Cajamarca moderna
Por Jorge Carrano
Em 16 de novembro de 1532, o espanhol Franciso Pizarro, com cerca de 160 soldados, dominou o imperador inca Atahualpa, cujo exército era superior a 80 mil homens. O confronto, ocorrido na cidade de Cajamarca, atualmente no Peru, mostra bem a evolução das guerras entre os homens, e como a tecnologia sempre foi decisiva para seu resultado. Naquele dia, em poucas horas, os 160 espanhóis mataram cerca de 7.000 incas. Estes não conheciam as armas de fogo ou os cavalos.
Para lutar com uma espada, você precisava ficar muito próximo de seu inimigo. A arma de fogo viabilizou a luta (e a morte) à distância. Os aviões jogam bombas do céu, e os mísseis modernos ampliaram esta distância de ataque para milhares de quilômetros.
Mas as guerras do futuro serão travadas sem a preocupação de onde os inimigos se encontram. As armas também são outras. Silenciosas, mas igualmente letais.
A arena dos conflitos modernos não é mais uma pequena praça como a de Cajamarca, mas a internet.
O maior ataque já registrado a uma rede de computadores ocorreu em 2007, na Estônia. A ex-república soviética é um país com grande penetração da internet e oferta de serviços on-line. Você pode votar pela internet e, com um celular, pode pagar até o estacionamento. O ataque cibernético deixou o país paralisado, sem acesso aos sites de bancos, órgãos do governo e imprensa e serviços de emergência, para mencionar os principais. Foi um ataque do tipo DDoS (distributed denial of service), ou “ataque distribuído de negação de serviço”. (*)
Os ataques começaram ao final de abril de 2007, após a retirada de uma estátua conhecida como “Soldado de Bronze”, símbolo da expulsão dos nazistas pelo Exército Vermelho durante a Segunda Guerra. Moscou protestou contra a retirada do monumento, e o governo da Estônia acusou os russos de orquestrarem a ação, já que grande parte dos ataques veio de servidores localizados na Rússia.
No mesmo ano, a Scotland Yard impediu um ataque planejado pela rede terrorista Al-Qeada. Tendo como alvo as instalações da Telehouse Europe, um dos maiores data centers da Europa, a ação causaria a interrupção dos serviços de diversas instituições financeiras e bancárias da Grã-Bretanha.
Basta olhar ao nosso redor para perceber o quanto somos dependentes da tecnologia da informação e esse fato torna a questão uma preocupação crescente.
É interessante lembrarmos que a internet surgiu justamente pelo medo da guerra. Ao final dos anos 1960, o mundo vivia uma acelerada corrida armamentista entre os EUA e a União Soviética. Com medo de que um ataque nuclear soviético pudesse destruir dados estratégicos e informações valiosas, o governo americano instituiu uma agência, conhecida como ARPA - Advanced Research and Projects Agency - cujo objetivo era conectar em rede os computadores, sobretudo dos departamentos de pesquisa e inteligência. Descentralizar a informação. Assim nasceu, em 1969, a ARPANET, precursora da internet, cujo uso comercial só foi iniciado em 1993. Nesse período, seu caráter exclusivamente militar foi substituído pelo uso acadêmico, permitindo a troca de informações entre instituições de pesquisa e universidades.
Nos atentados terroristas aos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, a internet permitiu a milhões de pessoas acompanharem o desenrolar daqueles tristes fatos. A web perdeu apenas para a Televisão como meio de maior audiência. Diversos sites de agências de notícias ficaram tão sobrecarregados pelo enorme número de visitas que seus servidores pararam de funcionar. O mesmo efeito ocorrido na Estônia.
Temos, portanto, um fenômeno de faces opostas na relação da internet com a guerra. A rápida expansão da rede e de outras tecnologias de comunicação tem sido apontada como um dos mais importantes fenômenos da comunicação já ocorridos. Tamanha é a capacidade de mobilização possível com as novas tecnologias, que temos acompanhado várias tentativas de censura.
Enquanto alguns sites e redes de relacionamento são usados como “praças virtuais” para denunciar regimes totalitários e buscar liberdade de expressão, outros instigam o ódio racial e religioso, e ensinam a fazer bombas.
Nesse momento circula pela internet e outras redes, como o Twitter, uma campanha de protesto contra o resultado das eleições no Irã, com dicas e instruções para “derrubar” os principais sites do governo.
Nos conturbados dias em que vivemos, a internet, pensada originalmente para um cenário de guerra, torna-se uma ferramenta para lutar pela paz e a liberdade.
Mas, ao mesmo tempo, pode estar se tornando a nova arena onde as guerras do amanhã serão travadas.
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(*) Estes ataques caracterizam-se por um envio indiscriminado, em grandes quantidades, de requisições a um mesmo computador, em geral o servidor de uma empresa ou instituição. Esse ataque simultâneo paralisa a máquina, que não consegue atender a todos os pedidos (requisições) de páginas, tornando-se indisponível. É mais ou menos o que acontece quando os telefones ficam congestionados nas noites de Natal ou Ano Novo.
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No último final de semana, aqui em Salvador, uma garota de 15 anos que, segundo uma pessoa ligadas à família, foi morta por um rapaz que ela teria conhecido pela internet. E foi também pela internet que ela teria marcado o encontro com ele. A net foi a isca - ou a arma? - usada pelo criminoso para chegar à sua vítima. E esse é apenas um dos riscos, digamos, “concretos”. Tanto quanto, preocupam os riscos das armas mais sutis que muitos fazem da internet, dentre elas, a espetacular capacidade de usá-la para articular ações voltadas a destruir a reputação das pessoas, das instituições e das empresas, muito além de lhes roubar informações pessoais ou sigilosas. Bem que as pessoas de caráter podiam ter a mesma determinação dos criminosos em usar a net para articular transformações pelo planeta.