jun
08
2010
0

O futuro do trabalho

Por Jorge Carrano

Uma pessoa que tivesse deixado a Terra há 30 anos, e retornasse agora, encontraria um mundo muito diferente. Há 3 décadas, não havia internet, celulares, TVs de LCD, DVD, eletrodomésticos e carros tão avançados. As mulheres não trabalhavam fora, o mundo vivia dividido entre duas potências atômicas, ninguém se preocupava com o lixo, o esgotamento dos recursos naturais não era levado em consideração, entre tantas outras questões.

Apesar da mudança de comportamentos e de toda a modernidade tecnológica ao nosso redor, ainda seguimos padrões ultrapassados. Nosso método de trabalho, por exemplo, ainda é basicamente o mesmo de há 100 anos.

A Revolução Industrial ocorreu pela concentração de meios de produção extremamente caros: máquinas, matérias-primas, energia. Era preciso levar os trabalhadores até eles, e seus proprietários eram poderosos justamente por deter esses recursos.

Todo o processo do trabalho era baseado na necessidade de concentrar tudo num lugar só, inclusive os operários. O fluxo de trabalhadores de casa para o trabalho - elevado hoje ao máximo do stress nas grandes metrópoles - foi apenas uma das consequências desse modelo.

Embora seja fácil  notar que parte do trabalho intelectual pode ser feita em casa há tempos (quem nunca respondeu um e-mail ou preparou uma apresentação durante o fim de semana?) não sou dos que acredita que o trabalho poderá ser realizado totalmente em casa no futuro. A interação entre as pessoas ainda é fundamental para muitas atividades. E o ser humano precisa estar próximo de outros.

Se, por um lado, o trabalho em casa pode parecer ficção, tampouco podemos imaginar um futuro onde todos tenham que gastar horas no trânsito para chegar ao escritório. Não há como comportar mais carros, mais ruas e mais poluição que virão com a manutenção do modelo atual.

Fala-se muito em como as tecnologias de comunicação como videoconferências têm ajudado, por exemplo, a reduzir o número de viagens dos executivos para reuniões. Mas essa é uma fração muito pequena do problema.

Algumas alternativas têm sido consideradas:

- Mudança nos horários de trabalho. Por que todos precisam trabalhar de 9h às 18h, e de segunda a sexta-feira? Isso é ainda um padrão de “fábrica”, que parece anacrônico na sociedade do conhecimento.

- Criação de unidades descentralizadas. Será mesmo que todas as dezenas de departamentos de uma grande corporação precisam ficar no mesmo endereço?  A criação de duas ou três “sedes” de uma empresa numa mesma cidade poderia ser um caminho. Assim, ao menos parte dos empregados poderia morar mais perto do trabalho.

As mudanças ocorridas nas últimas décadas  impactam muitas áreas de nossa vida. A linha tênue que hoje separa a vida “privada” da “profissional” ficará cada vez mais invisível numa sociedade onde as pessoas terão apenas tarefas “cerebrais”, deixando para as máquinas o que os operários dos séculos passados faziam com as mãos.

Criar as condições - a começar pela educação - para que toda essa população possa fazer parte dessa  sociedade do conhecimento é, portanto, um dos grandes desafios para os próximos anos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
jun
01
2010
0

Quem ler viverá

Por Luiz Fernando Brandão

Uma das maiores livrarias brasileiras e da América Latina, detentora de mais de três milhões de títulos, começou recentemente a vender livros eletrônicos. E anunciou a novidade em todas as lojas de sua rede com um slogan bastante sugestivo: “O importante é ler”. Sugestivo e feliz, ao resumir em quatro palavras uma questão que, por força da tendência humana em fazer escolhas a partir de extremos, para muitos parece inconciliável: papel ou digital, o que é melhor?

No cipoal em que arrisca enredar-se o senso comum — não raro constituído de posicionamentos e opiniões equivocados porque incompletos — na discussão sobre o destino da vida na Terra, nosso velho companheiro papel é há tempos objeto de um sem-número de questionamentos, e bastante injustiçado por sinal.  Protagonista de boa parte do processo civilizatório, ele foi e continuará a ser importante na difusão do conhecimento e da cultura, na saúde, higiene e bem-estar das pessoas, assim como em diversas outras finalidades igualmente nobres.

