Sorria, sabemos o que você vai comprar
Por Jorge Carrano
Na Califórnia, um homem condenado por dirigir embriagado, ao invés de ser preso, paga multa e é obrigado a usar duas tornozeleiras. A primeira é um GPS, que permite à polícia localizá-lo a qualquer momento. A segunda, um sofisticado detector de presença de álcool em sua pele. Ao menor sinal de uma cervejinha na transpiração, a polícia é avisada.
Os paulistanos estão, mais que outros brasileiros, expostos a uma vigilância de quase 24h por câmeras espalhadas em todos os lugares. Além dos equipamentos (com e sem aquele aviso idiota “sorria, você está sendo filmado”) já esperados em portarias, supermercados, garagens e lojas de maior porte, recentemente esses delatores eletrônicos, cada vez menores, invadiram elevadores, consultórios, o pequeno varejo e, claro, a rua. Já entramos na fase de muitas empresas colocarem câmeras em seus escritórios, para monitorar o que fazem seus empregados.
Quando você entra no site da Amazon, já recebe indicações de produtos baseados no seu “perfil”. E você se pergunta, “como é que esses caras sabem disso?”
Na escola dos meus filhos, estão implantando um sistema que permitirá aos pais acompanhar, por meio de webcams, parte das aulas. Ainda não decidiram quantas ou quais, mas é questão de tempo.
No Japão, um software desenvolvido pela empresa Omrom foi implementado em 15 estações de trem de Tóquio e “mede” o tamanho dos sorrisos dos funcionários. Por ele, os “fiscais” avaliam se o empregado está dando “atenção” e um bom atendimento aos usuários. Sorriso tímido? O chefe vai reclamar. Os responsáveis pelo programa afirmam que, em breve, poderá ser usado pelas lojas para que possam avaliar – na hora – a reação dos clientes aos produtos da vitrine.
E que tal medir a reação a uma mensagem publicitária? No filme Minority Report, os cartazes publicitários “falam” com as pessoas conforme elas passam por eles. Emitem mensagens comerciais conforme o perfil de usuário, que pode ser transmitido a partir de um microchip embutido no seu celular, no seu tênis, ou até em você mesmo.
Não se convenceu ainda?
“A capacidade de as empresas coletarem e analisarem grande quantidade de informações sobre consumidores individuais aparece na mesma época em que psicólogos e economistas fazem progressos em uma disciplina chamada neuromarketing. Os neuropublicitários usam varreduras do cérebro para encontrar desencadeadores de processos mentais que determinam o que compramos.
Em um artigo memorável, de 2007, “Indicadores Neurais de Compras”, publicado pela Revista Neuron, um grupo de pesquisadores do MIT, Stanford e Carnegie Mellon afirmaram ser capazes de usar máquinas de ressonância magnética para acompanhar as atividade cerebral dos consumidores quando eles estão avaliando produtos e preços na tela de seus computadores. Ao identificar os circuitos que se “iluminam” nos diferentes estágios do processo de compra, os pesquisadores descobriram que conseguiam prever se a pessoa compraria o produto ou não.” (*)
Portanto, é melhor sorrir, porque você não está apenas sendo filmado, mas, em breve, sendo também previsível.
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(*) Trecho do livro A Grande Mudança, de Nicholas Carr, Editora Landscape, pág. 189.







