A alto custo do baixo custo
Por Jorge Carrano
Temos a clara consciência de que as novas tecnologias digitais tornaram a vida mais fácil e rápida.
Internet, celular, computadores e outros recursos fazem parte de nosso cotidiano há tempos e, por estarmos tão acostumados a eles, nem notamos como afetam nossa percepção do mundo.
Entre os muitos exemplos, um dos mais interessantes diz respeito à produção de imagens. Até há alguns anos, tirar uma foto era, no mínimo, um gesto que requeria duas providências: você precisava ter a máquina em mãos e ter filme na máquina.
Quantos de nós, nessa época, não precisamos sair correndo atrás de uma lojinha que vendesse pelicula para não perder o registro de algo interessante bem no meio de uma viagem?
A câmera digital veio render esse turista desprecavido, e mudou para sempre a relação do usuário com a fotografia.
Em pouco tempo, as câmeras invadiram outros espaços, como elevadores, ambientes públicos e privados de todo tipo, as ruas, os monitores e notebooks (que agora, inclusive, já vêm com câmeras embutidas) e, finalmente, os celulares.
Com isso, tirar uma foto ficou não apenas mais fácil, mas também mais disponível, pois quase sempre estamos com algum aparelho que oferece a câmera.
Isso é bom? Sim, há um lado legal nessa facilidade. Mas, como quase tudo, há desvantagens potenciais.
A principal delas é que ficamos menos seletivos quanto à qualidade. Como o filme em película era caro, não podíamos sair por aí fotografando qualquer coisa. Era preciso um certo cuidado. Hoje, com capacidades de armazenamento de muitos Megabytes, ninguém se preocupa muito. Vai fotografando tudo, depois você escolhe o que quer e deleta o resto, certo? Errado. Você acaba acumulando milhares de arquivos, e com isso não vê nada.
O velho álbum de fotografias impressas circulava pelas salas, as imagens eram “vistas”. Se você faz uma viagem e traz 2.000 fotos, nem o mais gentil e interessado amigo terá paciência para ver as imagens.
Além da qualidade da maioria das imagens ser ruim, justamente por não haver limites para a quantidade (resultado direto de ”ser muito barato”), passamos a prestar menos atenção às coisas, numa ilusão digital de que, ao podermos registrar tudo quase de maneira ilimitada, estaríamos, de fato, guardando momentos preciosos.
Mais interessante seria registrar com os próprios olhos um monumento ou paisagem por alguns segundos ou minutos, e só então clicar. Ou não.
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