Mas quem já não leu, na assinatura de uma mensagem eletrônica, o alerta “Antes de imprimir, pense no meio ambiente”? Ou o “Use papel reciclado, salve uma árvore”, disseminado nas escolas por professores empenhados em conscientizar aqueles que, do nosso legado, construirão o depois de amanhã, em tempos de aquecimento global?

Ambas as sugestões reforçam cuidados importantes e necessários, mas sua interpretação numa leitura superficial pode induzir ao erro. A louvável intenção original — conscientizar sobre a conservação da cobertura vegetal, os perigos do consumo irresponsável e a importância da reciclagem — é atropelada por frases de efeito que não privilegiam o conhecimento aprofundado. As pessoas seguem sem paradas para reflexão a corrente dominante, e terminam convencidas de que é apenas na natureza do produto, e não também na forma como é fabricado e utilizado, que devem basear suas preferências e exercer a parte que lhes cabe na construção do futuro de seus filhos e netos.

Sérios equívocos já foram cometidos pelo homem, ao achar-se capaz de interpretar o comportamento do ambiente e interferir para ajudar. Lembra-nos o escritor Michael Crichton, no romance Estado de medo, entre inúmeros outros exemplos nessa linha, o ocorrido no início do século 20 no Parque Nacional Yellowstone, nos Estados Unidos. Nesta que foi a primeira área oficialmente designada como reserva ambiental no mundo, funcionários ciosos de sua missão, ao observarem mudanças no ambiente e julgando entendê-las, resolveram que a população de lobos crescera demais e trataram de exterminá-la. O desequilíbrio provocado pela intervenção radical na cadeia alimentar foi possivelmente um dos primeiros desastres ambientais da história moderna perpetrados com a melhor das intenções.

Faltava na época, como falta ainda em nossos dias, sobretudo para os leigos, um entendimento mais completo das questões relacionadas ao ambiente. A tendência ao engano embasado na interpretação simplista do que se apresenta como verdade absoluta prevalece. A constatação do erro, infelizmente, vem muito tempo depois, quando os efeitos podem ser irreversíveis.

Assim, por força da repetição, acredita-se que, como quase todos os papéis são feitos de madeira, por extensão seu consumo constituiria uma ameaça ao verde do planeta. Por isso, as árvores devem ser “salvas” — uma verdade parcial. Esquece-se ou desconhece-se que, já há décadas, a maior parte do papel consumido no mundo provém de florestas renováveis para uso comercial, de rápido crescimento, cujo cultivo não apenas contribui para proteger e conservar as árvores nativas, a biodiversidade e os recursos hídricos, mas também é hoje, comprovadamente, uma das formas mais eficazes de estocar carbono e mitigar o chamado efeito estufa.

Ainda na década de 90, um estudo independente que é tão interessante quanto pouco conhecido foi encomendado ao Instituto Internacional para o Desenvolvimento Ambiental (IIED), de Londres, por um grupo de empresários desejosos de respostas confiáveis para essas questões. No trabalho, intitulado “O ciclo sustentável do papel”, um grupo multidisciplinar rastreou a pegada de carbono de todo o ciclo de vida do papel e concluiu que seu uso sustentável é viabilizado por um conjunto de quatro expedientes: o emprego de fibras virgens oriundas de fontes renováveis; a reciclagem de parcela do papel usado; a incineração e a transformação em energia de parte do que foi descartado; e a destinação do restante a aterros sanitários.

De volta ao livro tradicional e ao eletrônico, ambos, como tudo na vida, têm vantagens e desvantagens. Assim como outros bens de amplo consumo, se fabricados e utilizados de forma irresponsável, acarretam prejuízos. E não necessariamente implicam escolhas definitivas e excludentes, como expressou com muita propriedade e a dose certa de emoção o articulista Gianni Carta — evidente amante da boa literatura — em edição recente da revista Carta Capital.

