fev
23
2010
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Jornalismo on-line: em busca do tempo abolido

Por Jorge Carrano

O relato de um acontecimento no tempo sempre foi um desafio para o homem. Desde os tempos da tradição oral até o advento da imprensa — cujo registro oficial indica o ano de 1455, quando Gutenberg imprimiu sua primeira versão da Bíblia — a humanidade sempre lidou com a perda das informações e a falta de fidelidade aos fatos, causada por métodos rudimentares de registro e transmissão de nossa história.

Com a evolução dos meios de comunicação, e uma vez superada a questão do suporte físico para a informação — no caso, o jornal impresso em papel — o fator velocidade tornou-se um novo elemento na busca por conquistar leitores.

Levar ao público informações verídicas e completas sobre determinado acontecimento pouco depois da sua ocorrência sempre foi, portanto, um desafio para jornalistas desde o nascimento da mídia impressa — e depois com o rádio e a televisão — até os dias de hoje. Por isso, o jornalismo é uma profissão muito próxima do erro, pois são inúmeras as variantes e circunstâncias que envolvem uma reportagem.

A chegada da internet colocou mais pressão nessa equação temporal acontecimento-relato-leitura. Tornou mais ágil, mas também mais frágil a cobertura da imprensa.

A narração pelos meios eletrônicos se dá no que se convencionou chamar de “tempo real”, que nada mais é do que o fato sendo narrado enquanto se desenvolve.

A tecnologia fez assim aquilo que parecia impossível: reduzir drasticamente o tempo entre um fato e seu relato. Mas é incapaz, por si, de garantir a qualidade do relato.

Com a disseminação da internet, nasceram opções de leitura virtual que concorrem com o produto impresso gerado pelas grandes máquinas rotativas que levavam uma noite inteira formando os jornais que chegariam às bancas logo cedo. Hoje, esperar pouco mais de 12 horas para tomar ciência dos fatos ou até mesmo aguardar o telejornal da noite parece-nos anacrônico. Esperar 12 minutos ou 12 segundos parece mais atual.

Mas a tecnologia a serviço do jornalismo trouxe outras particularidades. Se por um lado ela nos aproxima dos fatos no tempo, nos distancia deles na qualidade das informações relatadas. Ou seja, o relato no dito “tempo real” pode até ser preciso, mas é incompleto porque não consegue abranger circunstâncias, fatos correlatos, detalhes ocultos na ação. São indicações e hipóteses relacionadas ao fato que precisariam (ou deveriam) ser aferidas e analisadas. É justamente este tempo que antes os jornalistas dispunham para elaborar a reportagem que desapareceu junto com as máquinas rotativas.

Na verdade, aquele tempo entre a ocorrência do fato e sua publicação, apesar de determinado por restrições de produção industrial dos meios de comunicação da época, era um elemento que dava aos jornalistas condições para apurar, consolidar e escrever (em bom português) uma boa matéria.

Embora seja um benefício, a velocidade on-line tornou-se  perigosa porque passou a ser a principal preocupação do esforço jornalístico. O produto, não podemos nos esquecer, não é a velocidade, mas a qualidade da informação.

Mas aí vem a pergunta: não será possível fazer bom jornalismo no meio digital? Será que as informações publicadas pelos sites de jornais, pelas agências de notícias na internet e pelos milhões de blogs  estão condenadas a serem uma espécie de fast-food do jornalismo? Uma espécie de Big Mac, que sai em um minuto, mas com picles demais e pouca carne?

Os detratores de plantão dirão (sempre dizem o mesmo) que “a leitura na tela do computador é ruim”  e que “há muito lixo na internet” e que a qualidade do jornalismo on-line (coloquemos aí também os blogs) é ruim. Ainda que tudo isso seja verdade, não podemos nos esquecer de outros fatores nesta equação: primeiro que o meio on-line não substitui (para quem gosta) a leitura de um bom jornal ou revista. A capacidade analítica e prazer de ler um bom texto impresso ainda resistem. Em segundo lugar,  é preciso aproveitar o que cada meio de comunicação tem a oferecer de bom em comparação com os demais. No caso dos meios eletrônicos, a portabilidade é uma vantagem fundamental.

