jun
23
2010
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O bom, o mau e o feio

Em 1966, o diretor Sergio Leone dirigiu um clássico do western: “O bom, o mau e o feio” (The good, the bad and the ugly), estranhamente traduzido para “Três homens em conflito”, em português.

Nessa Copa de jogos sem qualidade e técnicos histriônicos, pudemos ver os três personagens do filme em campo.

O “bom” seria o educado Parreira, que foi cumprimentar o técnico francês Raymond Domenech, o feio da vez. E põe feio nisso. Pegou um time de bons jogadores, e só conseguiu produzir cenas patéticas dentro e fora do gramado. Recusar a mão do Parreira foi sua (des)graça final, um comportamento incompatível com o fair play. Ou mesmo com a boa educação de casa.

Mais feio que ele, o “mau” é mesmo o nosso Dunga. Mal-educado quando o time ganha, mal-educado quando o time perde. Síndrome de perseguido pela Imprensa. E, para tudo, tem a necessidade de dizer que “tem que ser homem”.

A agressão gratuita ao jornalista Alex Escobar, da TV Globo (veja abaixo) é só mais uma prova de que ele não está preparado para o cargo que ocupa. Melhor, não é digno de ocupar um cargo dessa importância. Maltrata o português e os jornalistas. Aliás, botar a culpa de tudo na Imprensa virou esporte favorito dos tiranos (moda lançada por Hugo Chávez) e dos incompetentes.

Não adianta ganhar a Copa, e perder o respeito.

Mas não podemos nos iludir: Dunga, afinal, é um anão.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura |
jun
14
2010
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A pixação criativa

Por Jorge Carrano

O Segundo Caderno do O Globo de hoje traz uma interessante matéria de capa, falando do Poster Boy. O artista de 28 anos, cujo nome real é Henry Matyjewicz,  fez inúmeras intervenções em cartazes publicitários espalhados pelo metrô de Nova York. Em geral, suas críticas são voltadas ao capitalismo e ao nosso modelo de consumo, com passagens também por temas políticos.

O curioso é que tenha sido preso por vandalismo. Por que curioso? Porque estamos acostumados a ver no mundo digital muitas paródicas, críticas, reinterpretações e mashups envolvendo vídeos, músicas e outras manifestações artísticas. Algumas delas, inclusive, viram verdadeiros hits, com muitos milhares de visualizações e downloads. É um fenômeno característico do universo digital que vivemos, e que volta e meia acende novas polêmicas envolvendo direitos autorais.

Mas, em que aspecto uma “interferência” numa estação de metrô feita num anúncio do McDonald’s, por exemplo, é diferente de uma ação similar publicada no YouTube? A diferença é que, provavelmente, no YouTube será mais vista do que pelos passageiros da estação…

Vale lembrar que, além dos cartazes publicitários, outros “equipamentos” (lâmpadas, catracas, bancos etc) são diariamente depredados e pixados, e  não só no metrô, mas em toda a cidade. Por que uma “pixação” crítica e em alguns casos, engraçada, é considerada tão grave?

Além de ter as ideias, o artista tem ainda que ser bem veloz, pois sua ação precisa estar concluída em poucos minutos, antes que guardas cheguem à plataforma após o flagrante dos circuitos internos de TV.

Veja algumas das peças produzidas:

O mais curioso é que, apesar de preso, seu trabalho está sendo divulgado num livro chamado “The war of art”, que será publicado ainda esse mês.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
08
2010
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O futuro do trabalho

Por Jorge Carrano

Uma pessoa que tivesse deixado a Terra há 30 anos, e retornasse agora, encontraria um mundo muito diferente. Há 3 décadas, não havia internet, celulares, TVs de LCD, DVD, eletrodomésticos e carros tão avançados. As mulheres não trabalhavam fora, o mundo vivia dividido entre duas potências atômicas, ninguém se preocupava com o lixo, o esgotamento dos recursos naturais não era levado em consideração, entre tantas outras questões.

Apesar da mudança de comportamentos e de toda a modernidade tecnológica ao nosso redor, ainda seguimos padrões ultrapassados. Nosso método de trabalho, por exemplo, ainda é basicamente o mesmo de há 100 anos.

