out
27
2009
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Liberdade e educação

Por Jorge Carrano

Tenho usado muito este espaço para falar do perigo crescente de cerceamento da liberdade de expressão em diversos países,  distantes como a China e Coreia do Norte, ou vizinhos como a Venezuela. Recentemente, foi a vez da Argentina, cujo Senado aprovou uma nova lei dos serviços audivisuais, que impede a formação de redes (privadas) nacionais de TV. As exceções são, claro, o próprio o governo, sindicatos e a Igreja Católica.

Sem imprensa livre, é impossível saber o que, de fato, acontece num país. E isso tem tudo a ver com a educação de nossos filhos.

Em recente entrevista à Revista Veja, a cubana Yoani Sánchez, autora do blog Generación Y, disse:

“A questão principal hoje não é a taxa de alfabetização, e sim o que vamos ler depois que aprendemos”. E segue: “A primeira vez que vi imagens da queda do Muro de Berlin foi em 1999″ - ou seja, dez anos depois do fato.

Bom exemplo de como a falta de liberdade impede a disseminação de educação e cultura.

As informações independentes sobre Cuba só vieram a público com o uso da internet, que consegue burlar as censuras do governo cubano (ao menos para os que estão fora da ilha), ainda composto em boa parte por saudosistas de Sierra Maestra.

Entretanto, a frase da blogueira traz uma relação importante entre a questão da liberdade de expresão e o uso de tecnologia na educação.

Vamos de Cuba para a Índia.

Sugata Mitra é professor de Tecnologia Educacional da Escola de Educação, Comunicação e Ciências da Linguagem da Universidade Newcastle, no Reino Unido, entre outras atividades.

Em 1999 - no mesmo ano em que Yoani viu pela primeira vez imagens do que acontecia em Berlim -  o professor teve uma ideia. Queria provar que crianças poderiam aprender sozinhas a usar computadores e internet, sem nenhum tipo de treinamento formal.  Criou então o projeto Hole in the Wall (Buraco na Parede).

Simples assim: um computador foi colocado em um buraco na parede de uma casa na favela de Kalkaji, em Nova Deli, Índia. Do lado de fora da parede, voltados para a rua, apenas o monitor e um tipo de mouse. E ficaram lá, filmando como as crianças interagiam com o equipamento. Rapidamente, elas descobriram como usar o computador, apesar de não terem qualquer educação ou informação prévia, e tampouco falarem inglês.

Os resultados são surpreendentes. Veja no site do professor, em http://sugatam.wikispaces.com/.

Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é que os computadores - que, por questões financeiras, começam a ser adotados nas escolas com mais recursos -  têm potencial de causar um impacto muito maior justamente naquelas mais limitadas, com menos recursos ou dinheiro.  Quem já tem bons professores, bibliotecas, laboratórios e outras opções a seu dispor pode obter ganhos com o uso do computador. Mas o estudo prova que as escolas “pobres” ganham muito mais, em parte porque seus alunos são sedentos por informações, recursos, oportunidades.

Não acho que um computador vá substituir (sozinho) um bom professor, pelo menos enquanto o nosso modelo de ensino for o atual.

Mas é inegável que o computador conectado à internet tem prestado um importante serviço a favor da liberdade de expressão, e pode ainda fazer muito para atenuar as enormes deficiências de nossas escolas.

Importante percebermos, entretanto, que liberdade e educação são como irmãs siamesas. Sem liberdade, a educação não pode progredir e, sem educação, não haverá liberdade alguma.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
out
20
2009
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Bandas e mentalidades largas

Por Jorge Carrano

Esta semana, a Revista Veja publicou uma matéria dando conta de que, na Finlândia, o governo aprovou uma lei que torna o acesso à internet banda larga um direito de todo cidadão. Conexões de 1 Megabit por segundo são comuns tanto lá quanto em outros países da Europa, mas a meta finlandesa é ambiciosa.

Até 2015, todo o país deverá ter acesso a conexões de 100 Megabits por segundo. Para ter uma ideia, um filme inteiro em DVD levaria menos de 1 minuto para ser baixado.

Embora não tenhamos aqui uma legislação que defina claramente o que é considerado “banda larga”, a UIT - União Internacional das Telecomunicações considera esse acesso como superior a 2 Megabits por segundo.

Aqui no Brasil, por enquanto, a maiorida das conexões são do tipo “banda-devagar-quase-parando”.

Tudo bem que a Finlândia tem pouco mais de 5 milhões de habitantes, confortavelmente espalhados numa área de cerca de 339 mil km quadrados, equivalente ao Estado de Goiás.

Não importa. O mais interessante não é o aspecto tecnológico.

É a visão do governo de que o acesso à internet de alta velocidade é um recurso fundamental para a educação de seus cidadãos e uma ferramenta que permite aumentar a produtividade das empresas, dos profissionais e do próprio governo.

É fator imprescindível de competitividade para o mundo cada vez mais conectado da “economia do conhecimento”.

É perceber a tecnologia na dimensão exata de seu papel: contribuir para melhorar a vida das pessoas.

É a banda larga como resultado de uma mentalidade larga.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
out
15
2009
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Não sou daqui

Por Jorge Carrano

Um dia, um espanhol perguntou a um indígena como se chamava o lugar onde estavam. O índio respondeu “Yucatán”, dando nome ao lugar. Mas o que ele queria dizer é “não sou daqui”.