Os meios on-line permitem que uma matéria seja imensamente enriquecida  a partir da inclusão, por exemplo, de links para sites que aprofundem a informação, ou de imagens e dados complementares que podem ser acessados ou não, a critério do leitor. O que, aliás, permite maior isenção e equanimidade, importantes premissas da atividade jornalística.

Quanto à qualidade do que é veiculado na Web, esta é proporcional às demais produções jornalísticas, como de resto de qualquer outra produção intelectual humana — literatura, cinema, teatro — onde a parte joio é sempre muito maior que a parte trigo.

Para que o jornalismo na internet amadureça e se torne cada vez mais a opção preferencial para os leitores é preciso aprender a usar o tempo abolido pela tecnologia, e retomar em parte o cuidado das antigas redações.

Os meios on-line ganharão mais adeptos. Os jornalistas que atuam neles, mais respeito. E a boa notícia, mais espaço, ainda que virtual.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
fev
02
2010
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Vivendo mais

Por Jorge Carrano

Os avanços da medicina e do saneamento básico estão entre os principais responsáveis pelo aumento da longevidade dos seres humanos. Ironicamente, as empresas estão vivendo menos. Será que isso é parte do mesmo fenômeno?

De acordo com o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro subiu de 67 anos em 1991, para 72,5 anos em 2007. Pode parecer pouco, se comparado a alguns países como o Japão, mas vale lembrar que em 1950 a expectativa de quem nascia por aqui era de apenas 46 anos…

Segundo o consultor holandês Arie De Geus,  que já foi presidente da Shell, em entrevista publicada pelo Valor Econômico em 7/11/2008, as empresas estão vivendo menos. Parte disso se deve ao imediatismo das decisões que visam apenas retorno para os acionistas. As ações que realmente garantem longevidade das empresas, como  compromisso com seus clientes, atuação sustentável, equilíbrio (e bom senso) financeiro, qualidade dos produtos, entre outros, estão cedendo espaço para a necessidade do “resultado trimestral”.

Voltemos aos homens. Há alguns anos, quando um jovem começava sua trajetória profissional em uma empresa, em boa parte dos casos sua expectativa era construir uma carreira e aposentar-se ali mesmo. Hoje, essa perspectiva não existe. E pior, não faz sequer sentido para os jovens. Para a geração que agora chega ao mercado, as coisas são mais “descartáveis”. Não apenas os objetos.

Se você pode viver com boa saúde até 70 ou 80 anos, é natural que acabe por desenvolver muitas atividades diferentes ao longo da vida. São comuns casos de pessoas que já tiveram algumas carreiras distintas, às vezes bem diferentes, como medicina e direito.

Se somos capazes de nos renovar, por que isso não acontece com as empresas? Por que a maioria delas morre com poucos anos ou décadas de vida?

Porque, para viver mais, é preciso alguns sacrifícios. Fazer dieta e exercícios físicos, por exemplo, são comprovadamente hábitos que garantem qualidade de vida melhor. E a chave da questão está na palavra “hábito”.  Muitas empresas se habituaram a obter receitas financeiras em detrimento dos ganhos com a produção e venda de bons produtos.

Mas qual seria uma possivel receita de longevidade das empresas? Em primeiro lugar,  pensar na saúde de seus colaboradores  e do planeta.  E cuidar também da sua própria saúde financeira, claro.  Os “exercícios físicos”, por sua vez, poderiam começar pelos próprios executivos, normalmente sedentários, que precisam sair de seus escritórios refrigerados e ir até os consumidores, em busca de compreender suas necessidades e, a partir daí, estabelecer uma relação mais duradoura.

As causas da longevidade dos homens e das empresas são as mesmas: saúde, equilíbrio e trabalho.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Sustentabilidade |

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