Muros
Por Jorge Carrano
A história registra a construção de muitos muros, como a Grande Muralha da China, com seus quase 7.000 km de extensão (7,5 metros de altura e 3,75 metros de largura). Sua construção começou em 220 a.C, com o objetivo de impedir a entrada de tribos nômades oriundas da Mongólia e da Manchúria.
O de Berlim, chamado de “muro da vergonha” dividiu a Alemanha de 1961 a 1989. Há alguns anos, Israel começou a construção de muros na fronteira da Cisjordânia. Os Estados Unidos, numa tentativa de inibir a entrada de imigrantes, ergueram um muro na fronteira com o Mexico. Até o Rio de Janeiro entrou na onda, com seus muros destinados a funcionar como “eco-limites”.
Na recente visita do Papa Bento XVI a Israel, “muros” foram usados como espaço de manifestação de idéias, numa pixação carregada de significados políticos (abaixo).
Mas o que é “o muro”, afinal? Todos os muros nascem da idéia de evitar que os de fora entrem, ou que os de dentro saiam. Separam universos, famílias e economias.
Aqui, nos interessa mais o muro como separador de idéias. A “idéia” de que do outro lado do muro há bárbaros, há pessoas indesejáveis, hábitos contrários aos nossos. E ficamos do lado de cá, nos sentindo “seguros”.
E como têm dois lados, ajudam a agravar nossa tendência quase natural ao maniqueísmo. Desse lado do muro, tudo bom. Do lado de lá, o que não queremos. E quem não sabe o que quer? Está “em cima do muro”.
São muitas as formas dos muros em nossa sociedade. Há os muros físicos, como paredes; há barreiras naturais (como um deserto ou uma geleira), há fronteiras, cercas e grades. Mas há outros muros menos aparentes. O carro blindado é um muro móvel. O visto no passaporte é outro. O elevador de serviço também.
Quando pensamos em muros, geralmente nos vêm imagens de barreiras para conter a movimentação de pessoas. Mas e a movimentação das idéias?
Tendemos a valorizar e acreditar numa imprensa livre, e recebemos as novas tecnologias de comunicação como elementos que ampliam essa liberdade. Afinal, mesmo “preso” atrás de um muro, um cidadão pode usar a internet ou o celular para registrar um fato ou entrar em contato com quem está “do outro lado”.
Ciente do poder dessas tecnologias, alguns governos tentam (e estão conseguindo) criar muros virtuais, restringindo o acesso a sites, monitorando as comunicações de voz e dados de seus cidadãos.
Não é à toa que os mecanismos de restrição de acesso aos dados instalados nos computadores são chamados de firewall (um “muro corta-fogo”).
Num mundo em que valorizamos cada vez mais a mobilidade - de pessoas, mercadorias e idéias -, é preciso estar atento aos diversos muros que continuam sendo erguidos ao nosso redor.
De todos, o que inibe o acesso à educação é o mais perverso, pois “empareda” a pessoa dentro de si mesma, deixando do lado de fora um mundo imcompreensível e intolerante.
E nem por isso mais seguro.
1 Comentário »
RSS feed for comments on this post. TrackBack URL

Carrano, muito atual seu comentário. Acrescento ainda que esse “muro” da falta de educação tem tudo a ver com os outros muros que você descreve. Afinal, se todos fossem educados, para que teríamos muros?