A Revolução Industrial ocorreu pela concentração de meios de produção extremamente caros: máquinas, matérias-primas, energia. Era preciso levar os trabalhadores até eles, e seus proprietários eram poderosos justamente por deter esses recursos.

Todo o processo do trabalho era baseado na necessidade de concentrar tudo num lugar só, inclusive os operários. O fluxo de trabalhadores de casa para o trabalho - elevado hoje ao máximo do stress nas grandes metrópoles - foi apenas uma das consequências desse modelo.

Embora seja fácil  notar que parte do trabalho intelectual pode ser feita em casa há tempos (quem nunca respondeu um e-mail ou preparou uma apresentação durante o fim de semana?) não sou dos que acredita que o trabalho poderá ser realizado totalmente em casa no futuro. A interação entre as pessoas ainda é fundamental para muitas atividades. E o ser humano precisa estar próximo de outros.

Se, por um lado, o trabalho em casa pode parecer ficção, tampouco podemos imaginar um futuro onde todos tenham que gastar horas no trânsito para chegar ao escritório. Não há como comportar mais carros, mais ruas e mais poluição que virão com a manutenção do modelo atual.

Fala-se muito em como as tecnologias de comunicação como videoconferências têm ajudado, por exemplo, a reduzir o número de viagens dos executivos para reuniões. Mas essa é uma fração muito pequena do problema.

Algumas alternativas têm sido consideradas:

- Mudança nos horários de trabalho. Por que todos precisam trabalhar de 9h às 18h, e de segunda a sexta-feira? Isso é ainda um padrão de “fábrica”, que parece anacrônico na sociedade do conhecimento.

- Criação de unidades descentralizadas. Será mesmo que todas as dezenas de departamentos de uma grande corporação precisam ficar no mesmo endereço?  A criação de duas ou três “sedes” de uma empresa numa mesma cidade poderia ser um caminho. Assim, ao menos parte dos empregados poderia morar mais perto do trabalho.

As mudanças ocorridas nas últimas décadas  impactam muitas áreas de nossa vida. A linha tênue que hoje separa a vida “privada” da “profissional” ficará cada vez mais invisível numa sociedade onde as pessoas terão apenas tarefas “cerebrais”, deixando para as máquinas o que os operários dos séculos passados faziam com as mãos.

Criar as condições - a começar pela educação - para que toda essa população possa fazer parte dessa  sociedade do conhecimento é, portanto, um dos grandes desafios para os próximos anos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
01
2010
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Quem ler viverá

Por Luiz Fernando Brandão

Uma das maiores livrarias brasileiras e da América Latina, detentora de mais de três milhões de títulos, começou recentemente a vender livros eletrônicos. E anunciou a novidade em todas as lojas de sua rede com um slogan bastante sugestivo: “O importante é ler”. Sugestivo e feliz, ao resumir em quatro palavras uma questão que, por força da tendência humana em fazer escolhas a partir de extremos, para muitos parece inconciliável: papel ou digital, o que é melhor?

No cipoal em que arrisca enredar-se o senso comum — não raro constituído de posicionamentos e opiniões equivocados porque incompletos — na discussão sobre o destino da vida na Terra, nosso velho companheiro papel é há tempos objeto de um sem-número de questionamentos, e bastante injustiçado por sinal.  Protagonista de boa parte do processo civilizatório, ele foi e continuará a ser importante na difusão do conhecimento e da cultura, na saúde, higiene e bem-estar das pessoas, assim como em diversas outras finalidades igualmente nobres.

Mas quem já não leu, na assinatura de uma mensagem eletrônica, o alerta “Antes de imprimir, pense no meio ambiente”? Ou o “Use papel reciclado, salve uma árvore”, disseminado nas escolas por professores empenhados em conscientizar aqueles que, do nosso legado, construirão o depois de amanhã, em tempos de aquecimento global?

Ambas as sugestões reforçam cuidados importantes e necessários, mas sua interpretação numa leitura superficial pode induzir ao erro. A louvável intenção original — conscientizar sobre a conservação da cobertura vegetal, os perigos do consumo irresponsável e a importância da reciclagem — é atropelada por frases de efeito que não privilegiam o conhecimento aprofundado. As pessoas seguem sem paradas para reflexão a corrente dominante, e terminam convencidas de que é apenas na natureza do produto, e não também na forma como é fabricado e utilizado, que devem basear suas preferências e exercer a parte que lhes cabe na construção do futuro de seus filhos e netos.

