mai
25
2010
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Comigo não, violão

Por Jorge Carrano

Que o ser humano sempre foi egoísta, já sabemos. Faz parte da nossa natureza, dizem alguns, e as exceções se transformam em ídolos, mártires ou pessoas admiráveis simplesmente por serem humanas.

O egoísmo assume também proporções nacionais, com países que tomam ações para preservar interesses de seus cidadãos - o que é legítimo, diga-se - em detrimento das aspirações de outros. Um exemplo óbvio disso é a xenofobia em países desenvolvidos, que tentam conter as imigrações em massa do antes chamado “terceiro mundo”. França, Alemanha, Itália e outros países europeus vivem esse drama com frequência, e o tema assume as cores da bandeira nacional quando ocorrem eleições.

Há também um espírito de egoísmo em nossa relação com o planeta. Dele só tiramos insumos e devolvemos lixo. Jogamos lixo nas ruas, porque “não é problema nosso”. No máximo, é mais trabalho para o lixeiro. Ainda existem pessoas que acrescentam a estúpida frase: “se não fizer isso, o lixeiro não tem trabalho”, como se houvesse algum componente social em seu comportamento porco.

Acontece que o mundo está menor. Não apenas porque a população cresce rapidamente, mas porque o comércio internacional e as tecnologias de comunicação o deixaram mais próximo.

Se antes a erupção de um vulcão lá na Islândia prejudicava apenas os moradores do país ou, no máximo, os vizinhos mais próximos, agora o fenômeno paraliza vôos em São Paulo e Buenos Aires. Cria um colapso no sistema de trens e rodovias. E vira problema de todo mundo, mesmo aqueles distantes alguns milhares de quilômetros

As crises financeiras são outro exemplo. Um banco quebra, derruba uma bolsa de valores, e a economia inteira do planeta desmorona como aqueles dominós, que vão caindo em sequência.

Como cidadãos, é preciso que sejamos capazes de compreender que não estamos sozinhos. Nossos hábitos de consumo - e descarte, principalmente - são problemas de todos. Nossas ações deixarão pegadas no futuro.

As empresas, igualmente, precisam perceber que estão agora conectadas com um universo muito mais amplo do que as fronteiras fisicas de suas fábricas. A tão propalada sustentabilidade nada mais é do que observar, respeitar e cuidar de todos esses aspectos: produção, pessoas, ambiente.

Um deslize que em outras épocas passaria despercebido, hoje torna-se conhecido ao redor do mundo com a velocidade do instantâneo. E impactos imprevisíveis. É necessária uma mudança na forma de encarar sua relação com o planeta.

Nessa complexa teia em que fomos todos envolvidos, não dá para menosprezar um problema, simplesmente considerando-o alheio. O tempo mudou. Ao invés do egoísta “comigo não, violão”, é chegado o momento do conectado e solidário “comigo sim, tamborim”.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
mai
18
2010
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Concentração

Por Jorge Carrano

Com a chegada de mais uma Copa do Mundo, os meios de comunicação apresentam as cidades  e estádios que receberão os jogos. E também os hotéis onde nossa delegação se hospedará, sempre muito bonitos e luxuosos. No quarto dos jogadores, grandes TVs de LCD, internet banda larga sem fio (wireless), camas king size, entre outros confortos.

Não sei se no mundo de hoje um jogador pode se concentrar, de fato, enquanto estiver colocando conteúdos no seu blog ou Twitter, ou conferindo as versões dos jornais na internet, que podem elogiar ou criticar sua atuação.

Quem tem filhos adolescentes sabe o quanto é difícil que eles façam uma coisa só de cada vez. Estão no computador, mas  de olho na televisão ligada e ainda ouvindo música no iPod, tudo ao mesmo tempo. Perguntados se conseguem se concentrar, respondem que sim, mas meu palpite é que dizem isso apenas por não saberem o que é concentração.

Concentração não é a capacidade de “fragmentar a atenção” entre várias ações. Pelo contrário, é a capacidade de colocar toda a atenção num ponto, num foco central.

As ofertas de conteúdo, conectividade e interação são hoje muito grandes, e  boa parte dos jovens está sempre  “plugada” em algum aparelho. Como o dia continua a ter 24h, o jeito é dividir a atenção entre as inúmeras alternativas.

