mar
30
2010
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Livro digital, leitores analógicos

Por Jorge Carrano

Acabo de encerrar a leitura de dois livros, praticamente do mesmo tamanho (cerca de 480 págs cada), um feito na edição em papel, e outro no Kindle, o leitor digital da Amazon. Ao fazer duas leituras assim, no espaço de 12 dias, pude comparar melhor as vantages e desvantagens do aparelho. Vamos a elas:

Vantagens:

1. Velocidade: comprar o livro é muito rápido. De fato, leva menos de um minuto (depois de escolhido o título), entre pagar e receber o download do arquivo. Ou seja, se você, de repente, ficou preso num aeroporto, ou teve um compromisso cancelado de útima hora, pode comprar um livro, revista ou jornal e ocupar o tempo.

2. Frete: não tem. Clique, download e pronto, começa a ler.

3. Dicionário: o ótimo dicionário em inglês já instalado no aparelho é um conforto. Basta posicionar o cursor antes da palavra, e instantaneamente seu significado aparece no rodapé.

4. Notas e bookmarks: muita gente comenta que gosta de rabiscar o livro, escrever notas, marcar parágrafos. Isso também é possível no Kindle, com a vantagem de que você visualiza todas as suas notas numa tela, e clica na que deseja ler.

5. Voz: o aparelho tem um recurso (chamado “Text-to-Speech”) que lê o texto para você, em alguns casos oferecendo a opção de voz masculina ou feminina. E você pode, ainda, controlar a velocidade da leitura. E a “página” muda automaticamente.

6. Preço dos livros: a versão Kindle é sempre mais barata que a versão impressa.

7. Conforto: um livro, tenha ele 50 ou 800 páginas tem o mesmo “peso” nas suas mãos. Livros muito grossos, para quem tem o costume de ler na cama, por exemplo, são desconfortáveis. O Kindle você segura com apenas uma mão, e pode mudar de página com um clique. Como o botão “next page” está dos dois lados do aparelho (na versão menor), qualquer mão serve para avançar no texto.

Ainda um item de conforto, a fonte do texto pode ser regulada para até 6 tamanhos diferentes. Ou seja, se você esquecer os óculos de leitura, basta aumentar o corpo da letra. Veja abaixo:

Desvantagens:

1. Preço: a versão mais simples, nos EUA, ainda custa US$ 259. A DX, mais robusta, US$ 489.

2. Energia: a bateria dura muito, mas um dia acaba. Então, se você não tiver uma tomada ou um computador onde possa espetar o cabo USB para carregá-lo, adeus leitura.

3. Socialização: o livro pode ser emprestado, dado, dedicado. O arquivo no Kindle não pode ser compartilhado nem mesmo com outro Kindle do mesmo dono! Se eu quiser que minha mulher leia um livro que eu comprei, ou ela terá que ler no meu Kindle, ou comprar novamente o livro para ler em seu próprio aparelho.

4. Fragilidade: como todo aparelho eletrônico, pode ser danificado se cair no chão. Com o livro de papel, isso não acontece.

5. Aspecto ambiental: os livros em papel são feitos a partir de florestas plantadas para esse fim. São, portanto, um recurso renovável. Depois de lidos, podem ser doados para bibliotecas ou escolas. Em último caso, podem ainda ser reciclados. Já os aparelhos eletrônicos, por sua vez, consomem grandes quantidades de metais, água e energia para sua produção. E seu descarte ainda é um desafio para a sociedade.

6. Nossa resistência: temos uma natural resistência às mudanças, sobretudo quando impactam um hábito tão arraigado e presente, como o da leitura de livros. Somos, ainda, basicamente mecânicos e analógicos, num mundo cada vez mais digital.

Em resumo, o aparelhinho tem, sim, características interessantes. Mas como já escrevemos outras vezes aqui mesmo, a discussão em torno de sua adoção está equivocada.

Não se trata do maniqueísmo de saber se ele (ou qualquer outro leitor digital) acabará com os livros.  A exemplo do que já aconteceu muitas vezes na História, as tecnologias conviverão por muitos anos.

O livro, feito de papel, está conosco há mais de 500 anos. Faz parte do nosso processo educativo e da nossa cultura.

A questão é saber se, daqui a 500 anos, existirão livros, sejam de papel ou digitais.  Do jeito que as coisas caminham, é bem possível que não haja nem leitores.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mar
23
2010
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O recall

Por Jorge Carrano

Um dia, o telefone toca na sua casa. Do outro lado da linha, uma voz gentil, calma e fria confirma seu nome e endereço, se apresentando como representante da empresa NewturEx. O assunto é grave:

- Estou ligando para agendar sua visita ao nosso laboratório para procedimento de recall.
- Recall? De que? - pergunta você, meio desconfiado.
- Bem, o recall é do seu fígado, aquele que o senhor “renovou” a partir de células-tronco, há 11 meses, protocolo número AXS2361-H6.
- Mas como assim, recall do fígado? Já ouvi falar de recall de carro, de celular, de televisão, mas de fígado?
- Pois é, meu senhor, o fato é que essa tecnologia é muito promissora, muito moderna, tem dado resultados incríveis, mas ainda não está totalmente consolidada.
- Como assim, vocês me venderam um serviço que ainda não estava pronto?
- Sabe como é, a concorrência hoje em dia é global. Só para o senhor ter uma ideia, tem uma empresa chinesa, nossa concorrente, que está oferecendo um pacote de fígado, coração, rim direito e ainda dá uma lipoaspiração e implante de cabelo pelo preço que cobramos só para revitalizar um fígado! E ainda temos que parcelar o tratamento em pelo menos 10 vezes, sem juros! Com o mercado desse jeito, não podemos investir tanto em testes com pacientes.
- Então, vocês simplesmente formulam a técnica e começam a vender, assim imediatamente?
- Pois é, mas não é só culpa nossa!
- Como não?
- As pessoas ouvem falar desse negócio de célula-tronco, implantes, revitalização de órgãos, criogenia e já fazem fila para conseguir o tratamento. E o que querem, que a gente se recuse a fazer o procedimento?
- Mas não seria isso o correto, já que há riscos envolvidos?
- Pode até ser, mas aqui entre nós, os acionistas não iam gostar nada disso…
- Mas, um momento, quem é mais importante, o paciente, que é o cliente de vocês, ou o acionista?
- O senhor quer mesmo que eu responda essa pergunta?…
- Não, não precisa… olha aí na agenda quando pode ser feito esse recall. Dá pra ser na segunda-feira?

