ago
31
2009
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Sorria, sabemos o que você vai comprar

Por Jorge Carrano

Na Califórnia, um homem condenado por dirigir embriagado, ao invés de ser preso, paga multa e é obrigado a usar duas tornozeleiras. A primeira é um GPS, que permite à polícia localizá-lo a qualquer momento. A segunda, um sofisticado detector de presença de álcool em sua pele. Ao menor sinal de uma cervejinha na transpiração, a polícia é avisada.

Os paulistanos estão, mais que outros brasileiros, expostos a uma vigilância de quase 24h por câmeras espalhadas em todos os lugares. Além dos equipamentos (com e sem aquele aviso idiota “sorria, você está sendo filmado”) já esperados em portarias, supermercados, garagens e lojas de maior porte, recentemente esses delatores eletrônicos, cada vez menores, invadiram elevadores, consultórios, o pequeno varejo e, claro, a rua. Já entramos na fase de muitas empresas colocarem câmeras em seus escritórios, para monitorar o que fazem seus empregados.

Quando você entra no site da Amazon, já recebe indicações de produtos baseados no seu “perfil”. E você se pergunta, “como é que esses caras sabem disso?”

Na escola dos meus filhos, estão implantando um sistema que permitirá aos pais acompanhar, por meio de webcams, parte das aulas. Ainda não decidiram quantas ou quais, mas é questão de tempo.

No Japão, um software desenvolvido pela empresa Omrom foi implementado em 15 estações de trem de Tóquio e “mede” o tamanho dos sorrisos dos funcionários. Por ele, os “fiscais” avaliam se o empregado está dando “atenção” e um bom atendimento aos usuários. Sorriso tímido? O chefe vai reclamar. Os responsáveis pelo programa afirmam que, em breve, poderá ser usado pelas lojas para que possam avaliar – na hora – a reação dos clientes aos produtos da vitrine.

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E que tal medir a reação a uma mensagem publicitária?  No filme Minority Report, os cartazes publicitários “falam” com as pessoas conforme elas passam por eles. Emitem mensagens comerciais conforme o perfil de usuário, que pode ser transmitido a partir de um microchip embutido no seu celular, no seu tênis, ou até em você mesmo.

Não se convenceu ainda?

“A capacidade de as empresas coletarem e analisarem grande quantidade de informações sobre consumidores individuais aparece na mesma época em que psicólogos e economistas fazem progressos em uma disciplina chamada neuromarketing. Os neuropublicitários usam varreduras do cérebro para encontrar desencadeadores de processos mentais que determinam o que compramos.

Em um artigo memorável, de 2007, “Indicadores Neurais de Compras”, publicado pela Revista Neuron, um grupo de pesquisadores do MIT, Stanford e Carnegie Mellon afirmaram ser capazes de usar máquinas de ressonância magnética para acompanhar as atividade cerebral dos consumidores quando eles estão avaliando produtos e preços na tela de seus computadores. Ao identificar os circuitos que se “iluminam” nos diferentes estágios do processo de compra, os pesquisadores descobriram que conseguiam prever se a pessoa compraria o produto ou não.” (*)

Portanto, é melhor sorrir, porque você não está apenas sendo filmado, mas, em breve, sendo também previsível.

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(*) Trecho do livro A Grande Mudança, de Nicholas Carr, Editora Landscape, pág. 189.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
ago
11
2009
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O verdadeiro caminho das índias

Por Jorge Carrano

Quando estava na escola, aprendi que o “caminho para as índias” era um objetivo comercial dos europeus, que assim teriam acesso às riquezas – sedas, especiarias etc – do oriente. Passados tantos anos, ontem me vi, distraido, com a televisão ligada na novela das oito da TV Globo.

Não sei se a audiência é boa, mas o folhetim é ruim. Costumes tão distantes da nossa realidade, roupas, comidas, linguagem, tudo parece muito caricato.  Mas de que Índia estamos falando?

Possivelmente, existem diversas Índias. No país real, as mulheres, a exemplo do que ocorre na China ou em outras culturas orientais, são consideradas seres inferiores. Os abortos são tão comuns quando o feto é menina, que o ultrassom é proibido. Além disso, ter uma filha significa ter que pagar o dote quando ela se casar, provavelmente num casamento arranjado de acordo com os interesses da família. E aí, ela passa a “pertencer” à família do marido. Moderno, não?

A sujeira e a miséria dominam boa parte da paisagem. O rio Ganges, considerado sagrado, não fica nada a dever aos nossos valões temperados de esgotos in natura. E que tal o trânsito caótico, ou o sistema de castas, que institucionaliza o preconceito?

O filme “Quem quer ser um milionário” (Slumdog Millionaire), vencedor de oito Oscar em 2008 (*), traz em seus cenários e trama um pouco do que é, de fato, a Índia.

Não venham falar de “superioridade espiritual”, porque se isso houvesse lá, as pessoas não viveriam nessas condições. Tampouco são mais humanos ou generosos.

Um bom exemplo do processo produtivo na Índia circulou há algum tempo na Internet: uma apresentação em Power Point  feita por “Schutz”, mostrando a fábrica da Catwalk. Trata-se de uma grife  conhecida, com mais de 130 lojas no país. Os produtos sofisticados da vitrine escondem um processo produtivo extremamente cruel, com jornadas de trabalho de 16 horas diárias e trabalho infantil.  Alguns operários moram no próprio galpão da fábrica. Não é muito diferente de condições encontradas em partes da China, África, ou mesmo no interior do Brasil.

Os portugueses do século XV encontraram o caminho das índias.

Resta agora ao país encontrar seu próprio caminho.

As imagens falam por si.

Loja da Catwalk:

Agora, a fábrica….

(*) O filme Slumdog Millionaire venceu os Oscar de melhor filme, diretor, roteiro adaptado, fotografia, mixagem de som, edição, trilha sonora original e canção original.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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