Acredito que só o conhecimento, o espírito crítico e a sabedoria, proporcionados entre outras fontes pela leitura, podem nos ajudar a superar as ameaças que as forças insondáveis da natureza, associadas ao modelo econômico prevalente no mundo dito civilizado, trouxeram à vida no planeta – as alterações climáticas, sem dúvida, a mais premente. O plantio de árvores para múltiplas finalidades, o desenvolvimento de tecnologias limpas para uma economia de baixo carbono e, evidentemente, o consumo esclarecido estão entre as frentes a serem exploradas nas adaptações que se impõem. Sempre fundamentadas em políticas públicas que privilegiem a educação.

Por paradoxal que possa parecer, escolhas pautadas por informação incompleta são tão arriscadas quanto as fundamentadas no completo desconhecimento. Quase todo dia somos demandados a nos posicionar sobre as mais diversas questões – econômicas, políticas, ambientais e tantas outras. Para fazer isso com propriedade, a experiência e o bom senso recomendam uma boa leitura. Quem viver lerá.

Luiz Fernando Brandão é consultor de comunicação, jornalista e tradutor.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Comunicação Empresarial, Cultura, Digital |
mai
25
2010
1

Comigo não, violão

Por Jorge Carrano

Que o ser humano sempre foi egoísta, já sabemos. Faz parte da nossa natureza, dizem alguns, e as exceções se transformam em ídolos, mártires ou pessoas admiráveis simplesmente por serem humanas.

O egoísmo assume também proporções nacionais, com países que tomam ações para preservar interesses de seus cidadãos - o que é legítimo, diga-se - em detrimento das aspirações de outros. Um exemplo óbvio disso é a xenofobia em países desenvolvidos, que tentam conter as imigrações em massa do antes chamado “terceiro mundo”. França, Alemanha, Itália e outros países europeus vivem esse drama com frequência, e o tema assume as cores da bandeira nacional quando ocorrem eleições.

Há também um espírito de egoísmo em nossa relação com o planeta. Dele só tiramos insumos e devolvemos lixo. Jogamos lixo nas ruas, porque “não é problema nosso”. No máximo, é mais trabalho para o lixeiro. Ainda existem pessoas que acrescentam a estúpida frase: “se não fizer isso, o lixeiro não tem trabalho”, como se houvesse algum componente social em seu comportamento porco.

Acontece que o mundo está menor. Não apenas porque a população cresce rapidamente, mas porque o comércio internacional e as tecnologias de comunicação o deixaram mais próximo.

Se antes a erupção de um vulcão lá na Islândia prejudicava apenas os moradores do país ou, no máximo, os vizinhos mais próximos, agora o fenômeno paraliza vôos em São Paulo e Buenos Aires. Cria um colapso no sistema de trens e rodovias. E vira problema de todo mundo, mesmo aqueles distantes alguns milhares de quilômetros

As crises financeiras são outro exemplo. Um banco quebra, derruba uma bolsa de valores, e a economia inteira do planeta desmorona como aqueles dominós, que vão caindo em sequência.

Como cidadãos, é preciso que sejamos capazes de compreender que não estamos sozinhos. Nossos hábitos de consumo - e descarte, principalmente - são problemas de todos. Nossas ações deixarão pegadas no futuro.

As empresas, igualmente, precisam perceber que estão agora conectadas com um universo muito mais amplo do que as fronteiras fisicas de suas fábricas. A tão propalada sustentabilidade nada mais é do que observar, respeitar e cuidar de todos esses aspectos: produção, pessoas, ambiente.

Um deslize que em outras épocas passaria despercebido, hoje torna-se conhecido ao redor do mundo com a velocidade do instantâneo. E impactos imprevisíveis. É necessária uma mudança na forma de encarar sua relação com o planeta.

Nessa complexa teia em que fomos todos envolvidos, não dá para menosprezar um problema, simplesmente considerando-o alheio. O tempo mudou. Ao invés do egoísta “comigo não, violão”, é chegado o momento do conectado e solidário “comigo sim, tamborim”.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Sustentabilidade |
mai
18
2010
0

Concentração

Por Jorge Carrano

Com a chegada de mais uma Copa do Mundo, os meios de comunicação apresentam as cidades  e estádios que receberão os jogos. E também os hotéis onde nossa delegação se hospedará, sempre muito bonitos e luxuosos. No quarto dos jogadores, grandes TVs de LCD, internet banda larga sem fio (wireless), camas king size, entre outros confortos.