Quando conquistadores ingleses chegaram a Austrália, viram pela primeira vez um estranho animal, que pulava em duas patas, e carregava seus filhotes numa bolsa na barriga. Perguntaram a um aborígene como se chamava o tal animal. Resposta: Kan Ghu Ru, que virou “kangaroo”, em inglês. Na verdade, os indígenas queriam dizer “não te entendo”.

No livro Shogun, de James Clavell, o inglês John Blackthorne é o capitão de um navio holandês que naufraga na costa do Japão, e o personagem passa boa parte da trama aprendendo (inclusive a admirar) sobre a língua e a cultura japonesa.

Se fosse hoje, talvez os conquistadores digitassem “kan ghu ru” no Google, ou procurassem o lugar no Google Earth, se não tivessem um GPS à mão. E talvez o capitão inglês usasse seu celular para pedir resgate.

Apesar de todos os recursos de comunicação à nossa disposição, temos grande dificuldade de nos entendermos. Essa falta de entendimento vai desde a sensação de ser estrangeiro, numa cidade como Nova York ou Tóquio,  passa pela dificuldade de sobreviver (fazer a leitura correta) no ambiente corporativo ou entender gerações diferentes, até chegar às guerras de fato, onde a falta de entendimento, depois de virar intolerância, acaba em armas.

Estamos cada vez mais conectados uns aos outros, mas ouvimos apenas nossa própria voz. Nos relacionamos - seja na vida real ou nas redes sociais - com aqueles que têm as mesmas opiniões, os mesmos hábitos, os mesmos gostos (às vezes, duvidosos).

Atravessamos o mundo para comer no mesmo McDonald’s da nossa esquina.

Parece-me um desperdício. Sim, pois antes das novas tecnologias de comunicação existirem, só havia uma maneira de conhecer um lugar ou seus habitantes: ir até lá.

Essas tecnologias hoje nos permitem sair para uma viagem já com muitas providências tomadas,  fazer passeios virtuais antes mesmo de embarcar, conversar com visitantes que foram lá antes de nós, ou com as pessoas que lá moram. Saber o que se come lá, e que roupa levar.

São informações úteis, mas de nada adiantam se estivermos dispostos a ouvir apenas as vozes que dizem o que já sabemos, nos tornando refratários a tudo que é diferente.

Manter a curiosidade e a capacidade de se surpreender com as diferenças - de culinária, língua, arquitetura, música, vestuário etc -  é uma parte interessante de nossa jornada. Mesmo que a gente se confunda com os lugares, ou batize bichos com nomes estranhos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
out
01
2009
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É o esporte, estúpido

Por Jorge Carrano

Ao se aproximar mais uma Copa do Mundo de Futebol, voltaremos a ouvir que os jogadores profissionais, sobretudo da Seleção Brasileira, só se interessam pelo dinheiro. Os saudosistas da Copa de 1970 dizem que aquele sim, era um time que “jogava bola”. Os atuais craques só estariam interessados em contratos milionários.

Antes privilégio do futebol, a crítica agora cabe a outras modalidades. O escândalo do acidente do piloto Nelsinho Piquet no Grande Prêmio de Cingapura de 2008 é um bom exemplo. O piloto brasileiro aceitou fazer parte da farsa que garantiu a vitória do companheiro da equipe Renault, Fernando Alonso.

Só por isso já merecia uma punição. Mas o “pai-campeão” só obrigou o filho a denunciar a farsa à FIA - Federação Internacional de Automobilismo (da sigla em inglês) - porque Nelsinho foi demitido da escuderia. Ou seja, se não fosse por interesse próprio ($), pai e filho teriam ficado quietos. Numa entrevista ao jornalista Reginaldo Leme, da TV Globo, o tricampeão afirmou que não havia feito antes “para não prejudicar o Nelsinho”.

O que é isso, senão uma preocupação exclusiva com o dinheiro? Esse é um fato dos dias que vivemos: o que vale é a grana.

Mas ficamos indignados por ser esse um comportamento que julgamos incompatível com o esporte. Afinal, ensinamos valores importantes aos nossos filhos por meio da prática esportiva: lealdade, superação de desafios, espírito de equipe, disciplina e fair play, para ficar nos principais. Colocamos nossos filhos para aprender judô, dançar balé, jogar bola, nadar ou qualquer outro esporte baseados na premissa de que essas atividades são formadoras de caráter.

É mais triste ainda perceber que essa indignação não nos atinge no ambiente da política, onde estamos perigosamente nos acostumando a aceitar qualquer coisa, ou mesmo no mundo empresarial. São comuns casos de profissionais, com os quais convivemos diariamente, cuja única preocupação é a própria carreira, pensando muito mais no próximo emprego do que no atual.  Ou de empresas que enganam seus consumidores e recorrem a todos os tipos de prática para deixar seus balanços mais azuis.

Em 1992,o consultor James Carville disse uma frase durante a campanha presidencial dos EUA, que entrou para a história: “É a economia, estúpido”.

Estúpido seremos nós se só acreditarmos nisso.  Os corruptos -  estejam eles na política, no escritório ao lado ou nas arenas do esporte - precisam ser banidos, punidos, esquecidos.

É um esporte saudável cultivar a indignação e a ética, ainda que soe saudosismo.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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