A abdução do JB
Por Paulo Baiano *
Eu vivia o encantamento dos meus 20 anos quando, naquela distante tarde de 1972, entrei pela primeira vez na nova sede do Jornal do Brasil. O mítico prédio cinzento da Avenida Brasil 500 era frio e feio, mas transpirava modernidade, ainda mais se comparado com a antiga e apertada sede na Avenida Rio Branco, um dos primeiros edifícios art-déco do Rio de Janeiro, testemunha ainda da abertura da Avenida Central, começo do século XX.
Lógico que, no instante seguinte, eu e alguns amigos – todos hoje respeitáveis senhores jornalistas – iniciamos uma animada corrida de cadeiras, pelos enormes corredores, ainda desertos. Até 1974 trabalhei ali, como repórter da Rádio Jornal do Brasil. Ainda me lembro dos estúdios enormes, com paredes de pedra. Lembro da redação, que ocupava um andar inteiro, e fervilhava dia e noite com o tic tac incessante das máquinas de escrever. Por lá passavam todos os “que importavam” - políticos, empresários, artistas, celebridades - anônimos, assessores de imprensa. Lembro do restaurante, um andar acima, com o pior café expresso que já tomei na vida - como o prédio era no meio do nada, não tinha jeito: uma hora qualquer, teríamos que fazer o sacrifício de subir pro café, para dar uma turbinada.
Lembro de 11 de setembro de 1973, quando os gorilas tomaram o poder no Chile: eu estava de plantão na Rádio, os telex eram cuspidos pelas máquinas em frenesi trazendo notícias horripilantes, em tempo (quase) real, que minutos depois estavam sendo lidas pelo locutor em edição extraordinária, após passarem por minha máquina de escrever.
Em 1985, voltei à Av. Brasil 500, para escrever sobre Filmes na TV no Caderno B. Tudo parecia igual: a redação barulhenta, as pessoas, as máquinas de escrever, as imensas mesas onde as páginas eram diagramadas a mão, com elegantes traços de lápis sobre o papel branco. As máquinas ainda rugiam na Sala do Telex, e até mesmo o café mantinha aquele gosto horroroso.
Dois anos depois, chegava à redação o primeiro computador, um PC XT, com monitor de fósforo verde. Não poderíamos saber que aquela máquina trazia a mensagem de um futuro distante, onde tudo aquilo em volta iria desaparecer, seria engolido por uma nova realidade, virtual, que o aparelho antecipava. Logo o tic tac das máquinas daria lugar a um silêncio de mosteiro, com as velhas Remingtons substituídas por computadores em rede, cada dia mais poderosos e velozes. Em alguns anos, com a modernidade reduzindo o tamanho de tudo, o próprio prédio da Av. Brasil 500 tornou-se um elefante branco (no caso, cinza), e o JB se mudaria para algumas salas comerciais, novamente na Rio Branco.
Hoje acordei com o anúncio de página central, no JB, do qual ainda sou assinante: a partir de 1 de setembro, acaba o Jornal do Brasil impresso: ele passará a existir somente na Internet, impalpável, virtual. No anúncio, eles tentam colocar o fato como um avanço rumo ao amanhã. Afirmam que os 180 empregados (dos quais, 60 jornalistas) continuam trabalhando normalmente. Chegam a dizer que o JB Virtual será ecologicamente correto, porque não irá gastar mais papel! Mas a verdade é que o Jornal do Brasil, centenário e respeitável, como tantas gerações de brasileiros conheceram, acabou. Soterrado por uma dívida de mais de 100 milhões de reais, décadas de roubalheira e má administração, o JB, revolucionário e aguerrido, chegou a seu fim. Triste? Como saber?
O prédio da Av. Brasil, durante anos uma ruína saqueada, por muito pouco não se transformou em uma favela e ponto de controle estratégico, de onde o Comando Vermelho poderia fechar a saída do Rio de Janeiro com uma rajada de metralhadora. As velhas rotativas lá ainda dormem, como monstros entorpecidos, conforme captado pelas belas fotos de Rogério Reis.
O que podemos tirar de tudo isto? Que nada é tão definitivo que não possa ser destruído, modificado. Mais uma vez a História e o Tempo nos mostram suas lições: tudo é passagem, processo, um caminho daqui prali, onde o que realmente permanece é o próprio caminho. E as lembranças que ele nos deixa.
O mundo virtual, implacavelmente, continua engolindo o universo físico em que vivemos. Tudo migra para dentro desta telinha onde você lê meu texto. Será que, algum dia, nós mesmos seremos abduzidos pela luz de LED e LCD, e de nós restará somente uma lembrança diáfana, na mente de infindáveis e sucessivas gerações de computadores e robôs, seres de silício e plástico, autossuficientes, novos dono do mundo, herdeiros do conhecimento humano?
Como dizia o grande filósofo Nelson Ned: “mas tudo passa, tudo passará…”
* Paulo Baiano é carioca de criação, jornalista de profissão, músico por vocação, leitor do JB por (falta de) opção.
www.paulobaiano.com.br
paulofortes@uol.com.br
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