Não sei se no mundo de hoje um jogador pode se concentrar, de fato, enquanto estiver colocando conteúdos no seu blog ou Twitter, ou conferindo as versões dos jornais na internet, que podem elogiar ou criticar sua atuação.

Quem tem filhos adolescentes sabe o quanto é difícil que eles façam uma coisa só de cada vez. Estão no computador, mas  de olho na televisão ligada e ainda ouvindo música no iPod, tudo ao mesmo tempo. Perguntados se conseguem se concentrar, respondem que sim, mas meu palpite é que dizem isso apenas por não saberem o que é concentração.

Concentração não é a capacidade de “fragmentar a atenção” entre várias ações. Pelo contrário, é a capacidade de colocar toda a atenção num ponto, num foco central.

As ofertas de conteúdo, conectividade e interação são hoje muito grandes, e  boa parte dos jovens está sempre  “plugada” em algum aparelho. Como o dia continua a ter 24h, o jeito é dividir a atenção entre as inúmeras alternativas.

Outro exemplo de excessiva conectividade pode ser visto nos jovens que fazem intercâmbio no exterior. Mesmo distantes, continuam com o hábito de se conectar com os amigos aqui no Brasil, mantendo longas conversas pelo MSN, Skype, e-mail ou redes sociais. Isso interfere na capacidade, ou melhor, na oportunidade de interagirem com as pessoas do país que visitam. Diferentes visões de mundo, diferentes hábitos e culturas. Tudo muito enriquecedor. Antigamente, quando você viajava, ligava para casa no máximo uma vez por semana, e falava rápido, o suficiente para dizer que estava tudo correndo bem.

Penso que devemos – sobretudo os que têm filhos pequenos – ter cuidado para que as oportunidades de conexão não se tornem um fator negativo por conta da excessiva dependência que podemos ter delas.

Não se trata, evidentemente, de proibir ou ser contra esse tipo de recurso, até porque ele é inevitável, veio para ficar e estará cada vez mais presente.

Mas se não conseguirmos formas de concentrar nossa mente em algumas atividades, viveremos com a crescente sensação de estarmos fazendo cada vez mais coisas, e realizando menos.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mai
11
2010
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A hora da zebra

Por Jorge Carrano

A propósito do post aqui publicado há duas semanas, “Nós e as cotias“, meu amigo Luiz Fernando Brandão,  especialista em Comunicação e também jornalista e tradutor, relatou-me uma interessante passagem do escritor Isaac Singer, num conto da coletânea O amigo de Kafka.

O protagonista conta que frequentava uma roda de velhos judeus numa cafeteria em Nova York. E que volta e meia faltava um - e logo chegava a notícia de que falecera. Nesse momento, diz o protagonista, cada um do grupo perguntava a seus botões se seria o próximo… E rolava aquele clima estranho na mesa.

isso o fazia recordar uma cena, que assitira num filme sobre a África, em que uma leoa perseguia um bando de zebras até pegar uma delas. As demais corriam assustadas por algum tempo, e depois se aquietavam e voltavam a pastar. E o protagonista do conto encerra esse trecho com a pergunta: “E teriam elas outra alternativa?”.

Acho que tem tudo a ver com o que ocorre conosco, os humanos. O mundo pode se desfacelar “lá fora”, mas enquanto não houver o final dos tempos, contas têm de ser pagas, fomes têm de ser satisfeitas, desejos têm de ser atendidos.

E assim seguimos, entre poucas certezas e quase nenhuma alternativa.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
mai
04
2010
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A mulher (in)crível

Por Jorge Carrano

O escritor Mark Twain disse que “a diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem que ser crível”.

Durante anos, a indústria do entretenimento - primeiro o cinema e, depois, a televisão - tem buscado os modelos “perfeitos”, ajudando a forjar o padrão de beleza do nosso tempo.

Numa corrida desenfreada para atingir esses padrões, cada vez mais pessoas realizam diversos procedimentos, cirúrgicos ou não - botox no rosto, silicone nos seios ou redução de mama, lipoesculturas, entre outros - sem contar estranhas dietas.  Primeiro as mulheres, depois os homens, e agora até adolescentes buscam corrigir suas “imperfeições”, como se delas não fôssemos todos feitos.

