalham numa nova tecnologia centrada no controle e manipulação de objetos tridimensionais (3D). Em outras palavras, uma espécie de “matéria programável”. Parece ficção científica? Os telefones celulares também já foram, um dia.

Um exemplo dessa tecnologia é conhecido como Claytronics, onde objetos 3D são formados por minúsculos “robôs”, chamados catoms (de claytronic atom). Esses catoms poderiam ser reordenados, para compor qualquer objeto.

Os pesquisadores têm ainda muitos desafios a superar antes que essa tecnologia seja aplicável. O maior deles é, possivelmente, como transferir a energia necessária para que esses catoms possam se realinhar e tranformar, por exemplo, uma caneta num jarro de flores…

Para ter uma imagem do que pode ser essa tecnologia, tente lembrar dos episódios de Jornada nas Estrelas, quando os tripulantes eram “desmaterializados” no teletransportador, e “materializados” de novo em outro lugar. Ou daquele robô, que parecia feito de metal líquido, no filme O Exterminador do Futuro 3. Ou então veja um vídeo com o conceito aqui.

Os cientistas envolvidos no projeto acreditam que será possível até mesmo “modelar” pessoas. Seriam inúmeras as aplicações dessa tecnologia na medicina, nas artes, mas também na guerra, e serão igualmente complexas as implicações de caráter ético.

Virtualizaram-se, por fim, também as relações. Digitalizam-se as pessoas. Dos avatares de um Second Life, passando pelas inúmeras formas de redes sociais (Orkut, Twitter etc), as relações entre as pessoas  se converteram em códigos binários.

No mundo moderno, você pode ter milhares de “amigos”, e nunca vê-los. Pode até ter “seguidores”, como uma espécie de “Antonio Conselheiro Digital” pregando por aí inúmeras futilidades.

O aperto de mão trafega em ondas pelo ar, e a conversa com os amigos no botequim está ficando obsoleta como um telex.

Mas sempre pode piorar. Talvez um dia você esteja no botequim tomando um chope com um amigo, mas ele não estará lá, de fato. Será apenas mais um resultado da virtualização. Aí, grite na hora:

– Garçom, traga mais um!

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos |

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