Por Jorge Carrano
Uma rápida visita ao supermercado ou a uma loja de eletrônicos é uma interessante experiência de marketing, que nos sugere voltar o olhar para a seguinte questão: de onde, e por que, temos tantas variações de um mesmo produto na prateleira?
A segmentação dos produtos em diversas linhas, tamanhos, sabores, materiais e cores é uma novidade relativamente recente. A clásica frase de Henry Ford, na qual a “Ford fabrica carros de qualquer cor, desde que sejam pretos” parece muito longe, mas nem faz tanto tempo assim. As cores, marcas e modelos se multiplicaram não apenas nos carros, mas em quase tudo o que consumimos, produtos ou serviços. Ao contrário do que possa parecer, esse fenômeno não é resultado de brilhantes estratégias de marketing, mas fruto direto de diversas mudanças ocorridas na sociedade nas últimas décadas. Eis algumas:
O papel da mulher
A ida das mulheres ao mercado de trabalho - e seu crescente processo de assumir postos chaves nas empresas - trouxe para o mercado um novo “consumidor”. Tendo sua renda própria, as mulheres passaram a tomar decisões de compra antes exclusivas dos homens, como carros, por exemplo. E mais, em alguns casos, ela substituiu o homem como responsável pelo sustento da casa, ou simplesmente mandou o malandro embora.
Escolaridade
Há alguns anos, falar inglês era um diferencial. Hoje, falar inglês e espanhol é um requisito mínimo. E já podemos perceber, em alguns mercados, que o mandarim será, em breve, também importante. Apesar da proliferação de MBAs e cursos dos mais diversos níveis, a necessidade de investimentos em educação - principalmente nos níveis mais básicos - é uma das demandas mais urgentes para viabilizar o crescimento do país, mas é também uma oportunidade de negócios na área de educação.
Família
O conceito de família mudou muito nas duas últimas décadas. Além das mulheres terem saído de casa, temos hoje casais do mesmo sexo, pais vivendo com filhos de outros casamentos, muitos descasados, enfim, família também é um conceito em mudança. Esses movimentos já se traduzem também nos produtos da gôndola: muita comida pronta, porções individuais de legumes lavados e cortados, serviços de entrega em domicílio (o tal “delivery”) que entregam qualquer prato (ou praticamente tudo), e até aquela única fatia de pizza embalada e congelada …
Computadores
Surgido em meados da década de 1980, os computadores pessoais tornaram-se um eletrodoméstico comum, como uma geladeira ou fogão. E já atingiram um outro estágio, “escondidos” em muitos outros equipamentos, como televisão, celulares, videogames, relógios e, por incrível que pareça, até em nosso próprio corpo, com as modernas pesquisas e procedimentos cirúrgicos. Além do antigo desktop, temos os notebooks, netbooks e os smartphones.
Falando nos celulares
Se o automóvel foi o símbolo do século XX, o celular talvez seja o melhor representante desse início de século XXI. Os smartphones, cujo mercado que forte impulso com o lançamento do iPhone, serão os principais responsáveis por boa pate dos acessos à internet, superando os computadores “tradicionais” nos próximos anos. Aparelhos cada vez menores e mais conectados. Pessoas em movimento, novos padrões de consumo.
Escala de produção
A produção de artigos em quantidades menores, destinados a um determinado gosto ou público, tornou-se possível com novas técnicas de produção, suportadas em parte pelos avanços da capacidade de processamento dos computadores. Antes, era necessário produzir milhares de produtos idênticos, para que os ganhos de escala fossem possíveis. Hoje, você pode imprimir 3 exemplares de seu livro, fazer 5 camisetas apenas, personalizar a tampa de seu notebook com a foto do filho ou comprar uma única faixa de um disco, ao invés de todo o CD.
Comunicação em rede
Evolução natural da internet, as redes sociais fazem parte da mudança na face aparente da comunicação. Contemporâneo do modelo de Ford - pois o modelo de comunicação de massa corresponde ao da produção de carros ou outros itens também em massa - os meios de comunicação segmentaram-se ao extremo, permitindo a comunicação um a um, totalmente personalizada. E mais, o controle sobre o “consumo” de informação e entretenimento migrou também de mãos, sendo pilotado agora pelos consumidores do conteúdo. E estes ainda podem ser, ao mesmo tempo, produtores de conteúdo.
E o planeta?
Toda essa mudança no comportamento da sociedade e na forma de circular informações fez com que as pessoas prestassem mais atenção ao que acontece com o planeta. Ao perceberem os riscos do modelo de exploração irracional dos recursos naturais, passaram rapidamente a observar como as empresas tratam esses recursos. Para isso, a velocidade da comunicação atual foi determinante.
As empresas precisaram se adequar (algumas, se reinventarem) para organizar e dar voz às suas boas práticas. Ironicamente, a melhor forma de fazer isso é por meio das mesmas redes sociais e canais de comunicação instantânea que serviram para aumentar a atenção sobre suas próprias ações.
O fim do “reclame”, o início do “reclame”
Isso tudo nos leva a refletir sobre o comportamento da comunicação das empresas. Se até então, as marcas eram o alvo principal dos esforços e investimentos de comunicação e marketing, o foco agora precisa ser outro.
Não que a construção da marca tenha perdido importância, mas precisamos compreender é que a forma de construir esse valor mudou completamente. As empresas que quiserem sobreviver no cenário que se desenha a partir dessas mudanças devem perceber que simplesmente falarem bem de suas próprias marcas tornou-se investimento pouco eficaz. É preciso apostar na experiência que seus consumidores terão com seus produtos e serviços.
E deixar que eles falem bem de sua marca.
Um bom atendimento a uma reclamação, por exemplo, é mais barato e mais eficaz do que um lindo comercial no horário nobre. Pode não substituir o comercial, mas tornou-se igualmente importante, pois o consumidor que não for bem atendido tem agora a seu dispor um arsenal de recursos que pode trazer um sério dano à reputação de sua marca.
Uma resposta rápida e eficaz, por sua vez, pode significar que esse mesmo consumidor poderá ter uma dose de boa vontade e predisposição para divulgar seus produtos junto ao seu grupo de relacionamentos. E de graça.
Investir em atendimento e relacionamento, possível hoje graças à tecnologia e às ferramentas de comunicação, é mais do que estar antenado com o que acontece. É perceber o que passou a ter valor para o consumidor. É perceber que as pessoas, a sociedade e seus valores estão se modificando rapidamente, embalados numa tecnologia cada vez mais veloz.
Nos seus primórdios, a propaganda era chamada de “reclame”. Essa acabou faz tempo. O “reclame” de hoje é o canal que o consumidor quer, é a oportunidade de estabelecer com ele um relacionamento, primeiro passo para valorização de sua marca numa sociedade em eterna mudança.