Mas a tecnologia usada na indústria do entretenimento, ao desenvolver nos novos formatos de alta definição, e mais recentemente os tridimensionais (3D) - encarados como a salvação para a redução do número de espectadores nos cinemas - mostraram as imperfeições desses procedimentos.

No filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, a personagem “rainha vermelha”, magistralmente interpretado por Helena Bonham Carter, tem um cabeção enorme. Gerado por computadores, esse “defeito especial”, no caso, é parte do roteiro.

Mas a indústria do cinema começa a temer esse efeito artificial com as atrizes (e atores) excessivamente “retocados”. Afinal, com a qualidade superior das imagens de altíssima definição, correm o risco de parecerem tão artificiais quanto a rainha má.

Ou seja, nossas rugas, e as naturais imperfeições que todos trazemos, agravadas pelo tempo, podem voltar a fazer parte da realidade também das telonas, ou telinhas.

Pelo menos nelas podemos acreditar.

Helena Bonham Carter, no papel de Rainha Vermelha, no filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

Helena Bonham Carter, a cabeçuda Rainha Vermelha, no filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital |
abr
27
2010
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Nós e as cotias

Por Jorge Carrano

A castanheira é uma árvore fenomenal. Quem já teve oportunidade de ficar à sua generosa sombra, no meio da Amazônia, sabe o que quero dizer. Atinge 50 metros (altura equivalente a um edifício de 16 andares), e vive facilmente por 500, 600 anos. Há registros de indivíduos com 800 anos de idade em nossa floresta.

Um ser tão imponente, no entanto, depende de um conjunto de criaturas menores, como as abelhas, que polinizam suas flores, e as cotias.

O fruto da castanheira cai da árvore dentro de um ouriço, que é tão duro que só a cotia consegue abrir. Depois de comer um pouco das castanhas (que são a semente), o simpático roedor enterra alguns pedaços na floresta para mais tarde. O problema é que, bicho de memória curta, esquece onde enterrou, e daí surgem novas árvores. O esquecimento da cotia é parte fundamental do processo reprodutivo da castanheira.

De nossa parte, agimos muitas vezes como cotias. Com uma diferença e uma semelhança.

A diferença é que consumimos as coisas em demasia, não temos o hábito de extrair da natureza só o necessário, muito menos o de “economizar” recursos, como facilmente podemos ver no cotidiano desperdício de energia e água.

A semelhança é nossa falta de memória. Não bastam as tragédias - “anunciadas” ou não - resultado direto das agressões ao meio ambiente. São rios assoreados e poluídos, excesso de fumaça e lixo nas cidades, e pessoas equilibrando seus barracos no alto de lixões.

Quando a tragédia acontece, a sociedade se mobiliza, cobra dos governantes providências, e a imprensa convoca especialistas a explicar o que aconteceu, e lembra episódios passados.

Mas depois, cotias que somos, esquecemos a castanha enterrada, a casa soterrada, e vamos em busca de outro ouriço.

A falta de memória da cotia ajuda a natureza. E a nossa?

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Sustentabilidade |
abr
22
2010
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Do reclame ao relacionamento

Por Jorge Carrano

Uma rápida  visita ao supermercado ou a uma loja de eletrônicos é uma interessante experiência de marketing, que nos sugere voltar o olhar para a seguinte questão: de onde, e por que, temos tantas variações de um mesmo produto na prateleira?

A segmentação dos produtos em diversas linhas, tamanhos, sabores, materiais e cores é uma novidade relativamente recente. A clásica frase de Henry Ford, na qual a “Ford fabrica carros de qualquer cor, desde que sejam pretos” parece muito longe, mas nem faz tanto tempo assim. As cores, marcas e modelos se multiplicaram não apenas nos carros, mas em quase tudo o que consumimos, produtos ou serviços.  Ao contrário do que possa parecer, esse fenômeno não é resultado de brilhantes estratégias de marketing, mas fruto direto de diversas mudanças ocorridas na sociedade nas últimas décadas. Eis algumas:

O papel da mulher
A ida das mulheres ao mercado de trabalho - e seu crescente processo de assumir postos chaves nas empresas - trouxe para o mercado um novo “consumidor”. Tendo sua renda própria, as mulheres passaram a tomar decisões de compra antes exclusivas dos homens, como carros, por exemplo. E mais, em alguns casos, ela substituiu o homem como responsável pelo sustento da casa, ou simplesmente mandou o malandro embora.

