jun
02
2009

O joio e o filtro

Por Jorge Carrano

“Jornalismo é separar o joio do trigo. E publicar o joio.”

A frase do escritor Mark Twain me vem à cabeça ao ler sobre a programação proposta pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para “comemorar” seus 10 anos de governo. A primeira edição de seu programa de rádio “Alô Presidente” foi ao ar em 1999, logo após ter assumido o poder. O programa também é exibido pela TV estatal.

A ideia era fazer uma transmissão praticamente ininterrupta por quatro dias — de 28 a 31 de maio. Não conheço precedentes de uma ação tão longa. Nem mesmo Fidel Castro, famoso por seus discursos intermináveis e seus 50 anos de poder — que parece inspirar certos presidentes próximos —, imaginou ocupar uma programação por tanto tempo.

Isso não é jornalismo, nem informação e, certamente, não é entretenimento. Enquanto isso, o presidente ameaça fechar o canal Globovisión, acusado de exibir conteúdos que incitam a população contra seu governo.

O Hugo Chávez é o joio movido a petróleo.

O uso dos meios de comunicação dessa forma me fez lembrar ainda outro triste personagem do século passado: Joseph Goebbels. O chefe da propaganda nazista sabia do poder da mídia no convencimento das massas. Em 18 de agosto de 1933 (muito antes, portanto, do início da Segunda Guerra Mundial), Goebbels fez um discurso (1), do qual destaco dois trechos:

“O rádio será para o século XX o que a imprensa foi para o século XIX.  Com uma pequena mudança, podemos adaptar a frase de Napoleão (2) para a nossa época, falando do rádio como o oitavo poder. Sua descoberta e aplicação são verdadeiramente revolucionárias em termos de significado para a vida comunitária contemporânea. As gerações futuras poderão concluir que o rádio teve um impacto intelectual e espiritual tão grande sobre as massas como a imprensa, antes do início da Reforma”.

Se alguém duvida da importância do rádio para os nazistas, o próprio Goebbels explica, em seguida:

“Não teria sido possível para nós tomar o poder ou utilizá-lo nas formas que temos feito sem o rádio e o avião. Não é exagero dizer que a revolução alemã, pelo menos na forma que teve, teria sido impossível sem o avião e o rádio.”

Sem dúvida, os regimes totalitários precisam dos meios de comunicação (e perseguem seu controle). Mas as democracias também precisam deles. Só que a capacidade exclusiva que desses meios em falar para a sociedade está sendo pulverizada. Se antes era possível calar um veículo mandando fechar a redação do jornal ou lacrar as emissoras de TV, hoje isso é mais difícil.

Com as tecnologias atuais, a TV pode ser transmitida praticamente de qualquer lugar, veiculada inclusive pela Internet. E o jornal cuja redação foi fechada pode transformar-se em poucas horas num blog aberto. Daí a perigosa tendência de governos não-democráticos de tentarem controlar a comunicação de dados, voz e o acesso de cidadãos à Internet, como faz a China.

Eessas e outras alternativas proporcionadas pela tecnologia não significam que as sociedades devam assistir passivamente a ações que atentem contra o direito à informação. Isso porque os meios de massa ainda são fundamentais, sobretudo nas áreas rurais ou em regiões urbanas mais pobres, onde a Internet ainda não se viabilizou. E mesmo nas grandes cidades, onde boa parte da população não pode pagar por serviços de TV por assinatura e Internet em banda larga.

A democracia representativa, o estado de direito e as liberdades fundamentais, por mais que tenham falhas, devem ser preservados, quaisquer que sejam os ocupantes dos palácios presidenciais.

A imprensa, não importa se considerada o sétimo, oitavo ou milésimo poder, é um filtro imprescindível desse processo de separação do joio do trigo.

———————————————————————————————

(1) Por uma triste coincidência, o discurso “The radio as the eight great power” aconteceu também na abertura da décima edição do German Radio Exhibition. Para ler o discurso na íntegra: http://www.calvin.edu/academic/cas/gpa/goeb56.htm
(2) Napoleão referia-se à imprensa (escrita) como o 7° poder.

Written by Jorge Carrano in: Artigos, Cultura, Digital |

1 Comentário »

  • Mês passado, no Eurochannel, passou um documentário sobre um professor que anotou num diário as pequenas mudanças no cotidiano durante a ascenção do III Reich. Uma grande sacada do professor foi anotar as piadas. Essa circulava já perto da queda dos Nazistas:

    Frederico, o Grande, César e Napoleão estão conversando no céu (que céu? pergunto eu). Frederico diz:
    _ Tivesse eu tanques, teria tomado toda a Alemanha.
    César então diz:
    _ Tivesse eu aviões, teria tomado toda a Europa.
    Napoleão, por fim, diz:
    _ Tivesse eu Goebbels, ninguém saberia da minha derrota em Waterloo.

    Comentário | 3 de junho de 2009

RSS feed for comments on this post. TrackBack URL

Deixe um comentário

Powered by WordPress | Aeros Theme | TheBuckmaker.com