Livro digital, leitores analógicos
Por Jorge Carrano
Acabo de encerrar a leitura de dois livros, praticamente do mesmo tamanho (cerca de 480 págs cada), um feito na edição em papel, e outro no Kindle, o leitor digital da Amazon. Ao fazer duas leituras assim, no espaço de 12 dias, pude comparar melhor as vantages e desvantagens do aparelho. Vamos a elas:
Vantagens:
1. Velocidade: comprar o livro é muito rápido. De fato, leva menos de um minuto (depois de escolhido o título), entre pagar e receber o download do arquivo. Ou seja, se você, de repente, ficou preso num aeroporto, ou teve um compromisso cancelado de útima hora, pode comprar um livro, revista ou jornal e ocupar o tempo.
2. Frete: não tem. Clique, download e pronto, começa a ler.
3. Dicionário: o ótimo dicionário em inglês já instalado no aparelho é um conforto. Basta posicionar o cursor antes da palavra, e instantaneamente seu significado aparece no rodapé.
4. Notas e bookmarks: muita gente comenta que gosta de rabiscar o livro, escrever notas, marcar parágrafos. Isso também é possível no Kindle, com a vantagem de que você visualiza todas as suas notas numa tela, e clica na que deseja ler.
5. Voz: o aparelho tem um recurso (chamado “Text-to-Speech”) que lê o texto para você, em alguns casos oferecendo a opção de voz masculina ou feminina. E você pode, ainda, controlar a velocidade da leitura. E a “página” muda automaticamente.
6. Preço dos livros: a versão Kindle é sempre mais barata que a versão impressa.
7. Conforto: um livro, tenha ele 50 ou 800 páginas tem o mesmo “peso” nas suas mãos. Livros muito grossos, para quem tem o costume de ler na cama, por exemplo, são desconfortáveis. O Kindle você segura com apenas uma mão, e pode mudar de página com um clique. Como o botão “next page” está dos dois lados do aparelho (na versão menor), qualquer mão serve para avançar no texto.
Ainda um item de conforto, a fonte do texto pode ser regulada para até 6 tamanhos diferentes. Ou seja, se você esquecer os óculos de leitura, basta aumentar o corpo da letra. Veja abaixo:
Desvantagens:
1. Preço: a versão mais simples, nos EUA, ainda custa US$ 259. A DX, mais robusta, US$ 489.
2. Energia: a bateria dura muito, mas um dia acaba. Então, se você não tiver uma tomada ou um computador onde possa espetar o cabo USB para carregá-lo, adeus leitura.
3. Socialização: o livro pode ser emprestado, dado, dedicado. O arquivo no Kindle não pode ser compartilhado nem mesmo com outro Kindle do mesmo dono! Se eu quiser que minha mulher leia um livro que eu comprei, ou ela terá que ler no meu Kindle, ou comprar novamente o livro para ler em seu próprio aparelho.
4. Fragilidade: como todo aparelho eletrônico, pode ser danificado se cair no chão. Com o livro de papel, isso não acontece.
5. Aspecto ambiental: os livros em papel são feitos a partir de florestas plantadas para esse fim. São, portanto, um recurso renovável. Depois de lidos, podem ser doados para bibliotecas ou escolas. Em último caso, podem ainda ser reciclados. Já os aparelhos eletrônicos, por sua vez, consomem grandes quantidades de metais, água e energia para sua produção. E seu descarte ainda é um desafio para a sociedade.
6. Nossa resistência: temos uma natural resistência às mudanças, sobretudo quando impactam um hábito tão arraigado e presente, como o da leitura de livros. Somos, ainda, basicamente mecânicos e analógicos, num mundo cada vez mais digital.
Em resumo, o aparelhinho tem, sim, características interessantes. Mas como já escrevemos outras vezes aqui mesmo, a discussão em torno de sua adoção está equivocada.
Não se trata do maniqueísmo de saber se ele (ou qualquer outro leitor digital) acabará com os livros. A exemplo do que já aconteceu muitas vezes na História, as tecnologias conviverão por muitos anos.
O livro, feito de papel, está conosco há mais de 500 anos. Faz parte do nosso processo educativo e da nossa cultura.
A questão é saber se, daqui a 500 anos, existirão livros, sejam de papel ou digitais. Do jeito que as coisas caminham, é bem possível que não haja nem leitores.


