Papo com Luiz Fernando Brandão
O CavernaWeb conversou hoje com o jornalista e tradutor Luiz Fernando Brandão, diretor da in futuro e membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje).
Você trabalhou muitos anos como gerente de comunicação corporativa da Aracruz Celulose, hoje Fibria. Quais são os principais desafios de comunicação numa empresa que vende uma commodity?
Talvez um dos principais desafios de comunicação de uma empresa B2B seja vencer o “fosso” natural que a separa do consumidor final, tornar-se conhecida e conquistar sua admiração. Quando ela é bem sucedida nesse esforço, ela ajuda a fortalecer a comunicação de toda a sua cadeia produtiva, a começar pelos seus próprios clientes, estes sim em contato direto e mais expostos às pressões da sociedade. Hoje essas pressões vão bem além da qualidade do produto ou serviço e se estendem a questões como governança e responsabilidade socioambiental. Até não muito tempo atrás, a voz corrente no meio empresarial era que produtora de commodity não tinha de se preocupar tanto com a comunicação externa. Mas a chegada da internet e o crescimento das redes sociais, associada à crescente inquietação com o futuro do planeta e dos negócios, mudou inteiramente esse quadro. Hoje, toda empresa tem de cuidar melhor da gestão de sua identidade, imagem e reputação.
Quais foram os principais impactos na comunicação das empresas com o surgimento da internet e, mais recentemente, das redes sociais?
Basicamente, as novas tecnologias tornaram muito mais simples e barato mobilizar pessoas e opiniões em torno de qualquer causa. Isso, aliado à exigência crescente da sociedade por selos e certificações de boas práticas econômicas, sociais e ambientais e seu efeito cascata em toda a cadeia produtiva, obrigou a “sair do armário” e a se apresentarem de corpo inteiro empresas que durante décadas atuaram praticamente desconhecidas das pessoas comuns, relacionando-se apenas com seus públicos de negócios.
Na sua opinião, as empresas brasileiras estão atuando corretamente nas redes sociais?
Acho que ainda estamos numa fase de aprendizado, de tentativa e erro, em que algumas empresas têm sido mais bem sucedidas do que outras em estabelecer a conversa com desconhecidos, ouvi-los e fazer-se ouvir, que na minha opinião deveria ser o principal objetivo de participar das redes. Mas muitas ainda insistem em sair a campo e “arregimentar” o maior número possível de “simpatizantes”, sem primeiro investir algum tempo e esforço tentando conhecer os novos interlocutores e definir melhor os temas que seriam de interesse comum. Fica estranho, em uma rede como o Facebook, você topar com um discurso sisudo de uma pessoa jurídica e um assunto que nada tem a ver com você. Diria que, nesse caso, o efeito da “ação de comunicação” pode ser o inverso do desejado – você acaba afastando as pessoas de quem você quer se aproximar.
A transparência é, hoje em dia, considerada um valor fundamental para as empresas. Que papel você acha que a internet e a comunicação mais instantânea podem exercer nesse processo?
De fato, se um dia acreditou-se que o segredo (e depois a propaganda) era a alma do negócio, a realidade agora é bem outra. Eu diria que, em nossos dias, “esperta” é a empresa que ouve mais do que fala e investe no diálogo como forma de superação de problemas. Têm mais futuro as organizações que firmam compromissos claros com a sociedade, estabelecem publicamente metas que atendam a esses compromissos, no curto e no longo prazo, e compartilham com propriedade os sucessos e insucessos, os impasses e dificuldades em alcançá-las.
Quais são os riscos de ter uma atitude de avestruz (‘enfiar a cabeça no chão’) para as empresas e profissionais num mundo tão conectado?
Nenhuma empresa é uma ilha. Se não conheço você e se você nada me diz, o que me disserem sobre você é, em princípio, tudo o que terei para fazer qualquer julgamento. E se você somente me procurar quando tiver problemas, dificilmente mudarei de opinião e resolverei ouvir e acreditar em você. É preciso dizer mais?
Por fim, que sugestão ou conselho você daria aos jovens que estão ingressando ou pretendem seguir a carreira na área de comunicação?
Tal como meu ídolo Nelson Rodrigues, meu conselho aos jovens é … envelheçam! Agora, sério: leiam o quanto puderem, para enriquecer seu repertório, sua visão de mundo. Procurem conhecer “causos” de comunicação, não somente de sucessos, mas sobretudo de equívocos – a gente aprende muito com os erros, e se puder ser com os erros alheios, melhor. Atualmente se produz muito mais literatura sobre comunicação empresarial, e os jovens que começam agora e as organizações em que trabalharão um dia têm muito a ganhar em conhecê-la.


