Liberdade e educação
Por Jorge Carrano
Tenho usado muito este espaço para falar do perigo crescente de cerceamento da liberdade de expressão em diversos países, distantes como a China e Coreia do Norte, ou vizinhos como a Venezuela. Recentemente, foi a vez da Argentina, cujo Senado aprovou uma nova lei dos serviços audivisuais, que impede a formação de redes (privadas) nacionais de TV. As exceções são, claro, o próprio o governo, sindicatos e a Igreja Católica.
Sem imprensa livre, é impossível saber o que, de fato, acontece num país. E isso tem tudo a ver com a educação de nossos filhos.
Em recente entrevista à Revista Veja, a cubana Yoani Sánchez, autora do blog Generación Y, disse:
“A questão principal hoje não é a taxa de alfabetização, e sim o que vamos ler depois que aprendemos”. E segue: “A primeira vez que vi imagens da queda do Muro de Berlin foi em 1999″ - ou seja, dez anos depois do fato.
Bom exemplo de como a falta de liberdade impede a disseminação de educação e cultura.
As informações independentes sobre Cuba só vieram a público com o uso da internet, que consegue burlar as censuras do governo cubano (ao menos para os que estão fora da ilha), ainda composto em boa parte por saudosistas de Sierra Maestra.
Entretanto, a frase da blogueira traz uma relação importante entre a questão da liberdade de expresão e o uso de tecnologia na educação.
Vamos de Cuba para a Índia.
Sugata Mitra é professor de Tecnologia Educacional da Escola de Educação, Comunicação e Ciências da Linguagem da Universidade Newcastle, no Reino Unido, entre outras atividades.
Em 1999 - no mesmo ano em que Yoani viu pela primeira vez imagens do que acontecia em Berlim - o professor teve uma ideia. Queria provar que crianças poderiam aprender sozinhas a usar computadores e internet, sem nenhum tipo de treinamento formal. Criou então o projeto Hole in the Wall (Buraco na Parede).
Simples assim: um computador foi colocado em um buraco na parede de uma casa na favela de Kalkaji, em Nova Deli, Índia. Do lado de fora da parede, voltados para a rua, apenas o monitor e um tipo de mouse. E ficaram lá, filmando como as crianças interagiam com o equipamento. Rapidamente, elas descobriram como usar o computador, apesar de não terem qualquer educação ou informação prévia, e tampouco falarem inglês.
Os resultados são surpreendentes. Veja no site do professor, em http://sugatam.wikispaces.com/.
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é que os computadores - que, por questões financeiras, começam a ser adotados nas escolas com mais recursos - têm potencial de causar um impacto muito maior justamente naquelas mais limitadas, com menos recursos ou dinheiro. Quem já tem bons professores, bibliotecas, laboratórios e outras opções a seu dispor pode obter ganhos com o uso do computador. Mas o estudo prova que as escolas “pobres” ganham muito mais, em parte porque seus alunos são sedentos por informações, recursos, oportunidades.
Não acho que um computador vá substituir (sozinho) um bom professor, pelo menos enquanto o nosso modelo de ensino for o atual.
Mas é inegável que o computador conectado à internet tem prestado um importante serviço a favor da liberdade de expressão, e pode ainda fazer muito para atenuar as enormes deficiências de nossas escolas.
Importante percebermos, entretanto, que liberdade e educação são como irmãs siamesas. Sem liberdade, a educação não pode progredir e, sem educação, não haverá liberdade alguma.