Escolaridade
Há alguns anos, falar inglês era um diferencial. Hoje, falar inglês e espanhol é um requisito mínimo. E já podemos perceber, em alguns mercados, que o mandarim será, em breve, também importante. Apesar da proliferação de MBAs e cursos dos mais diversos níveis, a necessidade de investimentos em educação - principalmente nos níveis mais básicos - é uma das demandas mais urgentes para viabilizar o crescimento do país, mas é também uma oportunidade de negócios na área de educação.

Família
O conceito de família mudou muito nas duas últimas décadas. Além das mulheres terem saído de casa, temos hoje casais do mesmo sexo, pais vivendo com filhos de outros casamentos, muitos descasados, enfim, família também é um conceito em mudança. Esses movimentos já se traduzem também nos produtos da gôndola: muita comida pronta, porções individuais de legumes lavados e cortados, serviços de entrega em domicílio (o tal “delivery”) que entregam qualquer prato (ou praticamente tudo), e até aquela única fatia de pizza embalada e congelada …

Computadores
Surgido em meados da década de 1980, os computadores pessoais tornaram-se um eletrodoméstico comum, como uma geladeira ou fogão. E já atingiram um outro estágio,  “escondidos” em muitos outros equipamentos, como televisão, celulares, videogames, relógios e, por incrível que pareça, até em nosso próprio corpo, com as modernas pesquisas e procedimentos cirúrgicos. Além do antigo desktop, temos os notebooks, netbooks e os smartphones.

Falando nos celulares
Se o automóvel foi o símbolo do século XX, o celular talvez seja o melhor representante desse início de século XXI.  Os smartphones, cujo mercado que forte impulso com o lançamento do iPhone,  serão os principais responsáveis por boa pate dos acessos à internet, superando os computadores “tradicionais” nos próximos  anos. Aparelhos cada vez menores e mais conectados. Pessoas em movimento, novos padrões de consumo.

Escala de produção
A produção de artigos em quantidades menores,  destinados a um determinado gosto ou público, tornou-se possível com novas técnicas de produção, suportadas em parte pelos avanços da capacidade de processamento dos computadores. Antes, era necessário produzir milhares de produtos idênticos, para que os ganhos de escala fossem possíveis. Hoje, você pode imprimir 3 exemplares de seu livro, fazer 5 camisetas apenas, personalizar a tampa de seu notebook com a foto do filho ou comprar uma única faixa de um disco, ao invés de todo o CD.

Comunicação em rede
Evolução natural da internet, as redes sociais fazem parte da mudança na face aparente da comunicação. Contemporâneo do modelo de Ford - pois o modelo de comunicação de massa corresponde ao da produção de carros ou outros itens também em massa - os meios de comunicação segmentaram-se ao extremo, permitindo a comunicação um a um, totalmente personalizada. E mais, o controle sobre o  “consumo” de informação e entretenimento migrou também de mãos, sendo pilotado agora pelos consumidores do conteúdo. E estes ainda podem ser, ao mesmo tempo,  produtores de conteúdo.

E o planeta?
Toda essa mudança no comportamento da sociedade e na forma de circular informações fez com que as pessoas prestassem mais atenção ao que acontece com o planeta.  Ao perceberem os riscos do modelo de exploração irracional dos recursos naturais, passaram rapidamente a observar como as empresas tratam esses recursos. Para isso, a velocidade da comunicação atual foi determinante.

As empresas precisaram se adequar (algumas, se reinventarem) para organizar e dar voz às suas boas práticas. Ironicamente, a melhor forma de fazer isso é por meio das mesmas redes sociais e canais de comunicação instantânea que serviram para aumentar a atenção sobre suas próprias ações.

O fim do “reclame”, o início do “reclame”
Isso tudo nos leva a refletir sobre o comportamento da comunicação das empresas. Se até então, as marcas eram o alvo principal dos esforços e investimentos de comunicação e marketing, o foco agora precisa ser outro.