Sérios equívocos já foram cometidos pelo homem, ao achar-se capaz de interpretar o comportamento do ambiente e interferir para ajudar. Lembra-nos o escritor Michael Crichton, no romance Estado de medo, entre inúmeros outros exemplos nessa linha, o ocorrido no início do século 20 no Parque Nacional Yellowstone, nos Estados Unidos. Nesta que foi a primeira área oficialmente designada como reserva ambiental no mundo, funcionários ciosos de sua missão, ao observarem mudanças no ambiente e julgando entendê-las, resolveram que a população de lobos crescera demais e trataram de exterminá-la. O desequilíbrio provocado pela intervenção radical na cadeia alimentar foi possivelmente um dos primeiros desastres ambientais da história moderna perpetrados com a melhor das intenções.

Faltava na época, como falta ainda em nossos dias, sobretudo para os leigos, um entendimento mais completo das questões relacionadas ao ambiente. A tendência ao engano embasado na interpretação simplista do que se apresenta como verdade absoluta prevalece. A constatação do erro, infelizmente, vem muito tempo depois, quando os efeitos podem ser irreversíveis.

Assim, por força da repetição, acredita-se que, como quase todos os papéis são feitos de madeira, por extensão seu consumo constituiria uma ameaça ao verde do planeta. Por isso, as árvores devem ser “salvas” — uma verdade parcial. Esquece-se ou desconhece-se que, já há décadas, a maior parte do papel consumido no mundo provém de florestas renováveis para uso comercial, de rápido crescimento, cujo cultivo não apenas contribui para proteger e conservar as árvores nativas, a biodiversidade e os recursos hídricos, mas também é hoje, comprovadamente, uma das formas mais eficazes de estocar carbono e mitigar o chamado efeito estufa.

Ainda na década de 90, um estudo independente que é tão interessante quanto pouco conhecido foi encomendado ao Instituto Internacional para o Desenvolvimento Ambiental (IIED), de Londres, por um grupo de empresários desejosos de respostas confiáveis para essas questões. No trabalho, intitulado “O ciclo sustentável do papel”, um grupo multidisciplinar rastreou a pegada de carbono de todo o ciclo de vida do papel e concluiu que seu uso sustentável é viabilizado por um conjunto de quatro expedientes: o emprego de fibras virgens oriundas de fontes renováveis; a reciclagem de parcela do papel usado; a incineração e a transformação em energia de parte do que foi descartado; e a destinação do restante a aterros sanitários.

De volta ao livro tradicional e ao eletrônico, ambos, como tudo na vida, têm vantagens e desvantagens. Assim como outros bens de amplo consumo, se fabricados e utilizados de forma irresponsável, acarretam prejuízos. E não necessariamente implicam escolhas definitivas e excludentes, como expressou com muita propriedade e a dose certa de emoção o articulista Gianni Carta — evidente amante da boa literatura — em edição recente da revista Carta Capital.

Acredito que só o conhecimento, o espírito crítico e a sabedoria, proporcionados entre outras fontes pela leitura, podem nos ajudar a superar as ameaças que as forças insondáveis da natureza, associadas ao modelo econômico prevalente no mundo dito civilizado, trouxeram à vida no planeta – as alterações climáticas, sem dúvida, a mais premente. O plantio de árvores para múltiplas finalidades, o desenvolvimento de tecnologias limpas para uma economia de baixo carbono e, evidentemente, o consumo esclarecido estão entre as frentes a serem exploradas nas adaptações que se impõem. Sempre fundamentadas em políticas públicas que privilegiem a educação.

Por paradoxal que possa parecer, escolhas pautadas por informação incompleta são tão arriscadas quanto as fundamentadas no completo desconhecimento. Quase todo dia somos demandados a nos posicionar sobre as mais diversas questões – econômicas, políticas, ambientais e tantas outras. Para fazer isso com propriedade, a experiência e o bom senso recomendam uma boa leitura. Quem viver lerá.

Luiz Fernando Brandão é consultor de comunicação, jornalista e tradutor.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |

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