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mar
16
2010
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Previsão do tempo

“A televisão não dará certo. As pessoas terão que ficar olhando para sua tela e a família americana não tem tempo para isso”

Assim publicou o The New York Times, em 18 de abril de 1939, após a apresentação ao público do modelo de aparelho de televisão.

O NYT errou feio, pois a televisão tornou-se “o” meio de comunicação dos EUA. O estereótipo do americano sentado num grande sofá,  com um controle remoto e um pote de sorvete, ou uma garrafa de cerveja, ou pipoca, ou tudo isso,  está  presente em inúmeros filmes e seriados de TV.

O curioso, no entanto, é que, setenta anos depois, a internet contribuiu para tornar real a frase do jornal.

Na verdade, a família americana não tem mesmo tempo de ver TV, a começar pelo fato de que o próprio conceito de família não é mais o mesmo. Além das mulheres terem ido para o mercado de trabalho, as famílias hoje são compostas muitas vezes por casais homossexuais, ou por casais onde filhos de relacionamentos anteriores vivem juntos, ou por casais que optaram por não ter filhos.

Mas a noção de tempo talvez seja o fator principal. Num mundo onde o instantâneo é a regra, um formato onde você fica por horas, e passivamente, assistindo a um programa, parece incompatível com nossas expectativas. As pessoas querem estar “conectadas”, fazendo algo o tempo todo, às vezes mais de uma coisa ao mesmo tempo, e de preferência a caminho de outro lugar.

A internet, celulares, redes sociais e outras formas de relacionamento e conexão tomaram o pouco tempo que restava para a TV. Claro, ainda é um meio de massa como nenhum outro. Eventos de proporções globais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas são assistidos por alguns bilhões de habitantes. Só a TV é capaz disso, ao menos por enquanto.

O Rádio levou 38 anos para atingir 50 milhões de usuários. A TV levou 13 anos para chegar à mesma marca.  A internet, apenas 4 anos. Está tudo ficando mais rápido mesmo.

Setenta anos depois da publicação daquela notícia,  a lição que fica é que é perda de tempo tentar adivinhar como novas tecnologias podem ou não mudar nossa vida.  Devemos apenas estar preparados  para quando esse momento chegar.  A única certeza é que ele virá.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos |
mar
09
2010
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Publicidade a favor da vida

Por Jorge Carrano

Frequentemente acusada de incentivar apenas o consumo, muitas vezes irresponsável, a verdade é que a propaganda é uma poderosa ferramenta educativa. A criatividade dos publicitários, quando usada a favor da causa certa, pode contribuir, e muito, para importantes mudanças de hábito.

Um exemplo dessa capacidade está no comercial produzido pela ONG inglesa Sussex Safer Roads Partnership, mostrando, com muita criatividade e quase nenhum “efeito especial”, a importância de usar o cinto de segurança.

Mais de dois milhões de visualizações no YouTube. Clique para assistir.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
mar
03
2010
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Via Appia digital

Por Jorge Carrano

Em 312 a.C, os romanos começaram a construção da Via Appia, uma estrada de pedra com cerca de 300 km de extensão, que ligava Roma à cidade de Cápia. Seu nome era uma homenagem ao político Ápio Cláudio.

A partir dessa estrada, muitas outras surgiram, contribuindo para a manutenção das conquistas romanas. Com caminhos  pavimentados, era muito mais fácil mover as legiões do exército, sendo também importante fator para a expansão do comércio. A origem da expressão “todos os caminhos levam à Roma”, nada mais é do que a constatação de uma verdade histórica.

Num certo modo, a internet tornou-se a Via Appia do nosso tempo, pois permite que ideias, produtos e serviços trafeguem de um lado a outro do planeta em segundos. Igualmente, representou uma impressionante força a favor das transações comerciais.

Mas há uma diferença fundamental. Não há um ponto de partida (”Roma”) ou de chegada. Todas as estradas virtuais se conectam, simultaneamente, a muitas outras. Chegam à Roma, mas também a praticamente qualquer outro lugar do planeta. Aqui, “todos os caminhos levam à outros caminhos”.

Se as estradas romanas tinham como principal objetivo assegurar o poder, a internet tem como principal característica a resistência ao poder.

Essa espécie de Via Appia digital tem sido usada para fugir da censura, emitir opiniões ou divulgar fatos que seriam, de outro modo, sufocados por regimes pouco democráticos, alguns deles bem perto de nós.

Ironicamente, a facilidade de locomoção (aliada a fatores internos) criada pelos romanos contribuiu para a própria decadência do Império, que os historiadores assinalam no calendário de 476 d.C.

Precisamos tomar cuidado para que o mesmo não aconteça com a internet, tendo em mente a importância de que esta estrada digital ajude a preservar certos valores fundamentais, como a liberdade de expressão, o livre trânsito de ideias.

É indispensável que aproveitemos a troca de visões e informações propiciada pela web para fortalecer nossas fronteiras mentais e culturais, deixando de fora os bárbaros, se possível.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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