Não que a construção da marca tenha perdido importância, mas precisamos compreender é que a forma de construir esse valor mudou completamente. As empresas que quiserem sobreviver no cenário que se desenha a partir dessas mudanças devem perceber que simplesmente falarem bem de suas próprias marcas tornou-se investimento pouco eficaz.  É preciso apostar na experiência que seus consumidores terão com seus produtos e serviços.

E deixar que eles falem bem de sua marca.

Um bom atendimento a uma reclamação, por exemplo, é mais barato e mais eficaz do que um lindo comercial no horário nobre.  Pode não substituir o comercial, mas tornou-se igualmente importante, pois o consumidor que não for bem atendido tem agora a  seu dispor um arsenal de recursos que pode trazer um sério dano à reputação de sua marca.

Uma resposta rápida e eficaz, por sua vez, pode significar que esse mesmo consumidor poderá ter uma dose de boa vontade e predisposição para divulgar seus produtos junto ao seu grupo de relacionamentos. E de graça.

Investir em atendimento e relacionamento, possível hoje graças à tecnologia e às ferramentas de comunicação, é mais do que estar antenado com o que acontece. É perceber o que passou a ter valor para o consumidor. É perceber que as pessoas, a sociedade e seus valores estão se modificando rapidamente, embalados numa tecnologia cada vez mais veloz.

Nos seus primórdios,  a propaganda era chamada de “reclame”. Essa acabou faz tempo. O “reclame” de hoje é o canal que o consumidor quer, é a oportunidade de estabelecer com ele um relacionamento, primeiro passo para valorização de sua marca numa sociedade em eterna mudança.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
abr
13
2010
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Inovação: papo com Mario Castelar

Por Jorge Carrano

Inovação está na pauta do dia das grandes corporações. É uma alvo móvel, num cenário de competição cada vez mais feroz. O CavernaWeb teve o prazer de conversar com Mario Castelar.

Com mais de 50 anos de atividades profissionais, Castelar é uma autoridade quando o assunto é inovação. Seu currículo é extenso e, entre suas realizações mais recentes, está o lançamento do livro Marketing da Nova Geração. Confira abaixo os principais pontos da entrevista.

1. Qual é a importância da inovação no cenário empresarial em que vivemos?

Castelar: Na minha opinião inovação é vital. Um dos executivos mais bem sucedidos que conheci, o Sr. Peter Brabeck (Chairman do Grupo Nestlé), sempre fez referência a um processo de melhoria contínua. Para mim isso é que é inovação. Examinar constantemente o que a empresa produz e como ela funciona nas diversas interações da cadeia de valor e verificar como é possível fazer melhor.

2. A globalização ajuda ou atrapalha as empresas brasileiras em seus processos de inovação?

Castelar: Penso que a  globalização ajuda. Porque apresenta desafios, no sentido de que há uma empresa fazendo melhor e ela pode e deve servir de referência para estimular nossos avanços.

3. Cite uma empresa brasileira que você considera realmente inovadora? Por que?

Castelar: Natura. Eles tiveram a coragem de olhar para a biodiversidade brasileira e de desenvolver ações em mercados no exterior. Preocupam-se com inclusão social e sustentabilidade. Parece para um observador externo como eu que a Natura está até mesmo revendo sua organização. Nomenclatura e descrição de cargos. Vejo a empresa e a marca construindo uma relação de respeito com as pessoas.

4. Seria possível pensar em um “país inovador”? Qual seria?

Castelar: Há movimentação no mundo todo. Claro que de forma mais intensa e mais diretamente relacionada com tecnologia nos países mais desenvolvidos. Tenho admiração (embora sem conhecer muito) pelo que acontece em Berkeley, nos Estados Unidos. Eles têm um curso de inovação e empreendedorismo muito interessante e foi lá que nasceu o Google, por exemplo.

5. Em que medida as novas tecnologias de comunicação - internet, smartphones, redes sociais - são oportunidades para inovação?

Castelar: Para mim tudo isso representa a maior revolução que a humanidade já experimentou, porque permite a circulação de informação não editada. Lembra do ditado: “quem conta um conto aumenta um ponto” ? Pois com a possibilidade de enviarmos fotos e vídeos em tempo real a partir de bases fixas ou móveis, podemos contar nossos contos sem acrescentar nenhum ponto. Isso é absolutamente novo e fascinante.

