The Big Amazon
Por Jorge Carrano
Você vai a uma livraria, escolhe o livro que deseja, paga e leva para casa. No dia seguinte, ao acordar, descobre que seu exemplar não está mais na estante. Pior, descobre que, durante a noite, um funcionário da livraria entrou na sua casa, com cuidado para não acordá-lo, e pegou o livro de volta. Deixou um bilhete dizendo que vai devolver o dinheiro…
Parece surreal, mas foi o que aconteceu com os clientes da Amazon que compraram os livros 1984 e Animal Farm (A Revolução dos Bichos, em português), de George Orwell. Ironia do destino, foi justamente em 1984 que o autor criou a figura do Big Brother, que tudo via e controlava. Uma sociedade onde a privacidade não existia, e até pensar diferente era “crimideia”, o crime ideológico, o pensamento ilegal.
A MobileReference, editora digital que colocou os livros na Amazon, não tinha direitos de comercialização sobre a obra. O livro de Orwell só será de dominio público nos EUA em 2044, embora já seja assim em outros países, segundo informa o New York Times.
Cada edição foi adquirida por US$ 0,99 por internautas que possuem o Kindle, o leitor de e-books fabricado e vendido pela própria Amazon. Pesquisando na internet, encontramos informações de que a empresa já fez isso antes com livros de Harry Potter, ao que tudo indica, pelos mesmos motivos.
Atualmente, discute-se a cloud computing, modelo pela qual os programas (softwares) deixariam de ser “produtos” rodando nas máquinas dos usuários e passariam a ser “serviços”, rodando diretamente dos servidores da empresa que desenvolve o programa, modelo já adotado pelo Google. O mesmo princípio oferece espaço quase ilimitado para armazenar seus arquivos na rede. A própria Amazon, aliás, “garante” o backup dos arquivos baixados para o Kindle.
A ação da Amazon vai deixar muita gente desconfiada, e com razão. A empresa cometeu dois erros: primeiro, colocou à venda um produto que não poderia. É como se o dono da livraria colocasse CDs piratas, ou cópias de livros feitas no fundo do quintal. É responsabilidade da loja garantir que os produtos que coloca à venda sejam legítimos e de acordo com a lei. Não é problema do usuário.
O segundo erro, ainda pior, foi invadir os aparelhos de seus clientes, que jamais imaginariam tamanha quebra de privacidade, e pegar de volta um produto pelo qual eles pagaram.
Embora recente, a discussão a respeito das vantagens do livro eletrônico já divide muito as opiniões.
A atitude da Amazon pode fazer muita gente desistir da nova tecnologia, e continuar achando mais garantido dormir com seu velho exemplar de papel na estante.
Mas a grande questão é saber até que ponto, num mundo cada vez mais cercado por câmeras, com sistemas que capturam e processam nossos dados a todo instante, temos como assegurar um minimo de privacidade.
The Big Google is watching you…