Outro exemplo de excessiva conectividade pode ser visto nos jovens que fazem intercâmbio no exterior. Mesmo distantes, continuam com o hábito de se conectar com os amigos aqui no Brasil, mantendo longas conversas pelo MSN, Skype, e-mail ou redes sociais. Isso interfere na capacidade, ou melhor, na oportunidade de interagirem com as pessoas do país que visitam. Diferentes visões de mundo, diferentes hábitos e culturas. Tudo muito enriquecedor. Antigamente, quando você viajava, ligava para casa no máximo uma vez por semana, e falava rápido, o suficiente para dizer que estava tudo correndo bem.

Penso que devemos – sobretudo os que têm filhos pequenos – ter cuidado para que as oportunidades de conexão não se tornem um fator negativo por conta da excessiva dependência que podemos ter delas.

Não se trata, evidentemente, de proibir ou ser contra esse tipo de recurso, até porque ele é inevitável, veio para ficar e estará cada vez mais presente.

Mas se não conseguirmos formas de concentrar nossa mente em algumas atividades, viveremos com a crescente sensação de estarmos fazendo cada vez mais coisas, e realizando menos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mai
11
2010
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A hora da zebra

Por Jorge Carrano

A propósito do post aqui publicado há duas semanas, “Nós e as cotias“, meu amigo Luiz Fernando Brandão,  especialista em Comunicação e também jornalista e tradutor, relatou-me uma interessante passagem do escritor Isaac Singer, num conto da coletânea O amigo de Kafka.

O protagonista conta que frequentava uma roda de velhos judeus numa cafeteria em Nova York. E que volta e meia faltava um - e logo chegava a notícia de que falecera. Nesse momento, diz o protagonista, cada um do grupo perguntava a seus botões se seria o próximo… E rolava aquele clima estranho na mesa.

isso o fazia recordar uma cena, que assitira num filme sobre a África, em que uma leoa perseguia um bando de zebras até pegar uma delas. As demais corriam assustadas por algum tempo, e depois se aquietavam e voltavam a pastar. E o protagonista do conto encerra esse trecho com a pergunta: “E teriam elas outra alternativa?”.

Acho que tem tudo a ver com o que ocorre conosco, os humanos. O mundo pode se desfacelar “lá fora”, mas enquanto não houver o final dos tempos, contas têm de ser pagas, fomes têm de ser satisfeitas, desejos têm de ser atendidos.

E assim seguimos, entre poucas certezas e quase nenhuma alternativa.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mai
04
2010
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A mulher (in)crível

Por Jorge Carrano

O escritor Mark Twain disse que “a diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem que ser crível”.

Durante anos, a indústria do entretenimento - primeiro o cinema e, depois, a televisão - tem buscado os modelos “perfeitos”, ajudando a forjar o padrão de beleza do nosso tempo.

Numa corrida desenfreada para atingir esses padrões, cada vez mais pessoas realizam diversos procedimentos, cirúrgicos ou não - botox no rosto, silicone nos seios ou redução de mama, lipoesculturas, entre outros - sem contar estranhas dietas.  Primeiro as mulheres, depois os homens, e agora até adolescentes buscam corrigir suas “imperfeições”, como se delas não fôssemos todos feitos.

Mas a tecnologia usada na indústria do entretenimento, ao desenvolver nos novos formatos de alta definição, e mais recentemente os tridimensionais (3D) - encarados como a salvação para a redução do número de espectadores nos cinemas - mostraram as imperfeições desses procedimentos.

No filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, a personagem “rainha vermelha”, magistralmente interpretado por Helena Bonham Carter, tem um cabeção enorme. Gerado por computadores, esse “defeito especial”, no caso, é parte do roteiro.

Mas a indústria do cinema começa a temer esse efeito artificial com as atrizes (e atores) excessivamente “retocados”. Afinal, com a qualidade superior das imagens de altíssima definição, correm o risco de parecerem tão artificiais quanto a rainha má.

Ou seja, nossas rugas, e as naturais imperfeições que todos trazemos, agravadas pelo tempo, podem voltar a fazer parte da realidade também das telonas, ou telinhas.

Pelo menos nelas podemos acreditar.

Helena Bonham Carter, no papel de Rainha Vermelha, no filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

Helena Bonham Carter, a cabeçuda Rainha Vermelha, no filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |

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