6. Muitas empresas afirmam investir grandes somas em departamentos de P&D e outras fontes de inovação para seus produtos. Mas até que ponto as empresas deixam de fazer o mínimo para atender bem o cliente? Não seria o caso de assegurar primeiro um bom produto/serviço, e só depois partir para novidades/inovações?

Castelar: Pois é.  Inovação não é só produto novo e nem apenas fruto de tecnologia, embora a tecnologia dê uma contribuição enorme para o processo.  Vejo oportunidades para inovarmos em construção de relacionamento com as pessoas, em logística e em processos de gestão.  Defendo o olhar inovador. Como um exercício de tentar enxergar o que fazemos e como fazemos por óticas diferentes .

7. Você acha que os jovens profissionais - de marketing, administração, comunicação - aprendem a pensar de forma inovadora ainda nas universidades, ou esse tipo de pensamento só é estimulado pelo mercado? Ou não pode ser aprendido?

Castelar: Tenho receio de que o modelo que adotamos nas nossas universidades seja mais voltado para uma forma de treinamento (as pessoas aprendem a fazer) do que para a formação (refletir sobre o que fazemos, pensar criticamente).

8. As agências de propaganda sempre “classificaram”  os consumidores por categorias, tendo como base fatores demográficos e socioeconômicos. Isso ainda faz sentido num mundo onde as pessoas se agrupam por afinidades, e não (apenas) por critérios geográficos?

Castelar: Acredito firmemente que no mundo da comunicação um a um com efeito massivo, precisamos rever a prática da segmentação. E acredito mais, como múltiplos que somos, participamos de vários grupos aos mesmo tempo.

9. No processo de elaboração do seu livro Marketing da Nova Geração, qual foi a descoberta/caso que mais te chamou atenção?

Castelar: Fiquei espantado  quando percebi que estamos entrando em contato com informação não editada.

10. Se você fosse dar um conselho a um estudante sobre como pensar de forma inovadora, qual seria?

Castelar: Sabe o caleidoscópio? Sugiro que prestemos mais atenção aos movimentos que as pessoas fazem do que às pessoas propriamente ditas. Parece que o movimento sugere possibilidades de futuro e conseqüentemente oportunidades.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos, Cultura, Digital, Marketing |
abr
06
2010
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A vingança de São Pedro

Por Jorge Carrano

Depois das lanternas e pilhas, agora chegou a vez do carioca comprar galochas e barcos infláveis. Na total desordem que se tornaram São Paulo,  Rio de Janeiro e outras metrópoles brasileiras, não faltam soluções e desculpas criativas.

Há algumas semanas, um gaiato surfista “nadava” nas ruas do Leblon em sua prancha. Muitos ficaram pendurados em grades, muros ou em cima dos carros esperando que o nível da água baixasse.

No dia seguinte, a água deixa lama e lixo nas ruas, e a vida continua. Mas a pergunta que não pode calar é: quem são os culpados?

Não seriam os políticos, que deixam as obras fundamentais - galerias de águas pluviais e bueiros entupidos, no caso da água - de lado em troca de inaugurar fachadas ou pracinhas?

Não seriam também os órgãos reguladores, que não regulam nem tampouco fiscalizam as concessões de aviação, telefonia, energia, água e todas as outras, que deixam o cidadão sem ter a quem recorrer?

Tenho ouvido muita gente culpar São Pedro. Sim, porque dizem, “não era esperado esse volume de chuva” ou “choveu hoje 200 milímetros, o dobro do esperado para o mês inteiro”.

Coitado do São Pedro, tem que levar a culpa pela corrupção e incompetência dos nossos governantes.

Torço para que um dia,  se um deles conseguir chegar ao Céu (por mais improvável que seja político ir para lá) vai se deparar com um São Pedro furioso, segurando seu novíssimo “iPad 5G”. Exibirá para o recém-chegado matérias veiculadas na imprensa em que ele, São Pedro, leva a culpa por todo esse caos.

Fazendo valer seus poderes, o apóstolo vai arrumar para o ilustre homem público uma “lotada” para o Inferno que, para azar do governante, vai ficar parada dias e dias por causa dos alagamentos que cobrem a cidade.

E São Pedro vai mandar mais chuva.

Escrito por Jorge Carrano em: Artigos |

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