Reflexões no aeroporto
Por Jorge Carrano
Na sala de embarque do aeroporto de Congonhas (SP) observo que quase todos estão com um fone de ouvido (principalmente os mais jovens). Boa parte deles, navega no laptop simultaneamente. Estamos todos ficando “plugados”. Os Blackberries estão tão comuns quanto terno azul marinho.
Me pergunto se com isso estamos ouvindo mais ou menos música, se estamos lendo mais ou menos textos interessantes. Possivelmente, mais, é claro. Mas não seriam apenas “mais do mesmo”?
Hoje, meu iPod é, na verdade, minha própria rádio. Entro no carro, ligo o aparelho no sistema de som do veículo e lá vou eu, com músicas suficientes para aguentar uns dois dias de viagem.
Mas acabo ouvindo apenas as músicas que gosto. Como nosso tempo é cada vez mais curto, muitas vezes desistimos da “aventura” de procurar e baixar algo novo. Pelo mesmo motivo, também não somos mais “surpreendidos” por uma nova música no rádio do carro.
Penso que, por estarmos cada vez mais atolados na avalanche de informações, com um dia de 24h que parece ter 6h, não conseguimos aproveitar a variedade oferecida pelos diversos serviços do ambiente web. É mais ou menos como morar em São Paulo, onde existem centenas de ótimos restaurantes e shows disponíveis todos os dias. Mas quantos você consegue aproveitar, tendo um dia de trabalho e muitas horas de trânsito?
Mesmo que sejamos participantes de redes sociais, possivelmente iremos procurar grupos cujos interesses e perspectivas sejam similares aos nossos. De novo, a grande variedade de ofertas, ideias e espaços é substituída por nossa tendência a procurar o igual, o conhecido, o que dá “conforto”. Apenas buscamos eco para nossos próprios pensamentos e ideias.
Chamaram agora o meu voo, e em poucos segundos vários laptops voltam para suas mochilas.
4 Comentários »
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Excelente artigo, Jorge. O cenário é exatamente este. E, quando não enquadrados, chegamos a nos sentir excluídos… E um dos efeitos negativos talvez seja mesmo o isolamento disfarçado de informação e lazer que essa conexão permanente nos dá. Sim: certos de que precisamos estar antenados a estas novidades, deixamos de ouvir sinais do que se passa ao nosso redor, e ainda impedimos que músicas novas, que pessoas novas se aproximem e interfiram na nossa modernidade.
Um dia vai ser careta ser assim, como é careta não ser assim hoje.
Interessante, sua reflexão, Jorge. Essa hiperconectividade que, de alguma forma, a todos reúne, paradoxalmente também cria “ilhas” em que todos, de alguma forma, vivenciam a sensação de autossuficiência, de se bastarem por si. E as pessoas, no final, ficam mais “ligadas” ou ainda mais “desligadas” do que ocorre de fato — estaremos assitindo à agonia e morte do que já se chamou de vida interior?
Foi muito bem sacado. Os comentários tb interessantes, pq desse texto tiramos diversas conclusões. Criamos a bolha para nos proteger do novo? Será isso? Será o modismo? Não ficar excluído. Qualquer que seja a causa, é uma grande burrice. Nos tornamos prisioneiros do que é mais fácil. Deixamos escapar a chance de descobrir coisas novas e talvez até melhores.
Meu grande amigo, Jorge.
Grandes observações, virastes antropólogo ?
Brincadeirinha, mas realmente nos perguntamos se com todo esse movimento “on time”, principalmente o ligado ao acesso a novos produtos, como o exemplo da nova música, da nova leitura e etc., nos tornamos menos críticos, mais fechados a novas aventuras e, o pior, com baixa expectativa positiva, que parece ser o que consegue nos mover à frente. Realmente não sei, mas são importantes estas reflexões, principalmente para sermos sinalizados do nosso grande desafio que é, encontrar boa informação, além do mar de informações a que somos submetidos.
Vamos em frente !